Escute o Prosa & Verso 033

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Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga - assum preto.
renato teixeira & pena branca - cio da terra

Muitas canções italianas, que são tão lindas e agradáveis, eram frequentemente ouvidas, em som ambiente ali na Pizzaria do Eusépio, que hoje está sendo comandada pela simpática e dinâmica Terezinha, graças a quem o padrão de qualidade tem sido mantido. O ambiente do restaurante sempre foi um ambiente acolhedor, em geral silencioso, que complementava a deliciosa comida italiana. Alguém um dia destes, pediu que fosse colocado sobre o balcão um aparelho de TV. A partir de então, sempre tem um que pede para ligar a TV e aí aquelas músicas suaves vêm sendo substituídas pela exibição do jogo de futebol, pelos sangrentos tele-noticiários, pela mediocridade de certos programas televisivos ou pelo execrável Big Brother.

Aquele momento aconchegante e tranqüilo da refeição, que deveria ser um momento de suavidade e sabor, passa a sofrer a interferência da televisão que, francamente, não prima pelo bom gosto.

Como vocês sabem, até nos currais de gado leiteiro, a música ambiente vem sendo usada para melhorar o desempenho das vacas, enquanto nós humanos temos que nos submeter a esta parafernália de ruídos que ficam a nos incomodar não só nas ruas e praças públicas mas até num ambiente reservado, tranqüilo e acolhedor como é o ambiente daquele restaurante.

Eu entendo Terezinha e Adriano, porque, apesar do seu bom gosto e do seu propósito em manter o bom nível, têm que satisfazer à vontade dos clientes que pedem para ligar a TV, pois afinal se diz que o cliente sempre tem razão e que quem manda é o freguês.
Só tenho um senão: É que a maioria da clientela é silenciosa, como a maioria da nossa comunidade é silenciosa, isto é, não gosta da barulheira, mas não reclama nem protesta. Então a minoria barulhenta, sem a menor preocupação com os outros, vem e impõe seus costumes de casa, nos ambientes públicos, sem levar em consideração que o direito de um termina onde começa o direito do outro. O que vocês estão ouvindo aí como música de fundo são canções italianas. Agora, desliguem a TV e se imaginem fazendo sua refeição ao som deste piano.

É curioso como nossos olhos, nossos ouvidos, enfim, nossos sentidos se acostumam tanto com as coisas, muitas delas maravilhosas, em nosso redor, a tal ponto de nem olharmos mais a beleza que elas têm. Muitas horríveis também, mas é disto tudo que se faz a vida e o viver. Eu duvido que moradores de salvador vão à praça municipal apreciar aquela linda paisagem do mar, lá de junto do elevador Lacerda.

As pessoas que cozinham geralmente não apreciam o prato que preparam. Quem tem em casa um jardim florido se admira menos do que um visitante.

Dizem que a grama do vizinho sempre é mais verde. Um médico, geralmente absorvido pela sua necessidade de ganhar o seu dinheiro e de cumprir suas tarefas muitas vezes angustiantes, não chega a perceber o conforto que proporcionou ao paciente, apenas com uma consulta, uma escuta, independentemente dos medicamentos que talvez nem sejam tão necessários prescrever. Um pedreiro, muitas vezes, não se dá conta do que está fazendo. Conta-se que um velho filósofo, passando por uma construção e vendo os pedreiros trabalhando, perguntou a um deles o que é que ele estava fazendo? Respondeu, até com uma ponta de mau humor:
- O senhor não está vendo que estou botando a massa para assentar o tijolo?
E era verdade, estava aplicando a massa para assentar um tijolo. O velho foi em frente e se deparou com um outro também pedreiro, bem mais velho que o primeiro e lhe fez a mesma pergunta, o que é que estava fazendo.
- Estou construindo uma escola, respondeu o pedreiro.
Aí está a diferença! Eu, de minha parte, particularmente na hora do chuveiro, me lembro de que houve um tempo em que não podia dispor de água encanada, água corrente, limpa e fresquinha. Então, nesses momentos, eu me sinto agradecido e penso nos milhares de pessoas que não podem dispor desta coisa maravilhosa que é um chuveiro, um banho de chuveiro com uma água limpa encanada e, aqui neste clima de Morro do Chapéu, uma água morna, caindo dali do buraco na parede, especialmente para mim, para o meu conforto, para o meu prazer. Isto também faz a diferença!

É curioso que tenhamos vizinhos especiais e tanto nos habituamos a eles que não apreciamos seu valor. Poder comer alimentos saborosos e saudáveis é uma, vamos dizer assim, uma bem-aventurança. Mas normalmente nos esquecemos de quanto trabalho foi preciso para produzi-los e prepará-los. Quando chego em casa, que me sento à mesa para almoçar e saboreio aquela delícia de comida, mesmo sendo um prato simples, que Maria Luísa, a Muchacha minha companheira preparou, também me sinto agradecido. Creio que todos se sentem agradecidos, em suas casas, à pessoa que preparou a comida. E cada um de nós deveria sempre expressar sua gratidão, o que raramente acontece.