Escute o Prosa & Verso 029

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Músicas tocadas neste programa:
Roberto Silva - Bebida, mulher e orgia
Maria Betânia – Esse cara
Gonzaguinha – Grito de alerta
Chico – O malandro
Gabriel o pensador – Até quando
Moysele – Liberdade virá, de Dantinhas
Netinho - Chão e Lágrima.

Nesta semana ocorre o dia consagrado à mulher. O dia da mulher. A mim parece uma ironia e desconfio de que todas as vezes em que um dia é dedicado a algo, para nos fazer lembrar desse algo, é porque no dia-a-dia estamos mesmo é nos esquecendo disto, disto que nos pretendem lembrar nesse dia especial. Posso admitir que um dia seja escolhido para comemorar e homenagear uma profissão ou uma pessoa específica que já faleceu, como é o caso dos santos da igreja católica, ou mesmo um evento que já passou e que seja importante lembrar de vez em quando. Mas não consigo engolir que haja um dia dedicado à mulher ou ao homem ou às crianças, aos pais, às mães e assim por diante. Do mesmo modo, não cabe na minha cabeça que possa existir um dia próprio para se ser educado, para se ser cidadão, para se ter bom caráter, para se respeitar o outro e até mesmo para se perdoar.

Tudo isto, a meu ver, deve fazer parte do nosso dia-a-dia, do nosso viver. Homenagear a mulher, por exemplo, um dia por ano, quando durante os outros 364 dias ela é coisificada pela propaganda, isto é, encarada como se fosse uma coisa, um objeto, um objeto de prazer e exploração para o homem e para o sistema machista em que vivemos, isto sinceramente me parece uma grande hipocrisia, um artifício enganoso e até perverso, que nos leva a nós homens e até às próprias mulheres a aceitar a condição de desigualdade, exploração e opressão que a sociedade tem imposto, tratando as mulheres como se fossem apenas objeto de prazer dos homens, como se fosse igual ao jogo, à bebida e à orgia, às vezes como se fosse, quando muito, um biscuit, uma bonequinha. Em geral, ao invés de companheira, como se fosse apenas uma empregada e, no mais das vezes, uma escrava, que sirva ao homem na cama e na mesa.

Eu gostaria de estar sempre neste programa homenageando aqui todas as mulheres, meninas-moças, mulheres maduras, senhoras de idade e crianças, que carregam o lar nas costas, cuidando da roupa de todos, da casa, da comida, da educação dos filhos e, especialmente, aquelas cujos maridos vão para a rua beber e voltam para casa agressivos, descontando em suas companheiras os maus tratos que o mundo lhes faz, as humilhações, os sofrimentos, a falta de dinheiro, o trabalho duro ou sejam lá quais forem os motivos de suas frustrações. Os casamentos, acasalamentos, amigamentos, ajuntamentos, amasiamentos, como quiserem chamar, devem ser todos relações de companheirismo e não para infernizar as vidas dos casais, mas, ao contrário, deveriam servir para suavizar a dureza da vida, que já é de tanta luta e trabalho.

Ela tinha 29 anos. Agora tem 31.

Há dois anos que ela esteve aqui me procurando, falando se sua vida, de seus problemas. Dela, da família dela, da vizinha dela.

Pois bem. Aos 31 anos de idade, cansou. É Nega o nome dela. Pelo menos todo mundo conhece ela como Nega.

E Nega cansou mesmo da vidinha ingrata que ela levava, aos 31 anos de idade. Cansou dos dez filhos sempre com fome, doentinhos, olhos remelando, nariz correndo, os dez bruguelos barrigudos que ela tem visto crescer e tem ajudado a batalhar pela vida.

Cansou, que ela não é de ferro. Vivia sofrida, lavando pra ganho. O dinheiro que Silvino, o marido, ganhava, acabava torrando na cachaça pelas vendas e pelos butecos da vida. Toda noite o sofrimento de agüentar aquele homem fedendo a pinga, bruto, a esbravejar com os filhos e a espancá-la de vez em quando.

E Nega, como mulher que é, sem direito algum a reclamar; pois mulher é mulher e tem de viver pra servir ao homem.

Foi assim que lhe ensinaram, desde pequenininha. Assim aconteceu com sua mãe, assim aconteceu com sua avó. Mas com Nega não iria continuar acontecendo assim não.

Nega se calou, é claro, mas não parou de pensar. Um dia, quando ninguém esperava, deixou os dez filhos, deixou o marido, deixou a trouxa de roupa sem lavar, o feijão no fogo, uma lágrima na fronha e fugiu com Geo, aquele rapaz de Minas, que é encanador e que morava num quartinho, no fundo da casa de Silvino e Nega.

É bem verdade que a vizinhança toda, homem e mulher, caiu em cima de Nega, não mediu palavras para condenar seu ato. De vagabunda pra baixo, todo nome era nome. Todo mundo se esqueceu dos treze anos de sofrimento e coragem daquela mulher, criando os filhos, agüentando as cachaças do marido, suportando e brigando contra a pobreza e a necessidade, quase uma heroína.

Todo mundo esqueceu disso. Todo mundo joga pedra.

O de admirar é que não ouvi ninguém falar mal de Geo, o cara que fugiu com ela.
- È porque nada pega em homem, falou a irmã dela, fingindo também que condenava Nega, mas no fundo, deixando transparecer uma ponta de aprovação e até de inveja.