Qua 28 Mai 2008
Prosa & Verso 041 – EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha
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Escute o Prosa & Verso 041
Músicas tocadas neste programa: |
Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujeira e dos urubus. Cresceu, sofreu, trabalhou duro; conheceu homens, teve filhos.
Num livrinho, anotava com letra ruim suas tarefas e seus dias.
Um jornalista leu esses livros por acaso e Carolina Maria de Jesus converteu-se numa escritora famosa. Seu livro Quarto de Despejo, diário de cinco anos de vida num sórdido subúrbio da cidade de São Paulo, foi lido em quarenta países e traduzido para treze idiomas.
Cinderela do Brasil, produto do consumo mundial, Carolina Maria de Jesus saiu da favela, correu mundo, foi entrevistada e fotografada, premiada pelos críticos, agasalhada pelos cavalheiros e recebida por presidentes.
Passaram-se os anos. No inicio de 1977, numa madrugada de domingo, Carolina Maria de Jesus morreu em meio ao lixo e aos urubus. Ninguém lembrava da mulher que escrevera: A fome é a dinamite do corpo humano.
Ela, que tinha vivido de restos, pôde ser, fugazmente, uma eleita. Foi permitido a ela sentar-se à mesa. Depois da sobremesa, rompeu-se o encanto. Enquanto seu sonho transcorria, o Brasil continuava sendo um país onde a cada dia, 100 trabalhadores ficam lesados por acidentes de trabalho e onde quatro de cada dez crianças que nascem, são obrigadas a converterem-se em mendigos, ladrões ou mágicos para sobreviver.
A história que vocês acabaram de ouvir, uma história real, contada por Eduardo Galeano em seu livro As veias abertas da América Latina, é um dos retratos da vida.
Tenho contado outras estórias neste Prosa & Verso, tão reais quanto esta que acabaram de ouvir, mas com uma diferença marcante: aquelas outras são estórias que acontecem frequentemente, que não param de acontecer. Esta contada por Eduardo Galeano, não. A história de Carolina Maria de Jesus é uma história rara, a não ser no seu começo e no seu final: nasceu pobre, morreu pobre, porque esta é a sina dos filhos dos trabalhadores, numa terra onde a ganância toma conta, onde os gananciosos querem ficar com tudo e onde o povo, a grande maioria dos brasileiros, vive sempre na pindaíba. Os que mais trabalham são os que menos têm.
O mais perigoso é que os pobres vivem alimentando uma ilusão de que podem repetir o caminho de uns poucos, raros, que logram sair da pobreza e tornam-se ricos. Carolina Maria de Jesus foi um deles. No entanto não passou de mais um produto do consumo mundial, nas palavras do próprio Eduardo Galeano. E acabou na miséria onde nascera. E não é só no Brasil. É em qualquer parte onde o mundo está dividido entre os poucos que são ricos demais e os muitos que são pobres demais.
Do mesmo modo como Carolina Maria de Jesus, da história real que eu contei, como Dolores Sierra, da canção que vocês acabaram de escutar, acontece em nossa imaginação de pobres e trabalhadores, quando alimentamos a ilusão de que um dia, por um golpe de mágica, vamos nos tornar ricos e viver nos moldes do que nos é apresentado nas novelas da TV. Assim também certamente teria ocorrido com a Conceição, que vocês vão ouvir na voz de Cauby Peixoto.
O sonho faz parte de nossa vida e há quem diga que a vida seria simplesmente impossível de ser vivida, se a dura realidade, nua e crua, não fosse suavizada pelas ilusões dos sonhos. Está bem. Suponho que isto seja verdade. Mas, tapearmos a nós mesmos, negando a realidade que nos envolve e sonhando como se fossem os sonhos a nossa vida real, isto será uma alienação. Ái dos homens se não fossem seus sonhos. Mas, podemos sonhar, ter a cabeça nas nuvens, mas cuidado para manter os pés no chão.
Data do artigo: Quarta-feira, 28 dAmerica/New_York Mai dAmerica/New_York 2008 às 4:32 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.