Escute o Prosa & Verso 026

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Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga – o xote das meninas
chico buarque – não sonho mais
naná vasconcelos – vamos pra selva
banda de boca – bachianas brasileiras

Como as primeiras manifestações musicais não deixaram vestígios, é praticamente impossível responder. Alguns estudiosos nem tentam. Outros enfrentam o problema com base naquilo que se sabe sobre a vida humana na pré-história e preenchem as lacunas com certa dose de imaginação. Mas nenhuma hipótese diz com exatidão o momento em que os primitivos começaram a fazer arte com seus sons.

Ao que parece, o homem das cavernas dava à sua música um sentido religioso. Considerava-a um presente dos deuses e atribuía-lhe funções mágicas. Associada à dança, ela assumia um caráter de ritual, pelo qual as tribus reverenciavam o desconhecido, agradecendo-lhe a abundância da caça, a fertilidade da terra e dos homens. Com o ritmo criado, batendo as mãos e os pés, eles buscavam também celebrar fatos da sua realidade: vitórias na guerra, descobertas surpreendentes. Mais tarde, em vez de usar só as mãos e os pés, passaram a ritmar suas danças com pancadas na madeira, primeiro simples e depois trabalhadas, para soarem de formas diferentes. Surgia assim o instrumento de percussão.

Os barulhos da natureza deviam fascinar o homem desses tempos, dando-lhe vontade de imitar o sopro do vento, o ruído das águas, o canto dos pássaros. Mas para isto o ritmo não bastava e o artesanato ainda não permitia a invenção de instrumentos melódicos. De modo que estranhos sons tirados da garganta devem ter constituído uma forma rudimentar de canto que, junto com o ritmo, resultou na mistura de palmas e roncos, pulos e uivos, batidas e berros. Era o que estava ao alcance do homem primitivo. E terá sido um estilo que resistiu a séculos.

Contudo, segundo os atuais conceitos da música, essas tentativas de expressão foram demasiadamente pobres para se enquadrarem na categoria de arte musical, mas, do ponto de vista histórico, elas tiveram uma importância enorme. Porque a sua rítmica elementar acompanhou o homem à medida que este se espalhava sobre a terra, formando culturas e civilizações. E evoluiu com ele, refletindo todas as transformações que a humanidade viveu até chegar a ser como é agora. Ouça Naná Vasconcelos, um percussionista criativo que utiliza os mais estanhos e surpreendentes objetos para fazer sua música. Não usa qualquer instrumento convencional.

Em todas as culturas, em todos os grupos humanos, a música está presente, principalmente com seus aspectos religioso e artístico. Mas também é a música um importante meio de comunicação das nossas emoções, tanto quando ouvimos quanto quando a executamos, seja cantando, seja produzindo-a através de instrumentos. Seja com o refinamento e a elaboração de uma partitura, que é a música escrita, ou com a naturalidade da música do banheiro, aquela que a gente canta sem inibições, quanto toma banho.

Eu imagino que haja uma distinção entre música e ruído, embora nem sempre isto seja considerado, pois muito som que se diz que é música, pra mim não passa de ruído. Até acredito que o que caracteriza a música é o prazer, enquanto que o ruído causa basicamente incômodo e até desprazer.

Não vou entrar numa consideração em que o volume, mesmo que de música, causa desprazer. Nossa capacidade de escutar é limitada, seja nas vibrações, seja na intensidade do som. Os sons excessivamente altos costumam ultrapassar o nível do incômodo e do desprazer e podem mesmo chegar a prejudicar os nossos ouvidos, o nosso sistema nervoso e nosso espírito.
Entretanto, a música em si é como uma comida gostosa, um gostoso alimento para a mente e de gosto não se discute.