Qua 27 Ago 2008
Prosa & Verso 053 - O TANGO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 053
Músicas tocadas neste programa: |
Hoje este programa é dedicado ao tango. Não fique pensando logo na Argentina. Há quem diga que bem antes de ter aparecido na Argentina, o tango estava nascendo na Europa. Que a dança teve sua origem na Espanha na segunda metade do século 19, portanto há menos de 200 anos. Segundo tal opinião, de lá acabou difundindo-se para outros países, inclusive para os países da América do Sul especialmente para a Argentina, onde sofreu influência de outros dois ritmos também latinos, a habanera, de Cuba e a milonga, da região do Rio da Prata, onde estão o Uruguai e a própria Argentina, palavra que aliás significa prateada ou da cor da prata. A dança surgiu em Buenos Aires, já no final do século 19 e é de tal maneira popular naquela terra, que os argentinos reivindicam para si a invenção do tango.
Apesar disto, há quem afirme também que o tango nasceu na Ilhas Canárias e que tinha o objetivo de reunir os africanos para dançar ao som do tambor, ao qual aliás os negros davam o nome de tan-gô.
Escutem a Habanera, cantada por Nana Mouskouri e comecem a sentir a semelhança com o tango que nós conhecemos hoje.
Admitindo que o tango teria nascido na Espanha, como vocês já ouviram, não tenho conhecimento suficiente para afirmar isto, mas existe uma composição espanhola, clássica da música erudita, que se chama Tango e que foi criada no finalzinho do século 19 ou no início do século 20, pelo maestro Isaac Albéniz.
Uma vez difundido no mundo, o tango tomou feições locais e hoje pode ser ouvido em alguns países, como por exemplo esta canção italiana, cantada por Connie Francis, cujo nome, a propósito, é Tango italiano.
Mesmo em língua castelhana, como aliás convém a um tango, é aqui e ali cantado por intérpretes de outras nacionalidades, às vezes com ótimo resultado, como acontece com Nat King Cole, que fez grande sucesso justamente cantando músicas latino-americanas, com seu sotaque tão marcado e sua bela voz aveludada. Um deles, dos mais conhecidos, chamado El choclo, pode ser ouvido na voz de Nat King Cole.
O tango brasileiro, por sua vez, é resultante da fusão do tango, da habanera, da polca e do lundu, segundo ensina o grande mestre Antonio Houaiss. Foi desenvolvida no Brasil no final do século 19 e início do século 20. Em 1910, Ernesto Nazaré compôs um tango brasileiro que chamou de Odeon. Infelizmente, na minha pesquisa não encontrei uma gravação no ritmo original. Se alguém que esteja ouvindo dispuser, fico agradecido de receber uma cópia para transmitir, em outra ocasião. Mesmo assim, no final do programa, vou tocar esta gravação que eu tenho da composição Odeon, de Ernesto Nazareth, só que transformada em um chorinho, como é de costume colocar no ar ao final do programa.
Aqui no Brasil, o tango proliferou muito, durante os anos 40 e 50 principalmente. Foi quando sofreu uma influência marcante de outras modalidades de músicas brasileiras com letras de tonalidade trágica e romântica e um dos seus mais notáveis intérpretes foi Nelson Gonçalves. Neste tango, ele homenageia Carlos Gardel, de quem vamos falar daqui a pouco.
Como estou me referindo agora ao tango brasileiro, não podia deixar de mencionar este agora que se chama Tango para Tereza, que vocês vão escutar na voz de Ângela Maria.
A esta altura não estou tão certo de que o tango tenha mesmo nascido na Espanha, como aprendi. Segundo a Enciclopédia Britânica, o tango nasceu mesmo foi em Buenos Ayres, sendo a princípio uma criação anônima dos bairros pobres e dos subúrbios. Só depois é que apareceram as composições assinadas para então se expandir para os salões da elite e daí foi ganhando ressonância internacional. Ao sair do seu ambiente original, isto é, dos bairros suburbanos, dos cabarés e dos prostíbulos e passou a ser admitido nos salões ditos familiares, o tango perdeu seus caprichos extravagantes para se adaptar aos novos ambientes, onde alguns passos chegaram a ser proibidos, para evitar posturas sugestivas de uma intimidade considerada indecente. Já nesta fase é que se destacou como o mais famoso e popular dos compositores e cantores de tango, um francês que assumiu o nome de Carlos Gardel e que muita gente tem na conta de argentino. Carlos Gardel, embora cantasse em castelhano, viveu a maior parte de sua vida artística na França, onde fez grande sucesso. É Carlos Gardel que vocês vão escutar agora, interpretando Mano a mano.
Escutem também um tango genuinamente argentino, na voz de Francisco Fiorentino acompanhado por Aníbal Troilo e sua orquestra.
Mais recentemente, o tango vem passando por uma reformulação e alguns compositores e músicos têm tentado recriar um tango, digamos assim, erudito.
Receio que fuja ao gosto popular e se assente mais no gosto das chamadas elites. De qualquer forma, é um tango estilizado que trago para vocês. Ouçam, por exemplo, Astor Piazzolla, Fin de curso.
Data do artigo: Quarta-feira, 27 dAmerica/New_York Ago dAmerica/New_York 2008 às 4:55 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.