Escute o Prosa & Verso 023

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Músicas tocadas neste programa:
ataulfo alves, caco velho
john lenon, imagine
jomarito guimarães, devaneios

O velho Manoel Pereira, seu Pereira, como é conhecido por todos lá na Lagoa da Escada, um distrito que fica a duas léguas de Feira de Santana, conta estórias fantásticas, que jura terem acontecido em sua vida.

Seu Pereira me contou que tinha u’a mula arisca, que só ele montava nela. Boa de trabalho, mas arisca e sobretudo temperamental. Quer dizer, u’a mula aluada. Quando alegre, fazia tudo o que era serviço, ligeira e forte. Mas, quando azoava, não tinha quem segurasse. Pior do que doutor operador quando vê sangue jorrando.

Esta mula falada, por coincidência chamada Pinote, uma vez cismou com a cara de seu Pereira, bem no meio da Lagoa da Escada, que quase sempre está seca e por onde seu Pereira costumava passar, vindo de Pé de Serra pra cá e indo daqui pra lá. Cismou nesse dia, ninguém sabe por quê e resolveu empacar. Seu Pereira, teimoso também, virou o diabo com o animal e acabaram numa disputa da peste. Certamente pra ver quem era mais teimoso, sem dúvida.

Pra encurtar a estória, seu Pereira vinha montado na mula que de repente se atenazou de tal maneira, que deu três pulos, deixando seu Pereira de boca aberta. No primeiro pulo, seu Pereira chegou a ver a torre da igreja de São José, que fica a meia légua da Lagoa da Escada. No segundo pulo, viu a torre da igreja Matriz, que fica na sede, a duas léguas do local do ocorrido. E, finalmente, na terceira vez que a mula pulou, seu Pereira, sem mentira nenhuma, como diz ele, avistou a igreja do Senhor do Bonfim, na Bahia.

Se alguém duvidar deste caso, que pergunte a qualquer um dos amigos desse velho bom, trabalhador e gentil, que é o senhor Manoel Pereira, morador de São José.

Nos documentos dele, consta que sua idade é de 70 anos, que nasceu em 37. Pros bestas! Em 1937, seu Pereira já era rapaz feito, não tenho qualquer dúvida.

Pra mim, aquele velho já tem de 90 pra lá.

Pois bem, aconteceu alguma coisa ao velho boa prosa, de que todo mundo gosta. Velhinho jeitoso, artista, teimoso… Ele fabrica cabrestos com as fibras de sisal que ele mesmo colhe e desfibra, teimosamente, em seu velho farracho.

Nunca vi em minha vida um outro farracho. Só aquele. O de sua teimosia, lá no fundo da casa, debaixo do pé de cajuí.

O velho Pereira, afinal, tinha conseguido se aposentar como trabalhador rural. Já tem mais de ano que se aposentou e todo mês vem à cidade, montado num jeguinho. É ver dom Quixote. Aquele camarada magro, alto, paramentado de jaleco, facão na cintura, chapéu de couro, montado num jeguinho, os pés quase arrastando no chão. É dom Quixote mesmo! É quase uma lembrança, uma relíquia do nordestino obstinado, lutando com garra para resistir a ser esmagado pelo tal do desenvolvimento, do progresso. Ele todo é um símbolo de resistência, uma espécie de homem quase em extinção.

Mas, aconteceu alguma coisa a ele. De grave, hoje.

Embora aposentado, seu Pereira tem que trabalhar. Está cheio de netos e bisnetos, mas dá duro, dá murro, trabalha duro pra se sustentar e sustentar sua família.

- Mas, seu Pereira, que é isto? O senhor não é aposentado? Como é que o senhor continua, nesta idade, trabalhando ainda?

- Apois, é assim, meu branco… Vosmecê sabe quanto é que eu recebo da aposentadoria? Sabe não, num é? É por isso, meu branco, que eu inda trabaio. Agora mesmo, to trabaiando pra seu Elias, meu vizinho, sim, sinhô. Vosmecê num sabe? Ele tem olaria e eu trabaio cortando lenha pra olaria dele.

E assim, vai seu Pereira, seguindo a vida, trabalhando…

De dia, corta lenha pro seu Elias. De noite, trança seus cabrestos, pra vender na feira. Vez por outra, faz um pilão, de tronco de jaqueira. Faz mesmo. Queima com fogo, vai raspando, cavando com u’a machadinha, repete o fogo e assim consegue aquele velhinho curvado ferir o duro miolo do tronco de jaqueira, pra fazer um pilão.

O velho Pereira não se queixa. Não dá esse gosto pra ninguém. Mas hoje, ele gemeu. Eu mesmo vi seu Pereira gemendo…

Foi assim: cortando lenha na capoeira de seu Elias, seu Pereira buliu sem querer num enxame de italianas. As abelhas assanharam e atacaram seu Pereira. O Velho caiu no chão, sob as abelhas furiosas e com certeza teria morrido se não passasse alguém pela vereda perto, ouvisse seus gemidos e chamasse os vizinhos.

Deram socorro a seu Pereira, que agora está internado num hospital, entre a vida e a morte…

O patrão de seu Pereira, entretanto, não deu as caras. Não pôde dar socorro porque estava dormindo, cansado. Foi o que ele disse.

Agora, imaginem a angústia da família: o velho estava trabalhando. Como é que faz, se foi acidente de trabalho? Vai procurar o benefício? Mas seu Pereira é aposentado e, como tal, não pode mais trabalhar. Por outro lado, a aposentadoria mal dá pra comer. E aí se forma uma interrogação ainda sem resposta.

Aconteceu alguma coisa de grave ao trabalhador rural, seu Pereira, seu Manoel Pereira, do interior da Bahia.

Não vou dar conselhos. Primeiro, porque conselho só se dá a quem pede e, segundo, porque em geral quem mais gosta de dar conselhos é quem mais precisa deles.

Acontece que este programa é um programa que tem como objetivo estimular a reflexão, estimular a mudança de comportamento para melhor, estimular o gosto pela cultura, estimular a prática da civilidade, a prática da cidadania. Escutando por anos a fio pessoas com seus dilemas, seus conflitos e sua ânsia de encontrar a felicidade, venho reconhecendo que o caminho mais efetivo e valioso para se chegar a uma razoável condição de bem-estar é observar os direitos do próximo, é aprender a respeitarem-se reciprocamente uns aos outros.

Frequentemente percebo que quando se usa a palavra respeito, ela é pronunciada e entendida como reverência. Como se respeitar uma pessoa fosse calar-se diante dela ou dar bom dia, boa tarde, boa noite ou não dizer uma palavra mais pesada, algo assim. Entendo que respeitar é muito mais do que isto, do que simplesmente reverenciar. Nós devemos reverenciar os mais velhos, mas devemos respeitar a toda e qualquer outra pessoa. Uma pessoa mais velha não precisa reverenciar um mais novo, um adolescente ou uma criança. Mas respeitar, sim. Uma criança precisa de respeito, tanto quanto uma anciã de 80 anos, porque respeitar é reconhecer que a outra pessoa, seja quem ela for, não nos pertence, não é inferior a nós, enquanto ser humano. Pode ser diferente, pode ser mais pobre, mais fraca, mais feia, mas nunca inferior. O respeito é o reconhecimento de que a outra pessoa não faz parte de nós, não é um apêndice da gente. A outra pessoa, seja lá quem for, é outra criatura, outra alma, outra mente, outro corpo que não o nosso. Seus desejos são dela e não nossos, sua vida é dela, o que ela escolher é um caminho dela. Parece liberdade, não é?… E é liberdade mesmo. É a liberdade que podemos ter, cada um de nós pode e deve experimentar. Certamente, vocês poderão estar pensando que eu sonhando, que estou no mundo da lua, que estou enlouquecendo… Liberdade não existe, dirão alguns. Eu estou de acordo. Liberdade não existe, em seu sentido absoluto. Não é possível alguém ser livre, a ponto de invadir a liberdade do outro. É aí que entra o respeito. Só posso ser livre se reconheço o limite de minha liberdade, se reconheço que minha liberdade, que meu direito termina onde começa o direito do outro.

Este é o princípio de toda a ética, de toda a convivência humana sem opressão, sem exploração, sem o propósito de ter que levar vantagem em tudo. É o princípio da cooperação, da cidadania e do bem-estar social, expressão tão em moda e tão mal compreendida.