Qua 9 Abr 2008
Prosa & Verso 034 - EDUCAR EM CASA E NA ESCOLA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Dizem que os filhotes de nambu e de perdiz, logo que saem do ovo partem em disparada e vão tomar conta do mundo. Não precisam permanecer praticamente por tempo nenhum em companhia da mãe. Não precisam assim aprender como sobreviver. Dizem que também são assim os filhotes de cobra. Já os filhotes dos mamíferos, aqueles animais que têm mamas e produzem leite, entre os quais está o animal humano, o bicho-homem, são bem diferentes. Os seus filhotes permanecem por um bom tempo, depois que nascem, em companhia da mãe, porque não sabem se alimentar nem sabem de outros recursos para sobreviver. Embora tenham instintos, precisam de aprendizado também. Os filhotes dos leões, por exemplo, como as crias dos gatos, devem receber o ensinamento das mães, de como caçar para se alimentar, logo que o aleitamento materno vai chegando ao fim. Bem assim, com os filhotes humanos. Estes são ainda mais dependentes dos pais e por um período bem mais longo. Precisam aprender praticamente tudo, mesmo porque, embora tenham instintos como qualquer outro animal, não têm mais os instintos tão aguçados como os outros bichos. Alguns bebês precisam até aprender a sugar o peito da mãe e a mãe tem que de certo modo ensinar a eles, estimulando a sucção, passando de leve os dedos em volta da sua boca, do bebê, é claro.
As crianças humanas têm que aprender a conseguir comida, a cozinhar, a distinguir quais as frutas e os vegetais que podem comer, aprender mais tarde a plantar, a colher e assim por diante. Enfim, para os humanos, viver é também aprender e sem aprender é praticamente impossível sobreviver, a não ser que tenha alguém que faça tudo pra ele. Isto só acontece com os retardados, os deficientes ou com um grande-à-toa, como se diz por aí, que é aquele sujeito que acha tudo nas mãos e acabem nunca conseguindo fazer nada sozinho.
O período de aprendizagem de um humano dura a vida inteira, até a morte. Não há absolutamente ninguém que saiba tudo. E quem pensar que sabe o suficiente é o mais tolo dos tolos. Sócrates, considerado o maior dos filósofos, repetia: só sei que nada sei. Daí se depreende que o verdadeiro sábio só sabe que nada sabe. E quanto mais aprende, experimenta, reflete, mais tem consciência de que não sabe mesmo bulhufas de nada. O resto é pura vaidade e ilusão.
No caso dos animais, como nascem com um instinto bastante forte e vívido, a necessidade de aprender a defender sua sobrevivência é bem menor do que ocorre com os humanos. Mas em nosso caso, além de os nossos instintos serem de certo modo atrofiados, temos que lidar com a cultura, isto é, com tudo aquilo que alguém descobriu e que vem sendo ensinado depois de pessoa a pessoa, de geração a geração. O exemplo melhor que encontrei para ilustrar isto é o uso do fogo. Ninguém, absolutamente ninguém nasce sabendo como produzir e usar o fogo. Todos os animais, sem exceção, têm sempre uma reação de medo em relação ao fogo. Só nós homens vemos no fogo um aliado, um instrumento para melhorar nossa vida.
Como os homens são animais ditos gregários, isto é são animais sociais, que vivem em comunidade, instintivamente procuram a companhia uns dos outros. Mas eles não nascem sabendo como viver em coletividade. A única lei que os homens primitivos conhecem é a lei do mais forte, como acontece com os cães e os lobos, com os animais selvagens. Assim são os homens: tão egoístas como qualquer outro animal, piores ainda porque os outros animais não brigam entre si quando seus desejos estão satisfeitos. E os desejos básicos são os que respondem à necessidade de sobrevivência: o desejo de comer para satisfazer a fome, o desejo sexual para possibilitar a procriação e a necessidade de uma toca para proteger-se dos inimigos naturais.
Isto acontece com todos os animais, inclusive o homem. Por outro lado, os homens têm criado para si novas necessidades, impelidos pela cultura, necessidades essas que se tornam reais e justas, embora existam outras ilusórias e injustas, como por exemplo a acumulação de riquezas, mas isto é outra história, para outro dia.
Os animais selvagens, portanto, só têm a imposição dos instintos. Agem apenas por instintos. Como todos sabem, não usam a razão, o raciocínio. Os homens, além de um instinto que já se acha enfraquecido, têm o raciocínio, a inteligência e é isto que resulta na cultura. A capacidade de aprender que os humanos têm decorre, portanto, de sua inteligência. Se a natureza empurra os homens para a briga, para a disputa, para o uso da força, a cultura os conduz para a disciplina, para outros valores como a solidariedade, o respeito, o trabalho, a civilidade, a cidadania e a ética. A arrogância, sede de dominar, a ganância, sede de ter, e a vaidade, sede de parecer causam as guerras. A solidariedade, o respeito, a civilidade proporcionam a paz.
Aprender as leis da cultura, tornar-se culto por assim dizer, é, em última análise, aprender a civilidade, a cidadania. E isto se aprende pela educação.
Suponho que a escola, lugar apropriado para a educação, seja uma espécie de prolongamento do lar. Comparando a educação com uma casa, o lar é como o alicerce, enquanto que a escola são as paredes. Costuma-se dizer que a educação começa em casa, começa no berço.
Quero fazer um alerta: Não acho que uma pessoa educada tenha que ser uma pessoa toda arrumadinha, quieta e passiva. Nem acho que uma pessoa educada tenha que ser uma pessoa bem informada, que leia livros e fale bonito. Entendo como uma pessoa educada aquela que respeita os direitos dos outros, que se comporta dentro dos seus limites, consciente de que os seus direitos terminam onde começam os direitos alheios. A educação é a base da cidadania. Ninguém deve fazer ao outro o que não gostaria que o outro lhe fizesse. Isto é educação. Isto é cidadania.
Voltando a falar de escola, imagino que todas elas, principalmente aquelas que lidam com adolescentes, deveriam dedicar um tempo, pelo menos toda semana, para motivar os jovens a pensar, a refletir sobre estes assuntos de convivência e assim formar realmente cidadãos. E nos lares, os pais deveriam dedicar também sempre um tempo para conversar estas coisas com seus filhos.
Eu não tenho mais filhos vivendo comigo, mas acho que é também meu dever de cidadão, como é dever dos pais, dos professores e dos demais cidadãos com quem convivemos em nossa cidade, repito, é dever de todos nós contribuir com o exemplo e com palavras, seja lá como for, contribuir para a formação dos jovens, atuais crianças e adolescentes, para que se tornem os novos cidadãos que, inclusive, vão ocupar nossos lugares, vão nos substituir daqui a uns dias.
Um regime de governo democrático é um regime desejável, mas que só pode se consolidar, mediante a educação e a real igualdade entre as pessoas perante a lei. Embora a Constituição Brasileira diga claramente que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, é ainda flagrante a desigualdade de oportunidades. Nos tempos dos comícios dos anos 70 e 80, o hoje presidente Lula alertava aos brasileiros, dizendo que os filhos dos nossos patrões serão os patrões dos nossos filhos! Quase nada mudou desde então, a não ser que temos um presidente que é ex-operário. E isto,aliás, não é pouca coisa.
Aqui, agora, estou me referindo à educação no sentido bem mais amplo, uma educação que atinja a todos nós, crianças, adolescentes e adultos, homens e mulheres.
É reprovável e, até hoje em dia inadmissível, que alguém responsável pela educação de crianças e adolescentes use de mecanismos opressores e autoritários com o pretexto de fazê-los cumprir as regras. Escutaram que eu falei mecanismos opressores e não mecanismos repressores, porque estou reconhecendo que a repressão é uma prática necessária para delimitar as fronteiras do certo e do errado, quando os transgressores são renitentes, useiros e vezeiros. Mas imagino que é mais importante, do ponto de vista educativo, a atitude pedagógica, a atitude crítica, a atitude paciente para com aqueles que cometem um erro, principalmente se o fazem inadvertidamente e pela primeira vez. Professores autoritários, raivosos, vaidosos e arrogantes acabam por prestar desserviço à educação, à formação dos novos cidadãos, à própria cidadania. Não devemos confundir autoridade com autoritarismo. A autoridade se alimenta da força moral e da lei. O autoritarismo se alimenta da vaidade e da arrogância.
Data do artigo: Quarta-feira, 9 dAmerica/New_York Abr dAmerica/New_York 2008 às 4:38 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.