Escute o Prosa & Verso 048

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Músicas tocadas neste programa:
isaura garcia – a banca do distinto
belchior - apenas um rapaz latino-americano
gabriel o pensador - cantão
jorge veiga - café soçaite
chico buarque - juca
um chorinho

Belarmino, um senhor já maduro com seus 45 anos, trabalhava num Banco oficial, aqui na Bahia desde adolescente. Entrou como office-boy e permaneceu por toda a vida bancária como mensageiro, na época chamado contínuo. Usava uma farda azul clara, servia cafezinho e levava mensagens internas de um setor para outro do Banco. Belarmino era de família pobre e nunca teve a oportunidade de estudar, mas era uma pessoa inteligente e sempre gostou de ler. Muito cordial, tratava todas as pessoas com simpatia e presteza, por isto era muito querido por todos os funcionários da agência centro e os mais de outras agências, que por acaso o conheciam. Era negro, alto, corpulento e sempre com um sorriso no rosto. Naquela mesma época havia um outro funcionário, na mesma agência, chamado Norival, que ali trabalhava enquanto e concomitantemente fazia o curso de direito. Ao final do curso, Norival se formou e continuou trabalhando no Banco, onde foi aproveitado para uma função de sub-chefia. Vestia paletó e gravata, como era costume naqueles dias, sapato lustroso e usava os cabelos fixados com brilhantina, sempre bem penteados. Norival gostava da pose, era muito vaidoso e, algumas semanas depois de sua formatura, estava trabalhando em sua carteira quando Belarmino chegou para lhe entregar algum documento. Dorival não perdeu a oportunidade. E disse: Belarmino, você sempre me chamou de senhor, mas agora eu me formei em advocacia, sou um bacharel e não fica bem você continuar me chamando de seu Norival, ta certo? D’agora em diante você deve me tratar por doutor Norival. Belarmino ficou olhando para o colega assim com ar de riso. Ele, que vivia sorrindo, ampliou o sorriso e deu uma risada. E respondeu: Seu Norival, se o senhor, que agora é advogado, me mostrar algum artigo no código civil que me obrigue a chamar o senhor de doutor, eu chamo. Enquanto o senhor não me mostrar isto, vou continuar a lhe chamar de seu Norival. Se desculpou, deu meia volta e, com o seu costumeiro sorriso no rosto, deu meia volta e retornou ao seu trabalho.

Na quarta-feira passada, recebi aqui na rádio uma cartinha de uma ouvinte que se chama Eunice da Silva, moradora da rua Joel Modesto. Achei que era interessante ler a carta aqui no início do programa, porque o assunto que ela provocou eu aproveitei para tratar neste Prosa e Verso de hoje. A carta diz o seguinte: Ouço a rádio Diamantina e por várias vezes escuto algumas pessoas lhe tratarem ou chamarem de dr. Jorge ou Jorge Rocha ou companheiro e fico confusa sem saber qual é o certo. Gostaria que o senhor me explicasse ou esclarecesse qual é o modo certo de lhe tratar.
Primeiro, vou responder à pergunta feita por dona Eunice e depois vou fazer umas considerações sobre isto que se chama pronome de tratamento.
Dona Eunice! no meu caso, a melhor forma como preciso ser tratado é pelo meu próprio nome, que é Jorge. Se há outros Jorge, como de fato há, no Morro do Chapéu, eu sou o que tem o sobrenome Rocha. Portanto, sou Jorge Rocha e creio que assim é que as pessoas em geral me chamam. As outras formas de tratamento é o que vamos ver em seguida, porque são tratamentos que se aplicam a todas as pessoas.

Quando os primeiros homens surgiram sobre a terra, certamente não havia grandes nem pequenos, nem senhores nem escravos, nem patrões nem empregados. Esta classificação das pessoas em grandes e pequenos veio depois, com os costumes humanos e se origina na exploração de uns sobre os outros. Hoje em dia é preciso um esforço para que a gente possa imaginar um mundo em que todos os seres humanos sejam iguais em direitos e em deveres. Não é por falta de leis ou de boas intenções. Mas é certamente por falta de prática, por falta de cumprimento das leis.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi assinada e aceita em 1948, ao fim da segunda guerra mundial, começa assim:
Artigo 1
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo 2
I) Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
A Constituição Brasileira, promulgada em 1988, ao fim do período da ditadura militar, diz logo no começo:
Artigo 3
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I- construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II- erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
III- promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e qualquer outras formas de discriminação.
Artigo 5
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Mas nós vivemos numa sociedade desigual, muito desigual, onde existem os grandes e os pequenos, os ricos e os pobres, enfim os que são importantes e têm status social e os que são, digamos, cidadãos comuns. Por este motivo, usamos formas de tratamento também desiguais, dependendo da pessoa com quem a gente fala ou a respeito de quem a gente fala.
Para o papa, por exemplo, usa-se o tratamento: vossa santidade. Para os reis, vossa majestade. Para os príncipes, vossa alteza, os juízes são tratados como meritíssimo, os cardeais da igreja católica, como vossa eminência. Para as altas autoridades, usa-se vossa excelência, os reitores das universidades são chamados de vossa magnificência e assim por diante.
Numa cidade como Morro do Chapéu, o tratamento de vossa excelência fica restrito apenas ao prefeito e ao promotor público. Os outros funcionários graduados tratam-se de vossa senhoria, inclusive os vereadores.
Embora no Brasil seja uma tradição tratar-se de doutor aos engenheiros, advogados, dentistas e médicos, o título de doutor na verdade se aplica mesmo é às pessoas que, tendo graduação universitária, cursaram pós-graduação e defenderam tese de doutorado. Estes é que são por direito doutores. No meu caso, que sou médico mas que não defendi tese de doutorado, o tratamento de doutor é apenas um costume, sem nenhum mérito, sem nenhum direito. Todas as outras pessoas devem ser tratadas de senhor ou de você, conforme o grau de intimidade.
É costume civilizado que os mais velhos sejam tratados de senhor, mas a tendência dos novos tempos é que mesmo os mais velhos sejam tratados de você, dependendo mais uma vez do grau de intimidade.
Este samba que vocês vão escutar em seguida é uma bem-humorada sátira à grafinagem e ao colunismo social carioca dos anos cinqüenta. Em seus versos, Miguel Gustavo, o autor, registra personagens como Teresas, Dolores, Didu e lugares como Riverside e Cabo Frio, além de expressões como enchenté, merci, allright, black tié e champanhota, tudo isto que era freqüentemente escrito nas colunas sociais da época.
O samba é cantado por um malandro do morro, um falso grã-fino que, perguntado como consegue se manter nas altas rodas, responde: Depois eu conto…. O nome do samba é Café Soçaite e é interpretado por Jorge Veiga, apelidado de O Caricaturista do Samba.

Numa sociedade onde todos fossem de fato iguais em direitos e em deveres, certamente o tratamento de um para com o outro seria sempre o mesmo. Nas igrejas em geral todos os seguidores se tratam por irmão. Nos partidos e nos regimes comunistas de todo o mundo, o costume é que todos os cidadãos se tratem como camaradas.
Aqui no Brasil, o PT, Partido dos Trabalhadores, adotou o tratamento de companheiro para seus membros. Entretanto, é um costume popular que se tratem os amigos e as outras pessoas de suas relações como companheiro, colega, compadre, meu irmão, meu rei, bacana, nego, minha preta, etc, sempre de uma forma amigável e carinhosa.
É assim que entendo os modos diferentes como sou tratado aqui na rádio. Você, que escreveu sua cartinha gentil, pode me tratar como desejar, porque isto não me acrescenta nem me tira nada. Melhor me chamar de você e pelo meu nome de Jorge, com respeito e consideração, do que me chamar de doutor, apenas por reverência, mas sem a devida consideração.
Espero que para você que está ouvindo, e também para Eunice, que me mandou a carta, esta explanação que fiz no programa de hoje venha a ter alguma utilidade. As pessoas não valem pelos títulos que têm e muito menos pelos pronomes de tratamento que lhe são destinados. As pessoas, como as árvores, valem pelos frutos que dão.