A dança de salão, danças dos salões têm seu marco expressivo, e talvez seu início, glamour e sofisticação tal como as conhecemos, nas valsas dos salões da aristocracia austríaca e na Alemanha do  séc. XIX.

Hoje, as danças de salão tomaram feições muito diversas, retornaram de certa forma às suas origens que são populares, abriram-se em leques e leques de leques, sincretizaram-se a tal ponto que ninguém mais toma pé.

Mas antes, muito antes, a dança tem sido uma companheira renitente dos humanos [e de alguns animais que a usam bem menos descaradamente para seduzir o parceiro ou parceira sexual]. Quem vê assim nem de longe imagina que a música e a dança tiveram e têm desempenhado funções sagradas nas mais diferentes culturas e rincões do mundo.

Só para mencionar, a prática religiosa do Candomblé não é possível ser pensada, sem música, ritmo e dança. Na Índia, o deus Shiva é representado dançando, os sufis, grupo místico de origem persa e de inspiração islâmica, centram suas práticas religiosas em danças rituais. Os filmes de faroeste mostram de sobejo índios dançando dança da chuva, dança da guerra, dança da cura… E vamos ver mais:

A dança é u’a manifestação espontânea do ser humano e pode ser individual ou coletiva. Quando expressa a imaginação, emoções básicas de fenômenos da natureza ou ações objetivas em geral, pode ser chamada figurativa; quando representa configurações simbólicas do inconsciente diz-se abstrata. Sua projeção plástica no espaço está diretamente ligada ao psiquismo do indivíduo e por conseqüência ao seu desenvolvimento intelectual e à sua cultura. Os movimentos podem seguir um ritmo interior, determinado pelas emoções e prescindindo de acompanhamento, ou podem ser executados seguindo ritmo determinado por palavra falada ou cantada, instrumentos musicais, ruídos, etc.
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É considerada a mais antiga das artes,. acompanhando o homem ininterruptamente através de sua história em todos os momentos de sua existência, servindo como elemento de comunicação e afirmação, e dando-lhe possibilidade de viver plenamente, através de seu próprio corpo, os símbolos de seu inconsciente, liberando diretamente suas emoções reprimidas por tabus culturais. Nota-se a participação intensa da dança na vida de todas as civilizações primitivas, onde a emoção e o pensamento mágico não eram inibidos pela racionalização ou pela repressão dos instintos.

Da necessidade de manifestar esse pensamento mágico, relacionar-se com a natureza e com o desconhecido, o homem chega à execução de seus rituais e neles participa com seu corpo, seus sentidos e suas emoções. Nesse momento surge o drama e com ele o ritmo, a música, a dança e a procura da forma.

Nos momentos importantes de sua vida, nascimento, procriação, morte, para evocar ou propiciar os fatores importantes à sua sobrevivência [sol, chuva, plantio, colheita, caça,. pesca] e para manifestar sua luta pela vida, seu amor, sua alegria e seu desamparo, suas vitórias na guerra e na paz, suas súplicas e seus agradecimentos, o homem dança, só ou ligado a seus semelhantes pelos grandes círculos mágicos que se encontram nos rituais das civilizações mais primitivas e nas  manifestações recreativas das culturas mais avançadas. Assim, o homem se liga aos outros homens, a si mesmo, ao mistério, à essência da própria vida.

É impreciso o limite entre o que se poderia chamar de danças religiosas e cerimoniais e de danças tradicionais, sociais, sendo que a origem dos dois tipos é o movimento de encontro com a vida. As fronteiras do folclore em todos os campos são indeterminadas, em se tratando de dança, manifestação tão freqüente e quase generalizada em todas as religiões e celebrações de maior ou menor importância na vida dos povos.

A dança está indissoluvelmente relacionada com os ritos sagrados, seja nas festividades agrícolas, seja nas de passagem de um ano a outro, coincidindo ou não com o convencional ano novo. Está presente, praticamente, em todas as religiões, havendo mesmo quem lhe encontre a origem na própria religião.

Os clássicos gregos e latinos dão testemunho da importância da dança nas festividades religiosas. Diziam que não havia mistério sem dança. Dizem que foram as ruidosas danças dos curetas, em Creta, que, a pedido da ninfa Amaltéia, salvaram o recém-nascido Zeus de ser descoberto e devorado pelo insaciável Cronos.

Na Índia a dança é parte integrante do culto hinduísta. Aliás, é da própria natureza dos deuses a permanente atividade coreográfica. Os sivaítas representam a ação de Deus no universo como uma dança constante. As artes plásticas hindus testemunham abundantemente essa relação indissolúvel entre a dança e a religião. As cinco funções da divindade [evolução, manutenção, involução do mundo, condenação misericordiosa à sansara ou metempsicose, assimilação das almas] são representadas pelo ritmo da dança, a melhor maneira de exprimir as regulares intervenções divinas na vida dos homens. No Japão, os ritos xintoístas não prescindem das dançarinas sagradas, em geral filhas de sacerdotes.

Entre os cristãos na alta Idade Média difundiu-se o costume de dançar, sob a direção do bispo, nas igrejas e nos túmulos dos mártires, costume que foi proibido pelo concílio de 692. Mas eu soube que a liturgia de Paris manteve muito tempo uma rubrica assim: Le chanoine ballera au premier psaume, como reminiscência daquele costume.  Ainda no séc. XVIII, na França, os sacerdotes executavam passos de dança nos dias santos. E em Nova Orleans, cidade americana onde se fala francês, os cortejos fúnebres são musicados e dançados pelos negros. Quer dizer, isto eu vi em um filme de 007…

Ainda na Idade Média, a dança se associa a um estranho fenômeno, misto de fanatismo desenfreado e de misticismo patológico, que nos sécs. XIII e XIV perturbou a vida de inúmeras cidades na Alemanha, Países Baixos e França. Iniciando-se em 1374 no baixo Reno, rapidamente se espalhou por toda parte, arrastando principalmente os jovens a um frenesi louco de danças intermináveis, acompanhadas de gritos e convulsões que os padres combatiam com exorcismos, especialmente sob a invocação de são Vito. E são Vito passou ao universo médico com o nome emprestado à coréia de Sydenhan, como dança de são Vito ou dança de são Guido, que alguns de nós pelo menos já viram.

Poucas são as referências à dança nas Escrituras Sagradas. Entretanto, alguns exemplos são eloqüentes quanto ao papel desse elemento no culto a Deus. Comemorando a passagem do mar Vermelho, Míriam, que era irmã de Arão, dançou e cantou ao som do tamborim. Como se vê, certamente precursora das atuais escolas de samba. O rei Davi cantou a mulher do vizinho general Urias que depois mandou diretinho para a morte. Mas também cantou e dançou para agradar seu Deus. E , pelo visto, agradou. Muitos anos depois, Salomé, enteada de Herodes, dançou para ele e tanto agradou que conseguiu a cabeça de João Batista numa bandeja. É assim que está escrito…

Agora vamos tentar agradar a Deus e também ao próximo como a nós mesmos, praticando este santo remédio sem efeitos iatrogênicos, que é a dança de salão.