Escute o Prosa & Verso 039

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque – uma canção desnaturada
marlene – lata d’água na cabeça
bach – ária da corda sol
edith piaf - padam

O nascimento de uma criança é como o nascimento de um novo olho, de um novo broto na planta, em tese é uma nova oportunidade para a humanidade tomar um novo rumo. Uma alma que se eleva eleva o mundo, Já dizia Santa Teresa d’Àvila. Uma pessoa é a imagem e semelhança de toda a humanidade. Se alguém tem a capacidade de realizar o mais nobre dos atos, aquela capacidade é da própria humanidade e, virtualmente, cada um de nós humanos tem a semente ou o embrião da mesma capacidade. O mesmo pode ser dito do potencial de realizar a mais torpe das ações, o mais hediondo dos crimes. Se um humano pode fazer, também pode acontecer com você, também pode acontecer comigo, toda a humanidade tem o mesmo potencial, cada humano tem virtualmente a mesma possibilidade. Se um pode, todos podem. Numa linguagem religiosa, cada um de nós traz em si o alento de deus e a marca do diabo. Somos bem e somos mal. O corpinho de um recém-nascido saudável e dentro da normalidade beira a perfeição, mas sua psique, sua alma é rude como pedra bruta. A vida, o relacionamento, a cultura, o afeto, a reflexão é que vão esculpindo a alma, vão polindo e podem fazê-la melhor. Dom Hélder Câmara, arcebispo brasileiro da ala progressista da igreja, escreveu um belo poema intitulado Velhos vinhos, que diz assim:

Agora,
Que a velhice começa,
Preciso aprender, com o vinho,
A melhorar, envelhecendo.
E sobretudo
A escapar
Do perigo terrível
De, envelhecendo,
Virar vinagre…

Assim, como se fosse uma estrada, o curso da vida, o passar do tempo deve levar o corpo para o desgaste, para o definhamento e a alma, na contramão do corpo, para a polidez e para a melhora. O corpo deve acabar porque não presta mais. A alma, porque já superou a perversão. Leonardo Da Vinci achava que, quando alguém pensar que aprendeu a viver, terá aprendido a morrer. Tudo isto parece significar que a maldade está ao nosso alcance, tanto mais quanto mais imaturos somos. A maldade não nos dá trabalho. Basta que nos deixemos ir, que iremos a ela. A bondade, não. A bondade exige trabalho, exige esforço. Um gesto de maldade está ao alcance de qualquer um. Um gesto de bondade só está ao alcance de quem para isto se empenha, se esforça. Ambos, porém, estão virtualmente ao alcance de todos os homens.

Passagem da não-vida para a vida, o nascimento é um momento tormentoso, sofrido e eminentemente crítico. É proverbial o propagado sofrimento da mãe ao dar à luz. Por outro lado, ninguém costuma mencionar o sofrimento, a angústia do bebê que nasce. Pois, um célebre psicólogo, Oto Rank, após longos anos de observação e reflexão, concluiu que o mais angustioso momento da vida humana é o instante do nascimento. Provavelmente, mais angustiante do que a própria morte. Ou, pelo menos, tão angustiante quanto.
Durante longos anos, porém, esta criança que nasceu está impossibilitada de sobreviver sozinha. Aí é que entra o mais importante papel da mãe, a verdadeira maternidade. É então que compartilha a experiência com o companheiro, que pode tornar-se o verdadeiro pai, mesmo sem ser, ele ou ela, a mãe ou o pai biológico. A virtude da maternidade não está, assim, em parir, mas em amparar, orientar e acompanhar o filho. Isto também se aplica à paternidade.

No último domingo, o segundo domingo do mês de maio, foi festejado o dia das mães. Mais uma vez, a pergunta: Por que o dia das mães? Por que as mães precisam de um dia no ano para ser homenageadas? Dia das mães é todo dia, como é também dia dos pais e dia dos filhos. O respeito, a consideração e até mesmo a reverência que nós devemos uns aos outros devem ser vivenciadas cada dia, todos os 365 dias do ano. A mesma coisa, com as nossas mães. Achando que estamos homenageando as mães, estamos mesmo é correndo atrás dos apelos do comércio, como bichinhos adestrados, para comprar e comprar e comprar. Vocês ainda não repararam que todas as festas, principalmente as religiosas e as familiares, são momentos de grande apelo comercial, através da propaganda, quando os pais, as mães, as crianças, os namorados, os cidadãos enfim, são bombardeados pela publicidade para comprar produtos e mais produtos, a título de dar presentes?
Pois é! Eu também vou aproveitar a ocorrência deste tão decantado dia das mães, para convidar aos que me estão ouvindo a refletir um pouco sobre a maternidade, não como algo abstrato ou ideal, mas como realidade neste nosso mundo de meu deus.

Viveu na França, entre 1930 a 1960, u’a mulher chamada Édith Giovanna Gassion, que ficou conhecida mundialmente como Edith Piaf, uma cantora de música popular, cuja infância tinha sido miserável, a mãe era cantora de rua e depois se tornou prostituta e alcoólatra, até que abandonou a filha à sua própria sorte. Edith também teve uma filha, mas não exerceu sua maternidade, porque teve que se atirar no mundo pra sobreviver. Passou por muitos infernos, até ser reconhecida como uma cantora de valor. Aí, já com todas as marcas da miséria, passou a usar drogas e se degringolou. Mas como nada é absolutamente bom ou mau, deixou para nosso prazer uma quantidade de lindas canções gravadas.