Qua 2 Jul 2008
a flor do jambeiro
Categoria: Poesia | Por Jorge Rochana porta do nosso jardim,
plantamos um dia um jambeiro.
Isto já faz muito tempo,
faz quase uma vida inteira.
pra que plantar um jambeiro,
se os frutos que possa dar
não poderemos colher?
ainda pequeno arbusto,
os filhos, brincando ali,
quebraram o broto central,
aquele que dá a forma,
que dá a forma de cone,
ápice que aponta pro céu.
que importa a sua forma,
se dos frutos do jambeiro,
sequer as flores veremos?
nem lembraremos talvez
que dali nascerão jambos,
e os frutos que possa dar
não poderemos colher…
até deixamos de olhar
pr’aquela planta disforme,
com o olho decepado
e as folhas enrugadas,
em sua infância teimosa
teimando em sobreviver.
um dia, alguém nos chegou,
e, fitando-a com carinho,
sugeriu se lhe podasse
que se lhe afofasse a terra,
que se lhe pusesse adubo,
que se lhe desse atenção,
que se lhe nada esperasse
todavia, porque jambeiro
só pode frutificar
após muitas primaveras.
árvore bronca e disforme,
foi-se tornando robusta,
esbelta, sombreira e cônica,
como agora já se vê.
e anteontem a muchacha,
minha amada companheira,
que vem cuidando da planta,
botânica sentinela
da porta deste jardim,
olhos brilhantes e rindo,
veio contar efusiva,
a jurar, que tinha visto
sob a sombra do jambeiro
rubros pistilos no chão.
e me chamou para ver,
pra ver e reconhecer
que ela também viu a flor,
era uma única flor,
de um vermelho coral,
que já um broto exibia
um jambo recém-nascido,
pequeno broto frugal.
que faz com que uma flor
de jambo, uma simples flor
(se bem que seja a primeira
de um jambeiro obstinado,
a despeito dos percalços,
desesperança e desprezo)
provoque tanta emoção
num peito que, já cansado,
hospedeiro do enfado,
tão prenhe em desilusão,
um peito que enfim só abriga
claudicante coração?
e assim me perguntei:
só há poesia no nascer
e nas flores a brotar?
e assim me perguntei
por que também o morrer
não pode a musa inspirar?
não é preciso morrer
para enfim ressuscitar?
aquela flor do jambeiro,
lampejo do alvorecer,
mas também da cor do ocaso,
da cor rosácea do sol,
do sol poente do outono,
me fez lembrar com emoção
les deux cortèges, soneto
do poeta soulary,
onde a chegada e a partida,
onde quem vai e quem vem,
onde o morrer e o nascer
não passam de u’a coisa só.
e de cecília meireles
que em sua ode sugestão
me exorta a ser igual
à nuvem que, leve e bela,
vive de nunca chegar,
de nunca chegar a ser.
e me exorta a ser assim
sereno, isento fiel,
não como o resto dos homens…
traiçoeiramente o pranto
vem minha voz embargar.
um pranto que é quase doce,
que não encerra tristeza,
angústia, desesperança,
nem saudade ou nostalgia.
pranto que não é chorar,
que não é lamentação
nem é raiva nem é ira,
impotência nem prisão.
é um pranto em tom feliz,
felicidade contida,
serena, isenta, fiel,
bem ao nível do matiz
da sugestão da poeta!
Data do artigo: Quarta-feira, 2 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2008 às 5:44 pm | Categoria : Poesia | Deixe um comentário
2 comentários para o artigo “a flor do jambeiro”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Outubro 23rd, 2008 at 10:31 am
iso e de mais eu espero que esse jambeiro fike aaiaia por muito tempo
Outubro 31st, 2008 at 12:52 pm
muito lindo e oportuno