Qua 10 Set 2008
Prosa & Verso 055 – UM TETO PRA MORAR
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 055
Músicas tocadas neste programa: |
Faz uns vinte anos, quando eu passava pela frente do Centro Social Urbano lá em Feira de Santana, na saída norte da cidade, havia um grande out-door ao lado da pista, que fazia propaganda de um hotel de luxo inaugurado naquela mesma época lá em Feira de Santana. O que me chamou a atenção foi uma espécie de acampamento, um barraco de papelão, pedaços de pau, flandres de latas e alguns farrapos. O barraco estava abrigando uma família de quatro pessoas, o casal e duas crianças com menos de dez anos de idade. Também me chamou a atenção o fato de que aquelas pessoas tivessem aproveitado justamente as armações do outdoor para construírem sua tenda. Uma ironia amarga, ver aquela propaganda de um hotel de luxo abrigando quatro pessoas paupérrimas. Parei no meu caminho e fui até eles. Puxei dois dedos de prosa e eles me contaram que estavam vindo do interior da Paraíba e que tentavam chegar a São Paulo, procurando onde trabalhar. Eram migrantes, como tantos outros neste Brasil afora.
MIGRANTE
Eu tinha naquela época u’a máquina de filmar em super-8 e acabei fazendo um pequenino registro cinematográfico daquela cena que guardo até hoje.
De vez em quando eu me lembro daquilo. Quem sabe por onde andarão aquelas criaturas, entregues à própria sorte? O fato é que existem pessoas, e muitas pessoas neste imenso Brasil, que vivem ao léu, sem terem onde morar, onde repousar. Ouçam Dorival Caymmi cantando Eu não tenho onde morar.
Hoje eu resolvi trazer algumas cantigas que falam da morada, mesmo que singela e humilde. É bem verdade que transformadas em canções, essas casinhas, ranchinhos e barracos tomam uma aparência romântica que acaba nos provocando uma espécie de dor de saudade, porque nos faz lembrar de nossas infâncias, muitos de nós que fomos crianças pobres, filhos de pais trabalhadores e humildes, que vivíamos em casinhas simples e pequeninas. Esse tipo de música nos deixa melancólicos, um pouco tristes, mas nos leva a sonhar como sonhávamos quando éramos crianças, sonhos como os que o poeta Casimiro de Abreu pintou pra nós em sua poesia romântica Meus oito anos. Ele diz que, para uma criança de oito anos, O mar é um lago sereno/ o céu, um manto azulado/ o mundo, um sonho dourado/ a vida, um hino de amor. Agora escutem Meu ranchinho, com Augusto Calheiros.
A idéia da vida simples, mas feliz, é uma idéia bastante recorrente. Vai e volta. De certo modo, há uma razão. A felicidade não está na riqueza, no luxo, no consumismo, mas também não está na miséria, na pobreza acentuada, na fome, na necessidade. A Bíblia diz, sabiamente, no livro do Eclesiastes, que a felicidade de uma pessoa consiste em comer, beber e gozar dos frutos do seu próprio trabalho. Infelizmente, em um mundo degenerado como o nosso, uns poucos vivem às custas do trabalho da grande maioria, que por sua vez passa necessidade e só fica com as migalhas.
Certamente que na simplicidade é onde habita a alegria sutil, a paz de espírito, a felicidade mesmo. Mas é preciso que tal simplicidade seja uma escolha da própria pessoa. A vida simples e austera é de certo modo um caminho para a paz interior. Diz-se que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Vamos ouvir Gilson cantando Casinha Branca.
De longe, é de fato poético e romântico morar numa casinha humilde e ter uma vida simples. A idéia é sedutora e se presta portanto à sedução da mulher amada, como frequentemente ouvimos nas cantigas. Quando a simplicidade é uma escolha de vida que alguém faz, de fato é uma bem-aventurança. Mas não estou dizendo que a pobreza em si seja uma bem-aventurança, sobretudo se esta pobreza é imposta e o pobre é pobre porque não tem jeito de sair dela. Escute a sedução de Minha Palhoça, na voz de Lúcio Alves.
Uma vida simples, escolhida por opção, inclui u’a morada simples. E como se diz, o castelo de um homem é sua casa. Ali ele é o rei. Como de fato diz Silvio Caldas, quando interpreta Casinha Pequenina, que vocês vão ouvir.
Como eu ia dizendo, em sua casinha, mesmo pequenina, seu dono é um rei. Pode se sentir um rei, pode construir seu pequeno reino, onde sua companheira é uma rainha e seus filhos são príncipes. Mas, como eu dizia também, é preciso que esta simplicidade seja uma escolha e não uma imposição. No fundo, o que importa é quem está dentro do rancho. Prestem atenção na Casa de caboclo, que Gastão Formenti vai cantar.
Não me canso de repetir que é preciso que levar uma vida simples seja uma escolha. Para isto, é preciso também que seja igualmente uma escolha abrir mão da ganância e da sede do ganhar mais e sempre mais, porque isto é um poço sem fundo. Ouçam esta terna cantitiga chamada Morada do canto, na voz de Noédson Valois.
Não poderia deixar de trazer aqui u’a música desaforada, música de carnaval. Mas, desaforada, que protesta contra uma situação à qual tanto nos acostumamos que hoje em dia achamos a coisa mais natural do mundo. Como muitas aberrações conseqüentes ao rumo que tomou a vida e a sociedade dos homens, achamos perfeitamente normal: ter uma casa para morar e outra para alugar a quem não tem. Nem mesmo o melhor discurso cristão [quem tiver duas mantas dê uma ao seu irmão que não tem] é capaz de nos fazer pensar no absurdo que é possuir casas de aluguel. É a uma situação destas que se referem os Vocalistas tropicais, quando cantam Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
Você poderá estar se perguntando por que razão o tema do Prosa&verso de hoje foi a morada, a casa de morada. Não sei o que vocês acham, mas eu ainda sonho com uma sociedade onde todos os habitantes vivam em suas casas, todos tenham o direito à sua morada, à educação, aos serviços de saúde, à segurança, à água, à eletricidade e ao trabalho para se manter decentemente. Aí me dirão: mas é apenas um sonho! Isto não passa de um sonho! É! É apenas um sonho! Cabe a cada um de nós se empenhar para torná-lo realidade, mas antes de ter a realidade, bem que podemos ter o sonho. Ou não?
Fique ouvindo Elizete Cardoso cantando Barracão, acompanhada por Jacob do Bandolim, porque um chorinho não faz mal a ninguém.
Sobre o vídeo
MIGRANTE
Este filme foi feito em Feira de Santana, Bahia, Brasil, em super-8, no ano de 1979. Todas as imagens e falas são reais. Os autores passavam pela pista, quando viram a família de migrantes nordestinos “hospedada” sob o outdoor de um hotel de luxo. Pediram permissão e gravaram as imagens e a fala do homem.
***
Eu Tenho trinta e três anos, trinta e três. Vim de Mossoró, Rio Grande do Norte, e meu destino é o Rio de Janeiro, pro mode trabalhar, se Deus quiser e meu padim Cíço.
Se eu pegasse um trabalho aqui, é, eu tinha condição de alugar um quarto, né?. Mas como não peguei um trabalho, nós teve foi que dormir no chão mesmo.
Tá sabendo? O destino é prometido por Deus. Como cê vê, eu sou analfabeto. Mas deus me dá o tino pra eu falar. Se eu tivesse dinheiro, eu tava era num hotel, não tava aqui debaixo, não senhor.
Eu sou soldador. Eu sou soldador! eu trabalho com solda branca, né? solda branca de radiador. Eu soldo, abro, tudo de radiador, faço qualquer limpeza, de fogão. Gaz butano? Pode trazer que eu recebo na hora, limpeza de fogão, tudo.
Não está vendo estas mãos? toda vida estas mãos trabalhou. que resultado? viu não, viu nenhum! mas trabalhou. E ainda vai trabalhar muito.
Eu tenho todo o material aí; as ferramentas, tenho tudo aí. Eu trabalho ambulante. Sou artista pra banda voar. Aí na malota, ainda tenho outros três quilos de ferro, tudo é ferramento meu, aí.
Em todo lugar que nós chega, nós é tratado como cachorro, não é como gente, não. mas eu faço qualquer serviço, só não faço roubar. Arranjando trabalho, eu ganho dinheiro, porque eu topo qualquer serviço.
E, se Deus quiser, isso tudo que cê tá vendo um dia vai ser diferente, não vai continuar assim não. Um dia vai ser diferente.
PLACAS:
LUXOR POUSADA DA FEIRA
C. S. U. (CENTRO SOCIAL URBANO) ROBERTO SANTOS
Data do artigo: Quarta-feira, 10 dAmerica/New_York Set dAmerica/New_York 2008 às 4:47 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.