Qua 6 Fev 2008
Prosa & Verso 025 – QUARESMA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Há uma coisa curiosa nas religiões cristãs: primeiro, elas surgem lembrando às pessoas de que esta vida é pequena, vai acabar daqui a pouco. Depois, nos faz acreditar que somos especiais, somos assim chamados os reis da criação, somos filhos de alguém que tem o poder absoluto sobre o céu e a terra. Ao mesmo tempo nos faz encarar nossa condição de selvagens e brutos e nos impõe regras para que possamos conviver uns com os outros.
Um filósofo muito importante da igreja católica, chamado Agostinho, a quem a própria igreja considera como um santo e que, portanto mora no céu, de acordo com as crenças dessa religião, pois este Agostinho, conhecido como Agostinho de Hipona, pois era bispo de Hipona, ou como Santo Agostinho, afirmou que todos nós nascemos maus e que só conseguimos melhorar e nos tornar bons com a graça de deus e com o esforço que fizermos no decorrer da vida.
Agostinho de Hipona foi uma espécie de gênio, um homem muito inteligente e que refletia muito, como convém a qualquer pessoa, principalmente às pessoas que aprendem a se alimentar da filosofia. Filosofia é uma palavra grega que significa amizade à sabedoria.
Como eu estava dizendo, as religiões nos ensinam também que, apesar de sermos pequenos, fracos, sozinhos, abandonados e desconfiados, podemos nos ligar uns aos outros, podemos nos unir, podemos desenvolver uma prática de confiança uns com os outros e isto acabará nos tornando melhores do que éramos quando nascemos.
O dia de hoje, por exemplo, é conhecido como quarta-feira de cinzas. A igreja católica realiza um ritual muito tocante, significativo e bonito. Faz u’a marca na testa das pessoas, o sinal da cruz segundo sua liturgia, usando um pouco de cinza, enquanto pronuncia as palavras: lembre-se de que você é pó da terra e vai voltar pra terra de novo. Trocando em miúdos, lembre-se de que você não passa de um bolo de terra e que quando morrer vai voltar de novo para a terra de onde você saiu. Aliás, entre os antigos mitos hebraicos que estão na bíblia e que os cristãos adotaram, está aquele em que deus fez o homem com um pouco de barro e lhe deu um sopro que lhe fez viver.
Quando se fala em mitos não se quer dizer que são mentiras. São explicações figuradas dos fenômenos e dos acontecimentos. Os mitos encerram grandes verdades, talvez as maiores verdades, porém sua linguagem não é científica. As religiões, que fazem parte dos mitos, nascem da necessidade de acalmar a ansiedade do pensamento humano, pois não conhecemos o universo, não conhecemos o mundo, nem conhecemos a nós mesmos. Muita confusão se faz por aí, porque se crê nos ensinamentos religiosos como se fossem verdades científicas. E porque se crê em afirmações científicas, como se fossem explicações definitivas de tudo o que existe no universo. Dois grandes enganos, pois não se pode misturar ciência com religião, como não se pode misturar água com óleo.
Tudo isto estou trazendo hoje para o Prosa & Verso, porque hoje é quarta-feira de cinzas, uma data que faz parte da liturgia católica, que consequentemente faz parte de nossa cultura, de nossa civilização, pois nossa civilização foi orientada há quase dois mil anos pela cultura cristã.
A quarta-feira de cinzas é o primeiro dos próximos quarenta dias, que se convencionou a chamar de quaresma. O nome quaresma, vem do latim quadragésima. A quaresma começa hoje e vai até o domingo de ramos, primeiro dia da semana santa, quando uma parte dos cristãos relembra da prisão, das torturas e do assassinato de Jesus de Nazaré, chamado o cristo, um apelido que não era seu sobrenome como muitos pensam.
O dia do início da quaresma, o dia das cinzas que lembra a morte e nosso retorno ao chão, ocorre imediatamente depois do carnaval, que é uma festa com características pagãs, de muita permissividade, muita dança, muita bebida e muito sexo. Muita orgia, portanto. O carnaval, que significa adeus, carne, é uma espécie de despedida dos prazeres mundanos, dos prazeres da carne, aliás uma necessidade imposta por todas as religiões, pois desde a antiguidade que os homens parece que se dão conta de que o caminho mais curto para a morte é o prazer e a orgia. Por outro lado, de que vale a vida sem o prazer? Ora, quando se fala em prazer, o que primeiro vem a mente é o prazer sexual, seguido dos prazeres dos outros sentidos, como beber e comer. Mas os homens costumam se esquecer que esses prazeres só valem a pena quando existe uma necessidade biológica. O abuso de tais fontes de prazer leva a um desregramento que culmina com a morte. Daí que depois do carnaval vem a quarta-feira de cinzas para nos lembrar de aonde todos nós temos que ir.
Diante do infortúnio, diante das dificuldades e diante das conseqüências de nossos próprios erros, diante do sofrimento, da dor, da doença, diante da morte ou quando nos lembramos dela porque vivemos nosso dia-a-dia como se jamais fôssemos morrer, então nessas horas costumamos nos ajoelhar e fazer pedidos a Deus. Muitas vezes lhe prometemos algo em troca.
Tentamos fazer barganha com Deus. Assim me parece a quarta-feira de cinzas. E somos tão mal-acostumados a nos enganar e a enganar os outros, achamos sempre que somos os sabidos e os outros são os tolos, que acabamos agindo assim, do mesmo modo, em relação a Deus.
Refletir sobre os próprios erros ou sobre os sofrimentos nossos ou alheios ou sobre o que quer que seja, que não esteja de acordo com o que pensamos e desejamos, é útil e construtivo. Mas isto exige humildade. Acontece que nossa vaidade, nosso orgulho costuma ser grande demais para nos permitir ser sinceramente humildes. Agora, refletir diante de cada obstáculo, de cada pedra no caminho, não significa que a gente vá apelar para poderes sobrenaturais, fazendo promessas, tentando fazer barganhas, como se estivesse querendo embromar Deus, como é costume as pessoas fazerem-se umas às outras.
Você me desconcerta, pensa que está certa, porém não se iluda: no fim do mês quando o dinheiro aperta, você corre esperta, vem pedir ajuda. Não é assim que geralmente nós fazemos, quando corremos pra pedir socorro a Deus, quando corremos para consultar os adivinhos e charlatães querendo saber do nosso futuro como se isto fosse possível? Quando corremos para fazer promessas, tentando fazer barganha com quem acreditamos ter poderes sobrenaturais? E outras vezes fazemos despachos, em benefício próprio ou para causar o mal aos outros.
Assim confundimos a fé com a superstição. Na linguagem do dia-a-dia, quando queremos que uma coisa aconteça, costumamos dizer: tenho fé em Deus de que isto vai acontecer! E se não acontecer? Deixo de confiar em Deus?
Estas são algumas reflexões inspiradas no ciclo do viver, morrer e renascer, que esta semana de carnaval e quaresma nos faz lembrar.
Trago uma canção de Gilberto Gil, um poema que me parece uma prece, para dividir com vocês e que se chama Se eu quiser falar com Deus. Vamos ouvir.
Data do artigo: Quarta-feira, 6 dAmerica/New_York Fev dAmerica/New_York 2008 às 4:31 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 025 – QUARESMA”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Janeiro 8th, 2009 at 3:00 am
Sou ouvinte de todos dias.Adorei essa sacada de falar das coisas simples que compõe o nosso “EU” interior. E essa viagem que faz pelo mundo da musica é parte que mais gosto, principalmente da musicalidade de nosso terra!
A arte não tem fronteiras.É do jeito que é bordado no seu programa.A arte do mundo,misturada com a arte popular morrense.
Ah! sim só tenho algo contra: O horário. Pois tenho trabalhar nesse horário,mas faço de tudo para ouvir,tendo sempre um fone de ouvido na orelha.
Também acho o meia hora muito pouca,pelo vários temas disponíveis.
Marcos Decliê
Morro do Chapéu /Ba 9/02/08