Qua 30 Jul 2008
Prosa & Verso 049 – O SONO E OS SONHOS
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha
|
Escute o Prosa & Verso 049
Músicas tocadas neste programa: |
Alguns animais passam a maior parte da vida dormindo. Os gatos e todos os seus parentes, como a onça e o tigre, por exemplo, dormem durante quase todo o dia e só acordam para caçar, comer e procriar, o que aliás fazem tanto de dia como de noite, indistintamente. Nós, humanos, seguimos mais ou menos um padrão, quer dizer, dormimos de noite e ficamos acordados de dia, para executarmos as atividades necessárias à nossa vida individual e coletiva. Mesmo assim, não dormimos de noite e ficamos acordados de dia, simplesmente. Parte da noite também ficamos acordados, é claro. Resumindo, a cada dia, devemos dormir uma terça parte. Como um dia tem 24 horas para qualquer um de nós, seja rico, seja pobre, seja velho, seja criança, seja homem, seja mulher, seja empregado, seja patrão, seja amo, seja escravo, cada um de nós precisa dedicar oito horas para o repouso do sono.
Todos sabemos, por experiência própria, que o sono restabelece nossas forças, nossa disposição, nosso humor, de modo que durante o sono nosso corpo não só continua vivendo e em atividade, com o coração batendo, com o sangue circulando, com a respiração nos alimentando, mas também nossa mente não pára. A mente trabalha durante o sono e seu trabalho às vezes se manifesta pelos sonhos.
Muita gente pensa que o sonho é bobagem, que nada significa. Outros acham que o sonho vai acontecer ou já aconteceu na vida real e ficam impressionados, o que também pode ser bobagem. O sonho parece ser apenas a produção de idéias, sem as amarras e as limitações da consciência e da vontade. E as idéias não resultam em nada, se não forem materializadas, concretizadas através da ação. Dizem os estudiosos da mente humana que se algum de nós não sonhasse acabaria ficando louco. Alguns de vocês certamente acham que não sonham, mas isto não parece ser verdade. O que ocorre é que nem sempre nos lembramos dos nossos sonhos e por isso achamos que não sonhamos.
Não sei se vocês sabiam, mas o sono tem pelo menos três fases: o sono superficial, leve, o sonho intermediário, médio e o sono profundo, pesado. Os sonhos só ocorrem nesta terceira fase, a do sono pesado, chamada pelos especialistas de sono REM. O nome REM é uma sigla tirada das iniciais da frase rapid eyes mouvements, que significa em português movimentos rápidos dos olhos. Esta fase do sono REM é o verdadeiro sono repousante, que nos alimenta e nos restabelece para o dia seguinte. Uma boa noite de sono vale bem mais do que uma boa refeição.
Quando uma pessoa não consegue dormir, dizemos que tem insônia. A insônia acontece por vários motivos, desde situações externas, como frio, calor, zoada e claridade, como também pelos alimentos ingeridos à noite, alguns medicamentos e drogas estimulantes como o fumo e o café, emoções fortes ou preocupações, excitação pelos jogos, além de doenças, tanto físicas como mentais. Não pensem que todas as insônias têm a mesma natureza, que insônia é tudo a mesma coisa, porque não é. Insônia não é doença, é um sinal de doença, como a febre também não é doença. É um sinal de doença. Usar uma droga para dormir, simplesmente por estar com insônia é tão pouco inteligente quanto usar uma droga para esfriar o corpo, simplesmente por estar com febre.
Como já tenho lembrado algumas vezes neste programa, a febre, a dor, a insônia, a falta de apetite, a fadiga, tudo isto é sinal de doença, mas não é a própria doença. Os sinais de doença se chamam sintomas. Estes sinais, os sintomas, são como a buzina de um carro. Quando estamos distraídos no meio da rua, a buzina de um carro serve para nos alertar que estamos em perigo, pra podermos nos proteger e não ser atropelados. Os sintomas são, portanto, como a buzina; e a doença é como o atropelamento.
Uma pessoa que tem insônia, que tem dificuldade de dormir, deve tomar algumas providências práticas, como procurar dormir em um ambiente calmo, silencioso e escuro. Este negócio de dormir com a luz acesa não é um bom hábito, nem para a saúde nem para o bolso, porque energia custa caro. Deve deixar de jantar, devendo passar a comer apenas alguma fruta pela noite, como mamão, que tem uma digestão tranqüila ou mesmo pode tomar uma xícara de leite morno ou de chá de cidreira, melissa, erva-doce, folhas de laranja, capim santo e tantos outros que existem, são calmantes e em geral não custam um tostão. Não deve tomar café nem à tarde nem à noite e, se fuma, deve parar de fumar. Afinal o cigarro não traz nenhum benefício e só faz prejudicar a saúde e o bolso.
Se o sono só chega tarde, experimente acordar mais cedo do que de costume, mesmo que ainda sinta vontade de ficar na cama. Assim o corpo vai aprendendo a controlar o momento de ir deitar. E quando a noite chegar, o sono também vem mais cedo, pois quem se habitua a acordar tarde pela manhã, acaba atrasando a chegada do sono, quando a noite vem.
Algumas vezes, mesmo não sofrendo de insônia, uma noite qualquer nós somos surpreendidos com uma lembrança, um pensamento, um susto ou outra emoção forte e, se isto acontece na hora de dormir, acabamos sendo despertados e nosso sono retarda um pouco. Isto é ocasional e um bom remédio e levantar, fazer um chá calmante ou simplesmente tomar uma xícara de leite morno e ler um pouquinho alguma coisa leve, que não exija muita atenção e esforço. Isto costuma fazer relaxar e o sono chega, como acontece na toada que vocês vão escutar agora, na voz de Dilu Melo.
Os sonhos podem ser bons ou maus ou até indiferentes e muitas vezes obscuros e absurdos. São assim porque nós mesmos somos assim, bons, maus, obscuros e absurdos. Também a vida é assim boa, má, obscura e absurda. Enfim, por todo o universo perpassa o bem, o mal, o obscuro e o absurdo. Já dizia muito bem Demócrito, na velha Grécia, no tempo de ouro dos filósofos, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. E o acaso é o que há de mais incompreensível ao nosso raciocínio, à luz do nosso conhecimento. O acaso é assustador, de tal maneira que geralmente não conseguimos viver face a face com ele. Então, nossa angústia geralmente nos leva à invenção de crenças e ídolos, para nos darem uma certeza, mesmo que falsa. Preferimos a certeza falsa e estéril à incerteza verdadeira e produtiva. Por conta do que somos e do mundo em que estamos mergulhados, nossos sonhos têm as mesmas características, como dizia, bons ou maus, obscuros e absurdos. E isto também engendra a produção artística. E lá vêm músicas como esta, que fala de um pesadelo.
Este foi um sonho mau. Também sonhamos sonhos bons e aí está um deles, nesta canção na voz de Nat King Cole. É em espanhol, mas dá tranquilamente para compreender. Prestem atenção.
Data do artigo: Quarta-feira, 30 dAmerica/New_York Jul dAmerica/New_York 2008 às 6:04 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 049 – O SONO E OS SONHOS”
Deixe um comentário
Efetue o login para escrever um comentário.
Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Abril 10th, 2009 at 11:58 am
Parab�ns pelo site! Posts completos e muito relevantes! Parabens mesmo! Continue assim!