Qua 21 Mai 2008
HUMANISMO NO TRÂNSITO?
Categoria: Comportamento | Por Jorge RochaPerguntas tão antigas quanto a inteligência humana:
• Quem somos nós?
• De onde surgimos?
• Para onde vamos?
• A vida faz algum sentido?
São perguntas que mobilizaram originalmente os filósofos, os artistas, os poetas, os místicos e mais recentemente os pesquisadores, os cientistas. Hoje são perguntas que frequentemente vêm e voltam ao homem normal, ao homem comum. E, se ainda são perguntas, tão velhas quanto novas, são perguntas sem respostas.
Quem somos nós?
Talvez eu seja um corpo e uma alma.
Ou talvez uma alma habitando um corpo.
Ou até um corpo sem alma.
Apenas um corpo em funcionamento.
Como acabei de dizer, são perguntas sem respostas.
Interrogações, somente interrogações. Dúvidas, apenas dúvidas.
Para fins práticos, no contexto de nossa conversa agora, quero considerar o corpo como uma ferramenta auto manejada, de maneira que um corpo que não funcione deixa de ser a ferramenta a que me refiro. Um corpo que não funcione é um cadáver. Não é um corpo humano, sensu strictu. É antes uma imagem do corpo humano, como uma escultura, uma pintura, uma foto.
Embora tomar-se a imagem pelo objeto seja tão comum quanto equivocado, praticamente todos nós aqui presentes incorremos neste equívoco. Poucos de nós ou talvez nenhum de nós sejam ou seja capaz de cuspir e pisotear um retrato da própria mãe, sobretudo se a mãe já estiver morta. E o que é um retrato? O que é um retrato, senão uma imagem, tão distante do objeto que reflete, que nada tem a ver com ele, a não ser uma aparência pictórica, uma aparência externa?
Assim é o corpo que não esteja em funcionamento. Uma tênue sombra do que fora, quando funcionava. Não passa de uma imagem.
Ora, este corpo vivo, ferramenta para todas as atividades impostas pela necessidade, é u’a máquina multifuncional, polivalente, a mais completa de todas as máquinas, aquela que pode realizar a maior gama possível de ações. Mas tem suas limitações e grandes limitações. A partir desta constatação, nossos ancestrais idealizaram e realizaram todos os outros instrumentos que existem e que são, sensu latu, extensões do corpo, nada mais que extensões do corpo.
Sem maiores digressões a respeito, não seria preciso usar um martelo se nosso corte da mão tivesse a dureza necessária para fincar um prego, como não seria preciso usar um alicate, se nossos dedos fossem suficientemente fortes e resistentes para arrancá-lo. Se as unhas fossem devidamente fortes e duras, para que iríamos usar uma chave de fenda? Conhecemos pessoas que sacam a tampinha de uma garrafa usando os dentes.
Farão isto até que os dentes já não estejam mais suficientemente fortes e se quebrem na operação.
Por não nos apercebermos desta natureza a um tempo grandiosa e limitada do nosso corpo, frequentemente negligenciamos os cuidados para com esta ferramenta multiuso, autônoma e felizmente em grande parte regenerável.
É muito comum que pessoas usem uma chave de fenda como se fosse talhadeira, os dentes como se fossem alicates. E, do mesmo modo como negligenciam os cuidados às suas ferramentas, negligenciam os cuidados ao próprio corpo, sua ferramenta maior.
Tudo o que foi dito até agora visa tão somente à abordagem da relação do homem com o carro, que é como todas as ferramentas, mais um prolongamento do seu corpo.
Ocorre que os cuidados com o carro estão ditados por normas oriundas de várias fontes:
1. do bom senso
2. das imposições econômicas
3. das imposições legais
4. das imposições éticas
Vou me restringir aqui às imposições legais e às imposições éticas.
As imposições legais estão contidas nos códigos, nas instruções normativas, nas normas disciplinares e em outros quaisquer espaços preenchidos pelos ditames da Lei. Quem a elas desobedece é apenado.
Entretanto, as imposições éticas por natureza precedem a Lei. Não são compromissos impostos por coação ou pelo medo da punição. No máximo, a infração ética pode ocasionar uma desaprovação social, de caráter puramente moral, se é que isto importa ao sujeito da infração.
De qualquer forma, tanto as normas legais quanto as éticas têm como objeto não a proteção e preservação da máquina, mas a proteção e preservação do homem, da vida humana, da sua integridade física. E isto não é novo. É uma frase lapidar, atribuída àquele homem, Jesus de Nazaré, e referida nos evangelhos: Afinal, o homem não foi feito para o sábado. O sábado é que foi feito para o homem!
Analogamente, podemos muito bem nos perguntar se o homem foi feito para as leis, para as normas, para as máquinas, para o trabalho, para o dinheiro, para o regulamento ou tudo isto, regulamento, dinheiro, trabalho, máquinas, normas e leis, não estaria aí com um objetivo: servir ao homem?
Eu me pergunto se todas as coisas que existem sobre a terra não se destinam a um só tempo à utilidade e à satisfação humanas… E a Declaração Universal dos Direitos Humanos admite explicitamente que todos os homens são iguais, declaração endossado pela Constituição Brasileira.
Ora, as normas legais são claras:
• Sem habilitação não se pode participar, digamos assim, da comunidade do trânsito. Não posso dirigir sem carteira de habilitação.
• Os dispositivos de segurança do veículo, uma vez não cumpridos os requisitos, devem impedir que ele trafegue.
• As regras de conduta que visam à segurança na condução do veículo, se forem violadas, provocam represálias na forma de advertências, constrangimentos, multas ou penalidades maiores.
Agora, os aspectos éticos, [e a ética se refere aos costumes, aos acordos sociais, coletivos, comunitários], os aspectos éticos já não estão inscritos com a mesma clareza. A linha divisória entre meu direito e o direito do outro, entre meu alcance e o alcance do outro, entre meu dever e o dever do outro, entre meu limite e o limite do outro, é uma linha tênue, sem muita nitidez e algo elástica.
Disto decorre então o grande número de infrações éticas, de desrespeito ao outro, negação da cidadania.
Os princípios éticos não têm força de Lei, mesmo porque são mais friáveis, mais moldáveis, mais elásticos, menos definidos, variando de onde para onde, de quando para quando e de como para como.
A clareza quanto à ética e aos princípios e condutas éticas vem com a educação. Não quero dizer especificamente com a instrução, com o aprendizado, mas com a educação em seu sentido mais amplo.
Casa de pai é escola de filho. Os exemplos movem mais que as palavras. E neste sentido, quando se fala em pai, fala-se na figura paterna, na imagem paterna e não necessariamente na pessoa do genitor. Assim é que as autoridades representam essa imagem paterna. E quando as autoridades não dão o exemplo construtivo, as pessoas comuns tendem também a segui-lo, tornando-se destrutivas.
Ilustrando, no que se refere ao trânsito: imagine-se uma viatura oficial, conduzida por policiais uniformizados que transgridem as regras de disciplina e civilidade. Isto tem um efeito multiplicador no comportamento das pessoas comuns. Eu me referi à circunstância do trânsito, mas isto que eu estou dizendo também se refere, com a mesma propriedade, a quaisquer desvios ou inadequações de conduta, por parte de pais, professores, autoridades, personalidades formadoras de opinião pública, políticos, etc. etc. etc. Todos nós aqui presentes.
E não creio que haja um só que esteja acima de qualquer suspeita.
Um aspecto mais relacionado com o meu trabalho, já que sou psiquiatra e me dedico ao estudo e tratamento dos males da alma humana, é o fato de o carro, sendo este prolongamento poderoso do corpo, poder ser instrumentalizado para dar vazão às vaidades, às arrogâncias, ao exibicionismo que, de acordo com Freud, tem suas origens na imaturidade sexual e afetiva.
O exibicionismo, por exemplo, pode expressar-se pelo excesso de velocidade, pelo ruído perturbador, pela insistência em manter o farol alto frente ao outro veículo que vem de lá, pela agressividade, pela descortesia, pela competitividade estúpida, para provar quem é mais temerário e supostamente mais poderoso, pelo uso exagerado do volume dos aparelhos de som, este último fenômeno tão comum em nosso meio…
Uma pessoa emocionalmente amadurecida não faz pega, não precisa competir.
Conta-se que, no Japão, um samurai exortava os seus alunos a não se deixarem mobilizar pelas provocações. Dizia ele:
Se o provocador for melhor que você, de que adianta competir, se sabe ele vai ser o vencedor?
Se for equiparado a você, de que adianta competir, se sabe vão empatar?
Se for inferior a você, de que adianta competir, se sabe vai vencê-lo?
Em cada uma das três hipóteses, que ganharia você se fosse competir?
Digamos que o velho e sábio samurai estaria tentando assim, com sucesso ou não, instigar o amadurecimento emocional e a formação do caráter dos seus pupilos.
Finalmente, uma cadeia de ocorrências, a partir do desrespeito às normas legais e éticas, enfim do desrespeito ao outro, leva à transgressão, que leva ao acidente, que leva à culpa e ao dolo. E, se há impunidade, o ciclo facilmente recomeça.
Desafortunadamente, vivemos um momento, já por demais prolongado, de crise ética em nossa sociedade, conhecida como Lei de Gerson: Eu gosto de levar vantagem em tudo…
Data do artigo: Quarta-feira, 21 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2008 às 9:06 pm | Categoria : Comportamento | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.