Julho 2008


Escute o Prosa & Verso 049

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Músicas tocadas neste programa:
moreira da silva - acertei no milhar.
nat king cole – ay cosita linda
raul seixas – rua augusta
gal costa - volta
dilu melo - fiz a cama na varanda
chico buarque – não sonho mais
carlos josé – sonhei que estavas tão linda
pixinguinha – elizeth no chorinho

Alguns animais passam a maior parte da vida dormindo. Os gatos e todos os seus parentes, como a onça e o tigre, por exemplo, dormem durante quase todo o dia e só acordam para caçar, comer e procriar, o que aliás fazem tanto de dia como de noite, indistintamente. Nós, humanos, seguimos mais ou menos um padrão, quer dizer, dormimos de noite e ficamos acordados de dia, para executarmos as atividades necessárias à nossa vida individual e coletiva. Mesmo assim, não dormimos de noite e ficamos acordados de dia, simplesmente. Parte da noite também ficamos acordados, é claro. Resumindo, a cada dia, devemos dormir uma terça parte. Como um dia tem 24 horas para qualquer um de nós, seja rico, seja pobre, seja velho, seja criança, seja homem, seja mulher, seja empregado, seja patrão, seja amo, seja escravo, cada um de nós precisa dedicar oito horas para o repouso do sono.

Todos sabemos, por experiência própria, que o sono restabelece nossas forças, nossa disposição, nosso humor, de modo que durante o sono nosso corpo não só continua vivendo e em atividade, com o coração batendo, com o sangue circulando, com a respiração nos alimentando, mas também nossa mente não pára. A mente trabalha durante o sono e seu trabalho às vezes se manifesta pelos sonhos.
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Escute o Prosa & Verso 048

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Músicas tocadas neste programa:
isaura garcia – a banca do distinto
belchior - apenas um rapaz latino-americano
gabriel o pensador - cantão
jorge veiga - café soçaite
chico buarque - juca
um chorinho

Belarmino, um senhor já maduro com seus 45 anos, trabalhava num Banco oficial, aqui na Bahia desde adolescente. Entrou como office-boy e permaneceu por toda a vida bancária como mensageiro, na época chamado contínuo. Usava uma farda azul clara, servia cafezinho e levava mensagens internas de um setor para outro do Banco. Belarmino era de família pobre e nunca teve a oportunidade de estudar, mas era uma pessoa inteligente e sempre gostou de ler. Muito cordial, tratava todas as pessoas com simpatia e presteza, por isto era muito querido por todos os funcionários da agência centro e os mais de outras agências, que por acaso o conheciam. Era negro, alto, corpulento e sempre com um sorriso no rosto. Naquela mesma época havia um outro funcionário, na mesma agência, chamado Norival, que ali trabalhava enquanto e concomitantemente fazia o curso de direito. Ao final do curso, Norival se formou e continuou trabalhando no Banco, onde foi aproveitado para uma função de sub-chefia. Vestia paletó e gravata, como era costume naqueles dias, sapato lustroso e usava os cabelos fixados com brilhantina, sempre bem penteados. Norival gostava da pose, era muito vaidoso e, algumas semanas depois de sua formatura, estava trabalhando em sua carteira quando Belarmino chegou para lhe entregar algum documento. Dorival não perdeu a oportunidade. E disse: Belarmino, você sempre me chamou de senhor, mas agora eu me formei em advocacia, sou um bacharel e não fica bem você continuar me chamando de seu Norival, ta certo? D’agora em diante você deve me tratar por doutor Norival. Belarmino ficou olhando para o colega assim com ar de riso. Ele, que vivia sorrindo, ampliou o sorriso e deu uma risada. E respondeu: Seu Norival, se o senhor, que agora é advogado, me mostrar algum artigo no código civil que me obrigue a chamar o senhor de doutor, eu chamo. Enquanto o senhor não me mostrar isto, vou continuar a lhe chamar de seu Norival. Se desculpou, deu meia volta e, com o seu costumeiro sorriso no rosto, deu meia volta e retornou ao seu trabalho.
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Escute o Prosa & Verso 047

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Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga - nem se despediu de mim
jamelão - vingança
falcão - I’m not dog no
ismael silva - antonico
caetano veloso - soy loco por ti américa
beth carvalho - meu guri
dilermando reis - magoado

Na fila do banco, um pessoa deu um espirro. Não teve a mínima preocupação de conter as gotinhas de saliva com um lenço, nem mesmo com as mãos. Outro dia, um adolescente sentou-se à mesa para almoçar e manteve o boné na cabeça. Ainda outro dia, uma pessoa com mais de 30 anos se queixava em tom acusatório que seu pai nunca lhe ensinou a escovar os dentes.
Os adolescentes estranham, quando lhes chamamos a atenção para o uso das palavras inadequadas. Por exemplo, usam palavrões indiscriminadamente, seja em que lugar estiverem.
Um dia desses, entrei em uma lan house. Havia um punhado de crianças e adolescentes jogando. Um deles, já com seus 16 ou 17 anos, repetia palavrões e xingamentos fortes, em alta voz. E tinha os ouvidos tapados por headphones. A quem xingava? A quem dizia impropérios? Certamente para si mesmo, só que em voz alta e agressiva. Fiquei incomodado e reclamei. Ele pareceu não ter compreendido minha reclamação. Achava ele que o que fazia era a coisa mais natural do mundo.
Também sentem estranheza quando lhes apontamos a descortesia, se permanecem sentados e deixam em pé uma grávida ou um idoso. Têm dificuldade de entender que não se devem sentar à mesa antes dos mais velhos. Mal acabam sua refeição, levantam-se e saem, sem um pedido de licença, sem uma satisfação aos que ficam. E ficam indignados quando são alertados de que, ao chegar a qualquer ambiente, devem cumprimentar as pessoas que ali estão, que pela manhã e pela noite também devem saudar os presentes.


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Escute o Prosa & Verso 046

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Músicas tocadas neste programa:
zé ramalho – cidadão
marlene – lata d’água na cabeça
vinícius de moraes – a terra prometida
toquinho e vinícius – paiol de pólvora
barracão

Vinícius de Moraes morreu no ano de 1980. Morreu em conseqüência de um derrame que teve dois anos antes. Entre outras coisas, foi funcionário público, escritor, poeta, músico e diplomata concursado, tendo representado o Brasil em Los Angeles, Paris, Roma e em Montevidéu. Nos primeiros anos da ditadura recebeu aposentadoria compulsória, que quer dizer obrigatória, porque não queriam que ele permanecesse na ativa como diplomata. Era poeta e, como poeta, incomodava o regime dos militares. Numa entrevista a Clarice Lispector, Vinícius declarou:


– Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.

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na porta do nosso jardim,
plantamos um dia um jambeiro.
Isto já faz muito tempo,
faz quase uma vida inteira.
pra que plantar um jambeiro,
se os frutos que possa dar
não poderemos colher?
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