Escute o Prosa & Verso 047

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Músicas tocadas neste programa:
luiz gonzaga - nem se despediu de mim
jamelão - vingança
falcão - I’m not dog no
ismael silva - antonico
caetano veloso - soy loco por ti américa
beth carvalho - meu guri
dilermando reis - magoado

Na fila do banco, um pessoa deu um espirro. Não teve a mínima preocupação de conter as gotinhas de saliva com um lenço, nem mesmo com as mãos. Outro dia, um adolescente sentou-se à mesa para almoçar e manteve o boné na cabeça. Ainda outro dia, uma pessoa com mais de 30 anos se queixava em tom acusatório que seu pai nunca lhe ensinou a escovar os dentes.
Os adolescentes estranham, quando lhes chamamos a atenção para o uso das palavras inadequadas. Por exemplo, usam palavrões indiscriminadamente, seja em que lugar estiverem.
Um dia desses, entrei em uma lan house. Havia um punhado de crianças e adolescentes jogando. Um deles, já com seus 16 ou 17 anos, repetia palavrões e xingamentos fortes, em alta voz. E tinha os ouvidos tapados por headphones. A quem xingava? A quem dizia impropérios? Certamente para si mesmo, só que em voz alta e agressiva. Fiquei incomodado e reclamei. Ele pareceu não ter compreendido minha reclamação. Achava ele que o que fazia era a coisa mais natural do mundo.
Também sentem estranheza quando lhes apontamos a descortesia, se permanecem sentados e deixam em pé uma grávida ou um idoso. Têm dificuldade de entender que não se devem sentar à mesa antes dos mais velhos. Mal acabam sua refeição, levantam-se e saem, sem um pedido de licença, sem uma satisfação aos que ficam. E ficam indignados quando são alertados de que, ao chegar a qualquer ambiente, devem cumprimentar as pessoas que ali estão, que pela manhã e pela noite também devem saudar os presentes.


Estou mencionando fatos ocorridos com adolescentes, mas incontáveis adultos agem da mesma forma.
Podem ser dedilhados inúmeros exemplos de comportamento inadequado e inconveniente, mas que para eles parecem normais, aliás são mesmo normais, pois creio que nunca tinham aprendido antes uma forma diferente de se comportar..
Conheci uma escola onde, uma vez por mês, nas noites de quinta-feira, havia uma espécie de aula de civilidade. No começo, os estudantes achavam simplesmente curioso, mas depois, quando passavam a praticar o que iam progressivamente aprendendo, passavam também a se sentir gratificados em se dar conta de como a gentileza ia surgindo e provocando um sorriso de admiração e aquiescência por parte dos mais velhos, dos pais e professores e das demais pessoas adultas. E a partir daí os estudantes iam tomando gosto cada vez mais por essas aulas de civilidade e chegavam a criar uma expectativa confortável e reconfortante pela chegada daquele horário.
Nessa época, as primeiras vezes em que me levantei para dar o lugar a uma pessoa mais velha, fiz isto um pouco desconfiado, quase envergonhado, porque nem sempre via meus colegas fazendo o mesmo. Depois, cheguei a perceber que alguns dos colegas acabavam por adotar o mesmo comportamento. E isto me fazia também sentir gratificado.
Já adulto, mais de uma vez, quando tentei dar a mão a alguma senhora que estava descendo os degraus de um ônibus, tive recusada minha ajuda. Também já me deparei com uma situação constrangedora, quando uma vez cedi meu lugar a uma jovem médica, em uma reunião profissional. Eu me levantei e lhe cedi o lugar. Além de recusar acintosamente, ainda disse que não era aleijada. Embora tenha ficado envergonhado, minha vergonha não provinha de meu procedimento, mas da reação grosseira daquela jovem doutora. Chamou a atenção de quase todos os presentes. Imagino, pelos olhares, que também se envergonharam.

Já tive a oportunidade de fazer comentários sobre os significados das palavras e de como muitas vezes tropeçamos nelas. Por exemplo, costumamos falar em crítica, como se fosse depreciação, humilhação, como se crítica fosse uma coisa ruim. Então tem muita gente que, quando menciona a palavra crítica, faz questão de acrescentar construtiva ou destrutiva, como se houvesse alguma crítica que fosse destrutiva. A gente fala as palavras truncadas, quando não conhece as palavras mais apropriadas para relatar um fato ou para nomear um objeto, exprimir uma idéia ou uma emoção. Tem tanta gente que na conversa está sempre falando em coisar. Este verbo coisar é uma espécie de quebra-galho, quando não conhecemos o verbo apropriado. Então, tentamos com isto substituir todos os outros verbos. Tive um colega que falava negoçar, um verbo que aliás nem consta dos dicionários. Ele dizia por exemplo: Anteontem vi um cara negoçando uma lata de óleo vazia. Outro, um senhor que conheci em Salvador, empregava o verbo quebrar, para dizer qualquer coisa. Assim ele dizia: Estou com uma fome danada. Vou quebrar um prato de feijão. Outra hora dizia: quebra aí um copo d’água pra mim! A quem interessar possa, ele estava querendo dizer: dê um copo d’água pra mim…
Às vezes penso que isto não é só questão de desconhecer as palavras apropriadas, mas é sobretudo preguiça de pensar, porque fique sabendo que pensar custa!

Pois, aqui também o uso das palavras para exprimir um sentimento pode dar em confusão. Neste caso, não por preguiça ou desconhecimento, mas porque as próprias idéias e os próprios sentimentos são confusos. A gentileza é tida como fraqueza, como frescura ou até como covardia. Não é raro que se confunda uma atitude bondosa como se fosse uma atitude boba, besta.
Do mesmo modo também se confunde uma atitude enérgica como se fosse uma atitude grosseira. Acha-se que uma pessoa é bem educada quando ela é dócil, tímida, submissa, incapaz de contestar. Por outro lado, se ela contesta, reivindica o direito, ela incomoda. Se é uma pessoa que discorda e que não quer submeter-se, então é considerada mal educada, bruta.
A maioria das pessoas, quando pede um favor, não aceita um não como resposta. Acham que basta pedir por favor para que o outro tenha a obrigação de atender. Ora, favor é uma coisa que deve ser gratuita. Não pode ser obrigada como também não tem que ser paga. Favor tem que ser de graça. Daí que ninguém pode cobrar de outro que lhe faça um favor. Um favor pode ser pedido, mas nunca cobrado, porque favor não é obrigação. É apenas boa vontade. Como o favor que Ismael Silva pede a Antonico no samba que você vai ouvir.

A gentileza nem sempre é dócil e agradável. Por exemplo, é muito mais gentil uma pessoa que diz logo que não pode fazer alguma coisa que outro lhe pedir por favor, do que aquele que não nega mas, ao contrário, ainda promete que vai fazer e depois não faz nem dá a menor satisfação. Ser gentil não é ser fraco, mas ser honesto, ser verdadeiro, mesmo que não agrade. Por outro lado, aqueles que estão sempre prometendo e que quase sempre não cumprem o que prometeram poderão até ser muito agradáveis e simpáticos, mas isto não significa que sejam honestos e verdadeiros. Muito pelo contrário.
Lembro agora de uma frase atribuída ao médico e guerrilheiro argentino que lutou em Cuba e morreu na Bolívia Ernesto Che Guevara, que diz assim: Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás. Em português: É preciso ser enérgico, mas sem jamais perder a ternura.
Por falar em Che Guevara, por ocasião da sua morte Caetano Veloso musicou um poema de Capinan, que fez e faz sucesso, pela beleza tanto da letra quanto da música. A composição é portanto uma homenagem ao Che, embora pouca gente saiba disto. Fiquem com Caetano Veloso, Soy loco por ti américa.

Relembrando tudo isto, eu me pergunto: por que as escolas não programam um momento, dentro do currículo, mesmo que optativamente, onde se passem noções de civilidade, uma vez que o ambiente doméstico tem falhado tanto? Afinal o ambiente do lar muito tem relegado e talvez nem mesmo tenha as condições necessárias para fazer o que seria de sua atribuição.
É claro que não cabe à escola suprir o que seria responsabilidade do lar de cada aluno. Mas é bem possível que dispondo de algum tempo para orientar os estudantes, estes mesmos estudantes talvez levassem para casa as informações recebidas em aulas de civilidade e com isto viessem a motivar os pais a fazer uma reciclagem. Pode ser que, assim motivados, até viessem os pais a mudar seus próprios comportamentos. Não é isto que se chama de efeito multiplicador?