Escute o Prosa & Verso 038

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Músicas tocadas neste programa:
geraldo vandré – pra não dizer que não falei de flores
ari cléber - dança da jamaica
ari cléber - buzu
cleová – alguém me disse
ivaldo pardal garcia – é bonita essa copacabana
ivaldo pardal garcia – não deixe o samba morrer

Na semana passada, mais precisamente na quinta-feira, dia 1º de maio, foi feriado. Que feriado? Você sabe? Costuma-se dizer que é o dia do trabalho, mas a história é bem outra:
A data é uma homenagem aos oito líderes trabalhistas norte-americanos que morreram enforcados em Chicago (EUA), em 1886. Eles foram presos e julgados sumariamente por dirigirem manifestações que tiveram início justamente no dia 1º de maio daquele ano. Que aconteceu em Chicago, naquele maio, há precisamente cento e vinte e dois anos?
Há pouco mais de 200 anos, um frade italiano chamado Tommaso Campanela escreveu um livro, A Cidade do Sol em que os habitantes trabalhavam apenas quatro horas diárias. Por publicar tal idéia, o religioso foi torturado pelo tribunal da Inquisição e mantido preso durante 27 anos.

Naquela época, baixos salários e jornadas de trabalho que se estendiam até 17 horas por dia eram comuns nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos. Em Manchester, na Inglaterra, os operários não tinham direito nem a beber água durante o dia, para não perderem tempo de trabalho. Férias, descanso semanal e aposentadoria não existiam. Para se protegerem em momentos difíceis, os trabalhadores inventavam vários tipos de organização, como as caixas de auxílio mútuo, que foram precursoras dos primeiros sindicatos.
Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução da jornada de trabalho. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, também era um dos grandes centros sindicais. As organizações, sindicatos e associações que surgiam eram formadas principalmente por trabalhadores de tendências políticas socialistas, anarquistas e social-democratas. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. No dia 1º de maio, os trabalhadores realizaram uma grande manifestação, mas nos dias seguintes, toda ação dos operários foi duramente reprimida pela polícia, com mortos, feridos e muitos presos. As conseqüências chocaram o mundo, uma vez que, depois de um julgamento sumário, vários líderes foram condenados à prisão perpétua e oito deles condenados à morte na forca.

Tanto sofrimento e morte, entretanto, não foi em vão. Aos poucos, vários Estados norte-americanos começaram a estabelecer jornadas de trabalho menores, de dez e até de oito horas.
Em 1890, ou seja, quatro anos depois, o 1º de maio foi comemorado com manifestações em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos, organizadas por sindicatos, partidos e associações de trabalhadores. Nesse mesmo ano, a Segunda Internacional, associação mundial de trabalhadores socialistas, aprovou em seu congresso a fixação do 1º de maio como Dia do Trabalhador, e não Dia do trabalho: Segundo declara o documento daquele congresso o dia 1º de maio deve ser uma festa dos trabalhadores em todos os países, durante a qual o proletariado deve manifestar os objetivos comuns de suas reivindicações, bem como a sua solidariedade.

No Brasil, as comemorações do 1º de maio também estão relacionadas à luta pela redução da jornada de trabalho. A primeira celebração da data de que se tem registro ocorreu em Santos, em 1895, por iniciativa do Centro Socialista, entidade fundada em 1889 por militantes políticos. A data foi consolidada como o Dia dos Trabalhadores em 1925, quando o presidente Artur Bernardes baixou um decreto instituindo o 1º de maio como feriado nacional. Pouco a pouco, nos anos seguintes, as manifestações de classe foram sendo substituídas por festas e desde então, comícios, pequenas passeatas, festas comemorativas, pic-nics, shows, desfiles e apresentações teatrais ocorrem por todo o país.
Mais tarde, o governo de Getúlio Vargas criou o Ministério do Trabalho, promoveu uma política de atrelamento dos sindicatos ao Estado, regulamentou o trabalho da mulher e do menor, promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), garantindo o direito a férias e aposentadoria. Com Vargas, o 1º de maio mudou de status e passou a ser considerado dia oficial do trabalho. Era nessa data que o governante anunciava as principais leis e iniciativas que atendiam as reivindicações dos trabalhadores, como aconteceu com o salário mínimo ou com a redução de jornada de trabalho para oito horas.
Assim, ficou o dia do trabalhador sendo conhecido com dia do trabalho. Parece uma coisa sem importância, somente u’a mudança de nome mas, passados tantos anos, o que vai ficando em nossa memória é uma equivocada simpatia pelo Estado, no caso de Vargas, além do esquecimento dos operários que sofreram e morreram pela sua classe trabalhadora.