Qua 13 Ago 2008
Prosa & Verso 051 – DE SERESTAS E SERENATAS
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha
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Escute o Prosa & Verso 051
Músicas tocadas neste programa: |
O assunto que vamos tratar hoje aqui é música, um tipo especial de música brasileira com forte influência italiana em suas origens, no bairro do Brás, reduto italiano no início do século passado.
Estamos habituados a chamar de seresta às músicas lentas, românticas, sobretudo os boleros, músicas que se prestam à dança, como estas que vocês acabaram de ouvir. Se alguém nos diz que vai haver uma seresta, pensamos logo em um baile, onde vão ser tocadas músicas para dançar aos pares, principalmente, como acabei de dizer, os boleros, os famosos passos dois pra lá, dois pra cá.
A bem da verdade, existe aí um equívoco, um engano. É que os bailes ocorrem habitualmente dentro das casas, dos clubes, em ambientes fechados e cobertos. E é aí de fato onde se tocam e cantam os boleros, mas também outros ritmos, como samba, valsa, fox-trot, beguine, boogie-woogie, baião, xote, outros e mais outros. As gerações mais novas certamente não conheceram execuções musicais à noite e ao ar livre, a não ser as das filarmônicas e as dos shows em praças públicas e em conchas acústicas ou os mega-shows até em estádios. Eu, que venho da velha guarda, com meus 62 anos, ainda alcancei e até curti, em minha infância e adolescência, outro tipo de manifestação musical que acontecia basicamente ao som do violão e da voz dos trovadores, dos menestréis, dos seresteiros. Às vezes também se faziam acompanhar de um violino, uma rabeca, um pandeiro, um instrumento de sopro. Eram as serenatas, que no Brasil passaram a chamar-se também serestas. Não se cantavam boleros nas serenatas, ou nas serestas, como preferirem porque dá no mesmo seresta ou serenata. Elas aconteciam nas ruas, sob a luz do luar ou mesmo nas noites escuras, mas cheias de estrelas.
As serestas ou serenatas eram realizadas por um pequeno grupo de homens, uns com instrumentos e algum deles com a voz. As letras costumavam ser melosas e os ritmos eram toadas, valsas, canções e, mais recentemente sambas e sobretudo sambas-canções. Eram feitas geralmente ao pé da janela da mulher amada ou que se pretendia conquistar. Mas nada de boleros, salvo excepcionalmente. Podiam-se jogar flores, tanto da rua para a janela, para a mulher cantada, como da janela para a rua, em direção aos seresteiros. Outras vezes, mais raras, poder-se-ia receber lá embaixo uma bacia d’água e dizem que até mijo, caso não fosse a seresta de agrado da donzela ou do seu pai, que em geral é uma fera, como diria Nelson Rodrigues.
O termo seresta é recente na língua portuguesa e, segundo o Dicionário de Antônio Houaiss, começou a ser usado há menos de 100 anos, muito pouco tempo, portanto. É considerada como uma palavra expressiva em que se vê um eco de serenata. Serenata, seresta. Provavelmente, ambas são derivadas de sereno, que é, como todos sabem, o ar tranqüilo e calmo da noite.
O termo serenata vem da língua italiana, para designar uma composição musical de caráter simples e melodioso, para ser executada à noite, ao ar livre.
A palavra sereno, por sua vez, parece que vem de sera, uma palavra também italiana, que significa o entardecer ou o anoitecer.
Neste programa Prosa e Verso, embora esteja aberto às críticas e sugestões, como todos sabem, procuro e acho que costumo trazer assuntos, poesias e principalmente músicas de bom gosto, mas reconheço que vou buscá-las, como se diz, no fundo do baú. O baú é um lugar onde por muito tempo foram guardadas as melhores roupas, as melhores peças de talheres, enfim o que havia de mais precioso e estimado em uma casa, para saírem dali somente em ocasiões especiais. Por esta razão é que vou buscar tais preciosidades musicais no fundo do baú. Algumas pessoas também apreciam e me falam na rua quando me encontram ou então me dizem por telefone, por bilhetes ou mensagens eletrônicas. No fim, o prosa e verso é apenas um prazer que sinto, por partilhar com quem tenha ouvidos para ouvir, algumas coisas que fazem parte de minha bagagem interior. Usando uma linguagem que parece e que talvez até seja mesmo religiosa, uma bagagem do que trago em minha alma.
A seresta, a serenata é uma das belezas que tive a chance de viver em minha infância, adolescência e juventude. O tema de hoje é serenata e sei que o horário do programa não é propício para isto. Aliás, o horário propício seria mesmo à noite. Mas, como muito sabiamente diz o povo, quem não tem cão caça com gato.
Data do artigo: Quarta-feira, 13 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2008 às 4:00 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.