Escute o Prosa & Verso 054

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Músicas tocadas neste programa:
orlando silva - coqueiro velho
nelson gonçalves - hoje quem paga sou eu
maria bethânia - errei, sim
noite ilustrada - volta por cima
chico buarque - com açúcar e com afeto
andréa costalima – à vontade
mariana aydar e ivan lins - desesperar, jamais
waldir azevedo – vê se gostas

Seu Miraldo já é um senhor idoso, com seus setenta anos. Nunca se casou e hoje vive de uma aposentadoria por ter sido trabalhador rural durante sua juventude e maturidade. Quem toma conta de seu Miraldo é uma sobrinha-neta que mora perto da casa dele e uma vizinha que sempre está indo saber se ele precisa de alguma coisa, dar uma limpeza na casa, oferecer alguma merenda. Este senhor, que não sabe ler nem escrever, nunca freqüentou escola e por quatro vezes já esteve internado em hospitais psiquiátricos, porque quatro vezes enlouqueceu. Mas ficou bom. Quando uma pessoa enlouquece, geralmente tem que tomar remédios pela vida inteira, mesmo que volte à condição de juízo normal. Então dizemos que ficou bom. Ocorre que seu Miraldo costumava beber além dos limites, quando era novo e durante muitos anos. Talvez tenha isto sido a causa de sua loucura ou talvez apenas agravado uma loucura que já existia, mas que estava adormecida. O fato é que este senhor faz tratamento com psiquiatra há muitos anos, tomando sempre seu remédio e comparecendo às consultas. E, desde que vem fazendo tratamento sem falhar, nunca mais a mente avariou. Hoje está idoso e precisa de cuidados, cuidados em casa, cuidados na alimentação e cuidados para usar os remédios que ele precisa tomar.

Nas últimas três semanas, seu Miraldo tem saído para dar umas voltinhas pelo quarteirão e tem voltado pra casa com cheiro de álcool. A sobrinha-neta que cuida dele, Marisa, resolveu seguir um dia o tio-avô para ver onde é que ele estava arranjando e tomando bebida. Acabou flagrando o tio com outros homens sentado num bar ali na esquina. E bebendo, porque os seus amigos lhe ofereceram e até o pressionaram a beber. Marisa ficou chocada e, mais do que chocada, ficou indignada. Ficou desesperada, porque já viu, quando era criança, o tio avariado cometer meio mundo de desatinos. E agora, os amigos, os falsos amigos, parece que se divertem em vê-lo novamente afundar na bebida e na doença mental.

E Marisa não consegue compreender a atitude dessas pessoas, a atitude destrutiva, anti-vida, a atitude odienta de levar aquele velho desprotegido e alquebrado pra um caminho que acabará na certa desgraçando ainda mais a vida dele.

Esta estória de seu Miraldo não é invenção. É uma estória real que também não é rara. Frequentemente vemos coisas iguais acontecerem. Os nomes das pessoas foram trocados, neste relato, para que não sejam identificados, o que seria constrangedor para eles e suas famílias.

Não é só com relação à bebida que isto acontece. Os adolescentes, por exemplo, quando se juntam são muitas vezes influenciados uns pelos outros a fazer o que não devem, todos nós sabemos disto. Quase sempre botamos no outro a culpa do que fizemos, porque uma palavra, um estímulo, um desafio do outro nos leva, em nossa fraqueza, a fazer o que não achamos certo, o que sabemos que não é o certo. Mas não temos que fazer nada obrigados, a não ser que a pressão que sofremos dos outros seja mais forte que nossa própria fraqueza. Nossa fraqueza entretanto é tamanha, que nós não nos conformamos em reconhecer e admitir o erro. Muito pelo contrário, sendo descobertos e flagrados em nosso erro, prontamente passamos a acusar os outros pelo que fizemos.

Então nossa fraqueza pode ser a explicação dos nossos erros, mas não deve justificar esses erros. Às vezes erramos por desconhecimento. Erramos sem perceber que estamos errando. Mas geralmente o que acontece que é erramos sabendo que estamos errando, só que facilitamos, negligenciamos, principalmente quando estamos sofrendo pressão por parte dos outros. Aliás, errar em si não é um mal. Errar pode até ser bom, se nós aproveitarmos a chance que o erro nos dá para pensar, para refletir e nos criticar, porque só assim podemos nos corrigir depois. O erro é um mal quando sabemos que estamos errados e continuamos a errar, dominados por nosso orgulho, nossa vaidade, nossa teimosia. Reconhecermos que erramos, aceitarmos a realidade do fato, admitirmos que, seja por qual motivo for, mas que o erro é responsabilidade apenas nossa, este me parece o caminho digno e justo. É verdade que exige uma boa dose de honestidade e humildade, que nem sempre temos. Aliás, honestidade e humildade não são qualidades com as quais nascemos. Podemos ir aprendendo no decorrer das nossas vidas, se para isto fizermos algum esforço.

Em nossas relações amorosas, porque somos todos muito imperfeitos, é quando mais vezes jogamos sobre o companheiro ou a companheira a responsabilidade dos nossos erros. Isto se torna uma vida infernal para os namorados, os casais ou para os amantes, pois pouco a pouco vai um perdendo a confiança no outro, enquanto que também vão aumentando as mágoas, as hostilidades e o desprezo recíproco. Muitos casais se agridem, se desqualificam, se desrespeitam, mas não se separam, apesar do inferno em que se tornaram suas vidas. Outros se acostumam com a relação chamada ambivalente, isto é, alternando amor e ódio, e parecem que nunca conseguem dela se libertar. É muito comum que assim ocorra quando um dos companheiros se deixa dominar pelo álcool, porque o álcool leva o bebedor a perder sua compostura, sua dignidade, sua seriedade. O alcoolista , ele ou ela, frequentemente tem, entre outras, uma imaginação falsa, chamada delírio de ciúme, em que passa a desconfiar da companheira ou do companheiro, sem qualquer justificativa. O outro se ressente, pela perda do respeito e a coisa vai piorando indefinidamente. Depois de cada bebedeira, uma briga. Depois de cada ressaca, um envergonhado e geralmente fingido arrependimento. Pedidos de perdão acompanhados de promessas inúteis de mudar de vida são jogados no lixo depois da próxima farra.

Não quero parecer pessimista, mas quando estamos com os pés no chão, quando somos realistas e consideramos a pessoa humana este animal imperfeito que é, não podemos deixar de ter um olho aberto e outro fechado, um pé na frente e outro atrás, porque bem sabemos que confiança não pode ser imposta a ninguém ou exigida de ninguém. Confiança tem que ser adquirida, construída e cuidada. A cada dia, a cada recomeço, é necessário um voto de confiança. Se este voto de confiança não puder ser dado, não haverá recomeço nenhum.

Não é somente na vida amorosa que a desconfiança solapa e destrói as relações. Também nas outras facetas da vida, como na política, tanto na condição de candidato quanto na condição de eleitor, a confiança que se dá na forma do voto, pode ir definhando com o passar do tempo, se o voto de confiança não for devidamente correspondido. É assim que devemos aprender. Infelizmente, os momentos eleitorais são comumente encarados como se fossem apenas um jogo de apostas, como se as campanhas eleitorais fossem apenas corridas de cavalos, onde uns ganham e outros perdem, sem maiores conseqüências. Os erros cometidos nas eleições e depois delas, tanto pelos que se elegeram como por aqueles que neles votaram, acabam se perdendo da memória alguns anos depois. E, como não paramos para pensar, para refletir, para criticar, acabamos por cometer os mesmos erros nas próximas urnas.