Escute o Prosa & Verso 022

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque - gente humilde
cristóvão cerqueira - nóis é jeca, mais é jóia, de juraildes da Luz
izaurinha garcia - a banca do distinto
cleová - miragem
zequinha reis - caminhada

A palavra é o caminho mais curto da comunicação. E o mais mentiroso.

Empregamos um mundo de palavras para nos comunicar. Raramente paramos para pensar no significado e na história de cada uma delas. Nem poderia ser diferente, porque falamos nossas idéias tão rapidamente que muitas vezes não conseguimos dizer o que pensamos ou o que sentimos, porque o movimento dos lábios, da língua e das cordas vocais não acompanha o curso das idéias.

Em um tipo de distúrbio mental chamado mania, a pessoa fala tão ràpidamente que não consegue deter-se em uma idéia ou na articulação de algumas idéias, como ocorre nas falas normais. Na mania, a fala é muito rápida, mas as idéias ainda são mais rápidas. Tudo fica rápido, exageradamente rápido no paciente com o quadro de mania.

Como se diz que cada um de nós tem pelo menos uns 15 minutos de loucura por dia, também temos nossos momentos de maior correria e atropelo mentais, uma forma amena de loucura. Nessas situações costumamos falar o que não devemos e acabamos dando bom dia a cavalo, porque a rapidez das idéias é maior do que nos momentos de normalidade. Daí que não temos nesses momentos condição de pensar melhor o que vamos dizer, o que seria muito mais saudável.

Mas, como a normalidade e a loucura andam mais de mãos dadas do que supomos, trago hoje aqui algumas palavras que são ditas comumente por todos nós ou quase todos nós, sem que tenhamos refletido sobre o real significado de cada uma delas. Vejam como dizemos muitas vezes o que não pretendíamos dizer, só pelo emprego das palavras sem conhecimento de seu significado:

Se queremos dizer que alguém está maltratando outra pessoa, falamos que ela está fazendo judiação, está judiando. Prestaram atenção? Judiar é uma palavra que significa fazer o que um judeu faz. Reflete portanto um preconceito racial contra os judeus. E isto está previsto como crime, na Constituição do Brasil.

Do mesmo modo preconceituoso, usamos os termos negrinha e negrinhagem, numa flagrante depreciação dos negros, pois as duas palavras têm conotações visivelmente pejorativas. Outro preconceito previsto na Constituição, que diz claramente que ninguém no Brasil deverá ser discriminado por causa da raça ou da cor da pele.

Outras formas que expressam preconceito, algumas grosseiras e outras já incorporadas ao nosso vocabulário, mas que merecem nossa atenção, para que as evitemos:

Baianada, significando estupidez, burrice. Esta palavra é aplicada não só aos baianos, mas a todos os nordestinos, que no sul e centro-sul do país são chamados de baianos.

Eu dizia que baianada é uma palavra preconceituosa, significando estupidez, burrice. Outra expressão igualmente preconceituosa é coisa de pobre. É um modo de dizer que uma pessoa está agindo de forma covarde ou estúpida.

Mas isto não acontece somente em nossos dias. Na antiguidade, os gregos discriminavam seus vizinhos que moravam na Beócia, chamando os tolos de beócios, palavra que até hoje é usada, quando queremos dizer que alguém é burro, que é imbecil, estúpido.

É comum fazer-se a mesma coisa com os moradores da roça, discriminando-os por serem matutos. Ora, matuto é quem é da roça. Com os índios, por serem tabaréus. Tabaréu é quem mora em tabas. Mas quando se diz de alguém que é matuto ou tabaréu, o que se está querendo dizer é que é ignorante, desajeitado, sempre numa referência humilhante. Estas e muitas outras palavras já fazem parte da linguagem comum e, de tanto serem usadas, vão ficando com seu sentido esquecido por nós que as usamos. Estou lembrando agora que quando alguém é ruim, quando faz mal aos outros, diz-se que é um vilão, o vilão da história. E certamente vamos nos esquecendo que vilão era, no passado, aquele que morava fora das cidades, que morava no povoado, na vila.

Já pensou você? Pelo visto todos nós somos os vilões, os tabaréus, os matutos, somos responsáveis por coisas de pobre, fazemos as desconcertantes baianadas e as negrinhagens da vida.

E as coisas boas pertencem apenas aos poderosos senhores, mesmo que sejam corruptos, desonestos e exploradores.