Escute o Prosa & Verso 028

Baixe o arquivo MP3

Músicas tocadas neste programa:
trio nordestino – cabeça inchada
sivuca – a história se repete
almir sater e renato teixeira – no rancho fundo
renato russo e gabriel o pensador – palavras repetidas
cleová barreto - coimbra
alvino valois e o grupo cascata de saudades – alvorada em brasília
jomarito guimarães – saxofone, por que choras?

As medicinas são como as religiões: quem tem a sua, diz sempre no singular, a medicina, a religião, cada um considerando a sua como a melhor, a única verdade. Não é pra menos, porque a história da medicina começa com a história das religiões. Num tempo muito antigo, quase no tempo em que os bichos falavam ou pelo menos se acredita nisto, os seres humanos pensavam, raciocinavam, mas não tinham conhecimentos que norteassem seus pensamentos, seu raciocínio. Então, como hoje ainda é, tentavam encontrar explicações para o que não conseguiam compreender.

Uma vez que alguém encontrava uma explicação mais ou menos convincente ou simpática, passava a divulgar e muita gente adotava aquela explicação e em pouco tempo estava sendo considerada como verdadeira. O tempo passou, são milhares de anos, mas nós os seres humanos continuamos ignorantes da maioria das coisas que ocorrem no universo, fora de nós e também dentro de nós, não só em nosso corpo, mas sobretudo em nossa mente. É costume se dizer que cada cabeça é um mundo e este dizer contém muita sabedoria, mas isto é assunto pra outra prosa, outro dia.

Voltando ao assunto das explicações para as coisas que de início não entendemos, basta que alguém venha com suas idéias e, se não conseguimos ter idéias melhores, então logo passamos a acreditar nos argumentos dos outros e passamos em seguida adiante aquelas crenças como se elas fossem a verdade. Assim nascem os dogmas e os princípios religiosos, sob a justificativa de que se trata de revelação dos deuses, dos santos ou dos mortos que supostamente moram no além. E assim vamos vivendo, sem sequer querer repensar nossas crenças, pois além de tudo nos ensinaram que é pecado pensar, quanto mais questionar, aquelas afirmativas que os sabidos nos impõem como verdadeiras. Intervalo pra respirar, enquanto vocês escutam

Como eu estava falando da curiosidade de saber, de como são inventadas as explicações, inevitavelmente falei da história das crenças. E quando se fala em crença, pensa-se logo em religião. Ora, a religião é uma espécie de irmã mais velha da medicina. As duas surgiram mais ou menos juntas e em nossa cultura houve no passado um deus chamado Asclépio ou Esculápio, que era considerado o pai da medicina. Diziam na época que Hipócrates de Cós, o primeiro médico por assim dizer, era filho direto desse deus, Asclépio ou Esculápio, e que aprendeu com seu pai o ofício, a profissão que exercia. Isto significa que teria aprendido a arte da medicina diretamente de um deus. Como se diz hoje, uma revelação.

Como todos os conhecimentos que adquirimos na vida, também os conhecimentos médicos vieram e vêm acompanhados de crenças ou, se preferirem outro nome, acompanhados de superstições. Aí é que a porca torce o rabo, quando confundimos a crença ou superstição com o saber propriamente dito. Na verdade, não é fácil distinguir o conhecimento da crença que o acompanha. É difícil e em geral até impossível, dependendo da época em que se vive.

A gente, portanto, está totalmente envolvido por crenças, não só religiosas, pois são as crenças que nos dão certeza e tranqüilidade, uma segurança enganadora, na verdade. Na verdade, sempre que temos dúvidas e sempre que reconhecemos nossa ignorância, ficamos inseguros. Então, para não nos sentirmos inseguros e pequenos como de fato somos, acabamos abraçando qualquer crença, por mais tola e absurda que seja.

Por outro lado, uns homens e mulheres não se conformaram em simplesmente acreditar e ponto final. Duvidaram do que aprenderam, duvidaram de que aquilo que tinham aprendido fossem verdades e pronto. Da dúvida veio a curiosidade e da dúvida curiosa veio o estudo. Assim é que nasceu a ciência. Durante muito tempo vem a ciência tentando dar explicações para tudo. E aí então incorre no mesmo erro, tão comum e usual entre os humanos: o erro de acreditar que sabe. O erro de, a cada descoberta, supor que possui a verdade.

Os cientistas e os filósofos só podem ser verdadeiros cientistas e verdadeiros filósofos se cultivarem suas dúvidas. Se desprezarem suas dúvidas deixarão de ser cientistas ou filósofos. Assim, parece que a verdade está na dúvida e não na certeza.

Aliás, Nietzsche, o célebre filósofo alemão que viveu há pouso mais de cem anos, já afirmava que o maior inimigo da verdade não é a mentira. É a convicção. Dá o que pensar. E para isto estamos aqui.