Qua 19 Mar 2008
Prosa & Verso 031 - QUEIMA DO JUDAS
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 031
Músicas tocadas neste programa: |
No próximo sábado, que é o sábado da aleluia, é costume se fazer uma espécie de comemoração macabra, queimando um ou vários bonecos. Pelo menos um deles representa o apóstolo Judas, autor do beijo que identificou Jesus para os prepostos das autoridades judias, isto é, o sumo sacerdote, os sacerdotes e os escribas. Como todos sabem, Jesus se entregou pacificamente sem reagir, para surpresa e de certo modo decepção de todos os seus amigos, que contavam com uma resistência aguerrida. Mas não fez assim. Entregou-se pacificamente. Não estou dizendo que se entregou passivamente. Falei pacificamente, o que é muito diferente.
Judas, também profundamente desapontado, percebeu seu gesto de entregar o amigo com a gravidade que afinal era grande, sentiu-se culpado, imaginou-se imperdoável e imperdoado, foi acometido de indizível desespero e tratou de dar fim à própria vida. É uma história trágica, cheia de crença, decepção, frustração e vingança.
Judas tem permanecido na memória e na imaginação popular, por conta dos ensinamentos mais farisaicos do que cristãos, ensinamentos deturpados, de cunho guerreiro e dominador, como de resto foi a igreja da idade média.
Assim, alimentou-se durante séculos e séculos uma atitude vingativa que se perpetua até nossos dias.
Será mesmo uma atitude humana esta comemoração macabra da queima de Judas? Nem digo atitude cristã, mas atitude humana!
Isto só me lembra do próprio Jesus, dizendo à turba: atire a primeira pedra, quem de vocês nunca pecou. E enquanto dizia isto, defendendo aquela mulher acusada, está no evangelho que escrevia no chão uma lista de pecados, certamente os mesmos pecados daqueles que tinham as pedras nas mãos, prontas para atirar.
O programa de hoje esteve voltado para um alerta: é que uma sociedade, uma coletividade ou uma pequena comunidade, sendo composta por humanos, traz em si as mesmas contradições que seus indivíduos. Uma das contradições é que a imperfeição nos acompanha, do nascer ao morrer. A imperfeição acompanha a cada um de nós. Um corpo carrega o brilho dos olhos, a graça do sorriso, a frescura da pele, a fortaleza dos músculos, mas também carrega as cicatrizes, a massa de esterco que ainda está dentro da barriga, a urina que logo será vertida e jogada fora, os cheiros nem sempre agradáveis das diversas partes do corpo, começando pela cabeça e terminando pelos pés… Em outras palavras, se cada pessoa carrega em si coisas boas e coisas ruins, também assim é uma comunidade, uma coletividade, uma sociedade. E a sociedade tem que absorver tudo o que existe nela, de bom e de ruim. As doenças são um lado ruim e muitas delas, sua grande maioria, não dependem de nós. Elas dependem de uma força misteriosa que se costuma chamar de Deus.
É preciso portanto cada um de nós estar sempre alerta, para não cometer injustiça em cima de injustiça. Pessoas com distúrbios mentais precisam de tolerância maior do que pessoas ditas normais. E têm as mesmas necessidades, inclusive de bom trato e de educação. Doente mental, pobre, preto e desamparado não pode, sozinho, ser um cidadão e ser encarado como um cidadão. É preciso que os outros compreendam, amparem e ajudem. Esta é uma das funções do poder público, que representa ou deve representar os interesses da população.
Como eu dizia, este programa de hoje esteve voltado para um alerta. E, como dizia o moreno da Galiléia, quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.
E porque se trata de um alerta, vou colocar no ar u’a música de Noédson Valois, chamada Canto de alerta.
Pra não dizer que não falei de flores, e como sexta-feira passada foi o dia da poesia, uma homenagem a Castro Alves, vou chamar outra vez o nosso Noédson, poeta genuíno de nossa terra, pra cantar pra nós, Poeta do Morro, de sua autoria.
Data do artigo: Quarta-feira, 19 dAmerica/New_York Mar dAmerica/New_York 2008 às 4:10 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.