Qua 21 Mai 2008
Prosa & Verso 040 - O CARRO É UMA FERRAMENTA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Nosso corpo é nossa principal ferramenta. É uma ferramenta auto-manejada, isto é, é operada por si própria, de maneira que um corpo que não funcione deixa de ser a ferramenta a que me refiro. Um corpo que não funcione é um cadáver. Não é um corpo humano, por assim dizer. É antes uma imagem do corpo humano, como uma estátua, um retrato ou um desenho.
É comum que a gente confunda a imagem com a própria pessoa. Isto é como confundir um mapa com um país, um retrato com a pessoa que ali aparece. É verdade que quando olhamos uma foto de alguém muito querido e que já está morto, temos sentimentos de saudade, de lembrança agradável e de reverência para com a pessoa que aparece ali no retrato. Ora, se uma criança, fazendo birra, rasga e pisa no retrato, isto pode nos provocar um certo mal-estar. Mas apenas pela nossa lembrança e não pelo retrato em si, não é mesmo? Assim é o corpo que não esteja em funcionamento. Uma tênue sombra do que fora, quando funcionava. Não passa de uma imagem do que antes existiu.
Estava dizendo que o corpo que não esteja em funcionamento é uma tênue sombra do que tinha sido, quando funcionava. Não passa de uma imagem do que antes existiu.
Ora, este corpo vivo, ferramenta para todas as atividades impostas pela necessidade, e u’a maquina multifuncional, polivalente, a mais completa de todas as máquinas, aquela que pode realizar a maior gama possível de ações. Mas tem suas limitações e grandes limitações. A partir desta constatação, nossos ancestrais idealizaram e realizaram todos os outros instrumentos que existem e que são, por assim dizer, extensões do corpo, nada mais que extensões do corpo. Quero dizer que não seria preciso usar um martelo se nosso corte da mão tivesse a dureza necessária para fincar um prego, como não seria preciso usar um alicate, se nossos dedos fossem suficientemente fortes e resistentes para arrancá-lo. Se as unhas fossem devidamente fortes e duras, para que iríamos usar uma chave de fenda? Conhecemos pessoas que sacam a tampinha de uma garrafa usando os dentes.
Farão isto até que os dentes já não estejam mais suficientemente fortes e se quebrem na operação.
Por não nos darmos conta desta natureza a um tempo grandiosa e limitada do nosso corpo, frequentemente negligenciamos os cuidados para com esta ferramenta multiuso, autônoma e felizmente em grande parte regenerável.
É muito comum também que pessoas usem uma chave de fenda como se fosse talhadeira, os dentes como se fossem alicates. E, do mesmo modo como negligenciam os cuidados com as suas ferramentas, negligenciam os cuidados com o próprio corpo, sua ferramenta maior e mais importante.
Acabei me lembrando de uma frase muito usada em campanhas de educação no trânsito faz alguns anos. A frase publicitária dizia: não faça do seu carro uma arma. A vítima pode ser você. Pensei no tanto de palavras que são usadas para conscientizar as pessoas e em como aqui e ali vemos os exemplos indo numa direção contrária.
Dizem que casa de pai é escola de filho. Os exemplos movem mais do que as palavras. E, neste sentido, quando se fala em pai, fala-se na figura paterna, na imagem paterna e não necessariamente na pessoa do genitor. Assim é que as autoridades representam essa imagem paterna. E quando as autoridades não dão o exemplo construtivo, as pessoas comuns tendem também a segui-lo, tornando-se destrutivas.
Esclarecendo, no que se refere ao trânsito, imaginem uma viatura oficial, conduzida por policiais uniformizados que transgridem as regras de disciplina e civilidade. Isto tem um efeito multiplicador no comportamento das pessoas comuns. Eu me referi à circunstância do trânsito, mas isto que eu estou dizendo também se refere, com a mesma propriedade, a quaisquer desvios ou inadequações de conduta, por parte de pais, professores, autoridades, personalidades formadoras de opinião pública, políticos, religiosos, etc, etc.
Esses desvios e inadequações de conduta se expressam, no trânsito, pelo excesso de velocidade, pelo ruído perturbador, pela descortesia, pela agressividade, pela competição estúpida, pelo uso exagerado do volume dos aparelhos de som, este último fenômeno infelizmente tão comum em nosso meio…
Data do artigo: Quarta-feira, 21 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2008 às 4:04 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.