Escute o Prosa & Verso 043

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Músicas tocadas neste programa:
Carmem Miranda e Mário Reis - Isto é lá com Santo Antonio
Nelson Gonçalves - Escultura
Gonzaguinha – Grito de alerta
Osmar Navarro – Quem é
Peri Ribeiro – Inteirinha
Raul Sampaio – Quem eu quero não me quer
Andréa Costalima – Nunca/Só louco
Miltinho – Poema de adeus
Tito Madi – Menina moça
Miúcha e Vinícius – Minha namorada

Pra variar, amanhã é comemorado o dia dos namorados. Mais uma vez, como costuma ser, um apelo comercial. Às vezes tenho a impressão de que vivemos em plena época mercantilista, que aliás foi uma fase precursora do capitalismo, o sistema atual em que vivemos mergulhados até o pescoço. Nossas atividades, nossos sonhos, nossos objetivos na vida parecem afunilar para a grande finalidade que é ter mais, ter mais, ter sempre mais e cada vez mais. O nome disto é ganância.

A febre do possuir contagia a todos nós. Possuir para acumular, quanto mais rico, melhor e isto não tem limite. Na dinâmica do sistema capitalista, quem pára, mesmo que seja para olhar o que houver de belo na estrada, mesmo que seja pra respirar, mesmo que seja pra refletir sobre a caminhada da vida, quem pára retrocede, como se caminhasse para trás.

A ambição é encarada como uma qualidade e quem não tem ambição é considerado fraco, pequeno ou covarde. Enfim, neste sistema, a palavra de ordem é ser competente, bem no sentido de ser capaz de competir.

Voltando ao dia dos namorados, vale a pena saber que as comemorações desse dia começaram na idade média, inspiradas em são Valentim, que foi um sacerdote cristão. Aconteceu assim: na época do imperador Cláudio II, ele, o imperador, queria formar um exército romano grande e forte, mas não conseguiu atrair muitos soldados, porque os homens não estavam dispostos a abandonar as suas mulheres e famílias e partirem para a guerra. Assim, o imperador proibiu os casamentos entre jovens e Valentim, revoltado, resolveu realizar os casamentos secretamente. Quando foi descoberto, foi preso, torturado e decapitado no 14 de Fevereiro. Por esta razão, nos países da Europa, o dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro. Aqui no Brasil, o dia dos namorados foi inventado pelos comerciantes de São Paulo, propositadamente ocorrendo na véspera do dia dedicado pela igreja católica ao chamado santo casamenteiro, que é Santo Antônio.


Também o casamento é entendido como um bom negócio e o namorado ou noivo, como um bom partido. Assim se vão perpetuando as relações do tome lá dê cá, ganhando mais quem for mais esperto.

Mas há um outro lado, o lado do romantismo, o lado das ilusões. É quando as pessoas julgam que se estão amando, porque a atração erótica é grande e a paixão as deixa cegas e surdas. É quando pensam que amar é nunca dizer não. É deixar-se dominar pelo outro ou então é possuir o outro, ser dono do outro. Na paixão, os amantes se olham um para o outro e perdem a perspectiva da vida e da própria identidade, simplesmente porque, olhando um para o outro, não vêem senão a si próprios, como uma imagem no espelho. Parece uma contradição, mas quem está apaixonado não consegue enxergar o outro, não consegue reconhecê-lo, quanto mais respeitá-lo. Quem está apaixonado se vê refletido no outro, que julga ser o objeto da sua paixão.

À proporção que andamos na estrada da vida, vamos amadurecendo. Mas só amadurecemos se formos capazes de refletir nossa prática, se nos examinamos, detectamos nossos erros, fazemos auto crítica e ficamos vigilantes para não incorrermos novamente nos mesmos erros. É preciso que vocês vigiem, para não caírem em tentação, aconselhava Jesus aos seus amigos.

O amor amadurecido é o amor curtido, que passa antes pelo reconhecimento da pessoa que julgamos amar, que passa pelo respeito à outra pessoa como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. Que passa pela consideração e passa pela admiração e ainda passa pelo companheirismo. Se não reconhecermos, não respeitarmos, não considerarmos, não admirarmos e não formos companheiros, estamos longe de amar aquela pessoa a quem dizemos que amamos. Se o princípio elementar da ética é não fazer ao outro, seja lá quem for, o que não gostaríamos que fizesse a nós, que podemos dizer do amor? Que podemos dizer da pessoa que nós julgamos amar?

Carregamos uma incrível capacidade de errar, porque somos humanos. Um dia desses, falei aqui uma frase de Guy de Larigaudie, um pensador francês. Ele escreveu que é preciso fazer de cada erro um trampolim para um amor maior. Hoje trago esta mensagem para todos os namorados, velhos e moços, que estão escutando este programa, lembrando que os erros só se corrigem se forem apropriadamente criticados.

Enfim, o encantamento, a decepção, o ciúme, as mágoas são partes deste bouquet que enfeita as relações dos namorados.