Escute o Prosa & Verso 044

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Músicas tocadas neste programa:
Luiz Gonzaga - Olha pro céu
Luiz Gonzaga - Derramaro o gái
Luiz Gonzaga - São João na roça
Luíz Gonzaga - São João do carneirinho
Cristóvão Cerqueira - Popurri de arrasta-pé
Luiz Gonzaga e Elba Ramalho - Sanfoninha choradeira

As festas juninas são comemoradas no Brasil desde o século XVI. Tais comemorações sofreram muitas adaptações desde o seu início no nosso país.

Costumamos montar um arraial, que é uma aldeia (temporária, pois só existe durante as comemorações), com barracas de comidas típicas do nosso país, brincadeiras, jogos, dança e muita diversão. Arraial que se preze tem fogueira, bandeirinhas para decoração, quadrilhas, baião, forró, e gente vestida de caipira (um jeito estilizado de mostrar o homem da roça), casamento na roça e tudo o mais.

Antigamente, costumava-se soltar balões nessa época do ano, mas devido aos incêndios que eles podem provocar, é aconselhável se divertir com os fogos de artifício (sempre com cuidado) e com a festa em si. Aliás, os balões hoje em dia estão proibidos.

As festas juninas nos fazem viver intensamente nosso folclore, a nossa cultura. Nessas festas temos a influência de vários povos que marcaram a nossa história. Dos portugueses nós herdamos muito, comidas (como arroz doce), a festa em si, a religião, algumas danças como a dança das fitas. Dos franceses herdamos a quadrilha com passos e marcações inspirados na corte européia. Dos índios o gosto por alimentos como aipim e milho. É difícil separar as influências que sofremos, pois somos o resultado de tudo isso, da mistura de povos e tradições.


O escritor Gustavo Barroso, em seu livro O sertão e o mundo, nos ensina que a festa de São João não é brasileira e muito menos católica. Ela é tudo o que há de mais profundamente humano e de mais visceralmente pagão. Velha como o mundo, se tem transformado ao sabor de cada meio e ao gosto de cada povo. E a religião católica, com a sua extraordinária habilidade, não a esqueceu, quando organizou, no correr dos séculos, as suas festas, adaptando-a ao seu espírito e dando-lhe como patrono um santo cujo dia fica justamente na época do ano em que o paganismo morto a celebrava. Todos os santos do cristianismo são mais ou menos, filhos dos antigos deuses.
O espírito pagão da festa de São João é reconhecido por uma das maiores colunas morais e espirituais da igreja, Bossuet, bispo e orador sacro francês, que diz no seu Catecismo de Meaux, o seguinte: A igreja está resignada a deixar de esforçar-se para destruir as crenças daqueles que, após tantos séculos, não conseguiram renunciar a elas.

O bispo de Meaux, descrevendo as cerimônias dessa festa, diz que elas constavam de danças em redor da fogueira, de festins, da colheita de certas ervas mágicas que se deviam guardar sobre si para obter felicidade, como também da conservação, durante o ano, com o mesmo fim, dos carvões da fogueira. São, mais ou menos, as mesmas cerimônias que o escritor clássico Ovídio descreve em um dos seus livros, cerimônias essas que eram renovadas a cada aniversário da fundação de Roma. Como se vê, bem antes do cristianismo.

A festa de São João é a festa do fogo, a festa que, no hemisfério norte, comemora o solstício do verão, o dia em que, ao meio-dia, o sol atinge seu ponto mais alto no céu e o dia se torna o mais longo do ano. Aqui no Brasil, já que estamos no hemisfério sul, o que ocorre é o contrário: É o dia mais curto do ano. No século VII, quando ainda a igreja não tinha adotado essa festa, Santo Elói, trovejava contra ela. Dizia ele aos seus diocesanos: “Não se reúnam na época dos solstícios. Nenhum de vocês deve dançar, ou pular em torno do fogo, nenhum de vocês deve cantar no dia de São João. Porque essas canções são diabólicas!”

Já na Roma antiga, segundo Ovídio, a festa do solstício se chamava Palilia. Ele narra que se acendiam fogueiras, em cuja cinza se cozinhavam favas, ornavam-se as casas e estábulos de ramos verdes, recitavam-se três vezes certas orações, atravessava-se pelo meio das chamas, sorrindo e cantando, porque o fogo tudo purificava, homens e rebanhos.

Essa sobrevivência do velho culto pagão, passou de Roma para as nações bárbaras que se formaram sobre as ruínas colossais do Império, conquistadas pouco a pouco pela cultura latina. Se no início da Idade Média, a festa foi condenada por Santo Elói, tempos depois, ainda existia a todo vapor, na forma da festa da roda inflamada, que se fazia correr pelo meio do povo, em pleno século XII, em homenagem a São João.

A reminiscência dessa roda de chamas é o uso atual de jogar fogos de rodinhas de papelão orladas de estopim, em cujo centro há pinturas curiosas e, às vezes, a face do João Batista. Essas rodinhas, presas por um prego à ponta de uma vara, queimam, rodopiando e recordam a antiga grande roda inflamada das superstições medievais, como a passagem purificadora pelo fogo e é a mesma que nós realizamos nas nossas fogueiras de São João, com intuitos de ser felizes durante o ano, ou para obter o compadresco singelo. Obedecemos nisso à força insuperável da tradição milenária, indestrutível, que celebra no dia de São João o solstício do verão, como no dia de Natal o solstício de inverno, no hemisfério norte. A igreja adaptou essas celebrações à sua maneira.

Segundo a lenda (não baseada na bíblia), Isabel, mãe de São João era prima da Virgem Maria. São João não havia nascido ainda, mas era esperado. Isabel prometeu à Virgem avisá-la logo que criança nascesse. As duas casas não eram muito distantes, de modo que de uma se avistava a outra, com um pouco de esforço.

Numa noite bonita, de céu estrelado, São João nasceu. Para avisar a Virgem, Isabel mandou erguer, na porta de sua casa, um mastro e acendeu uma fogueira que o iluminava. Era o aviso combinado.

A Virgem Maria correu logo a visitar a prima, levou-lhe de presente uma capelinha, um feixe de folhas secas e folhas perfumadas para a caminha do recém-nascido.
João Batista é descrito na Bíblia como pessoa solitária, um profeta de grande popularidade.

Fez severas críticas à família real da época, a do rei Herodes Antipas, da Galiléia, pois o rei era amante da sua cunhada, Herodíades. Segundo o evangelho de São Marcos (cap. 6, vers. 17-28) Salomé, filha de Herodíades, dançou tão bonito diante de Herodes que este lhe prometeu o presente que quisesse. A mãe de Salomé aproveitou a oportunidade para se vingar e anunciou que o presente seria a cabeça de João Batista, que se encontrava preso. O “presente” foi trazido em uma bandeja de prata.

A imagem de São João Batista é geralmente apresentada como um menino com um carneiro no colo, já que segundo a Bíblia, ele anunciou a chegada cordeiro de Deus.