Qua 1 Out 2008
Prosa & Verso 058 – SOLIDARIEDADE ENTRE OS POBRES
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 058
Músicas tocadas neste programa: |
Essas máquinas vivas são maravilhosas, mas não são perfeitas. Às vezes emperram. Vamos ver: Hoje eu vou dizer alguma coisa sobre uma perturbação no sangue da criança, perturbação esta que se chama icterícia do recém nascido. A icterícia do recém nascido é muito comum. O sangue fica carregado de pigmentos amarelo-esverdeados, que passam para a pele e nela se fixam, deixando a pele também amarelo-esverdeada. Em geral nos primeiros dias o amarelão de sua pele vai clareando e a sua cor vai voltando ao normal. Neste caso, a chamada tiriça é benigna, isto é, não causa nenhum mal.
Acontece que de quando em vez, em uma criança ou outra, a coloração amarelo-esverdeada da pele vai se intensificando, vai piorando e, caso não se cuide logo, esse sangue do bebê, carregado de pigmentos, vai grudar em umas partes do cérebro, partes estas que vão ficar inutilizadas. Aí a tiriça se torna maligna. É por isto que hoje estou falando deste assunto, para que vocês possam evitar o pior, uma vez que os danos causados não têm cura. Fiquem de olho bem aberto e se notarem uma alteração amarelo-esverdeada na pele de crianças recém-nascidas, voltem à maternidade ou consultem logo um médico ou uma enfermeira experiente. O que é que acontece, se não cuidarem logo? A criança pára de se desenvolver e fica numa situação que se chama de paralisia cerebral: a criança fica como se fosse quase um vegetal, não consegue aprender a ver, a ouvir, a se movimentar sozinha. Não desenvolve sua inteligência e nunca mais vai ter qualquer chance de ser uma pessoa normal. Como vocês podem ver, é uma situação gravíssima.
Retratos da vida, como este que vou relatar e que têm a ver com o que foi falado ainda agora, acontecem muitas vezes e devem servir de lição para nós todos: Zabé de Calixto teve seu primeiro filho aos 26 anos de idade. Foi um parto normal e o menino nasceu aparentemente sem nenhum problema. Já no primeiro dia de nascido foi pro colo da mãe e conseguiu chupar aquele peito cheio de leite grosso e amarelado. Izabel não tinha nenhuma experiência e estranhou a aparência do seu leite, que, ao invés de ser branquinho, era grosso e amarelado. Quis tirar o menino do peito, mas uma vizinha mais experiente que ela lhe ensinou que aquilo era o colostro, que o colostro é o primeiro leite que u’a mulher produz, logo quando pare. Explicou que o colostro é um leite forte e sadio e que protege bem as crianças recém-nascidas, ajudando a purgar suas primeiras fezes. As fezes das crianças recém-nascidas costumam ser esverdeadas e nas maternidades se conhece com o nome de mecônio
Zabé aprendeu na prática que o aleitamento materno é o melhor alimento que se pode dar a uma criancinha recém-nascida.
Mas nem tudo correu bem com bebê. Embora fosse forte e esperto, embora estivesse sendo bem cuidado e alimentado ao peito, o nenê tinha a cor da pele diferente, de um amarelo-esverdeado, que foi piorando durante os três ou quatro primeiros dias. Inicialmente Izabel chegou a pensar que aquilo tinha a ver com o leite dela, mas, aconselhada pela mesma vizinha que já a tinha ajudado, porque era mais experiente, levou a criancinha à maternidade e lá foi examinada por uma enfermeira e um médico. Eles viram que aquilo era um mal que costuma acontecer em recém-nascidos. A enfermeira ensinou a Izabel que aquilo não era provocado pelo leite nem por coisa nenhuma depois do nascimento, mas que já vinha desde a barriga da mãe. Explicou mais ou menos do mesmo jeito como eu falei nesse instantinho, logo que começou o programa. Entretanto, no caso do filhinho de Izabel, a icterícia iria se tornar maligna, se não fosse cuidado logo o seu tratamento.
Vivendo e aprendendo, Zabé entendeu as explicações da enfermeira e aceitou a orientação do médico, que foi deixar a criança internada no hospital, para fazer um tratamento à base de banho de luz 24 horas por dia. É um tratamento simples, que não agride nem dói e que é muito eficiente, isto é, dá ótimos resultados. Mas tem que ser feito mesmo, dia e noite, até que a icterícia desapareça. Se cuidar de fazer assim, a criança escapa e vai se desenvolver normalmente.
Só havia um problema: é que Zabé estava consciente de que deveria amamentar o filho, mas, por alguma razão que eu até desconheço, ela nem podia ficar direto no hospital junto com a criança nem podia se deslocar de três em três horas de sua casa para dar o peito. Sendo assim, o bebê iria ter que se alimentar com leite artificial. Zabé entristeceu e foi pra casa. As vizinhas, sabendo da estória, foram visitar Izabel e ficaram sabendo de sua tristeza em não poder ir amamentar o filho. Então, uma delas de repente sugeriu que se juntassem todas as vizinhas que tiveram filho havia menos de um ano e que, portanto, estariam ainda dando mama, que fizessem um rodízio entre si, para se revezarem e, de três em três horas fosse uma, até a maternidade, amamentar o filho de Zabé.
A estória é surpreendente e encantadora, mas aconteceu assim mesmo e aquelas mulheres pobres, pobres mas solidárias, foram durante uma semana, uma de cada vez e amamentaram ao peito a criancinha nova que estava internada na maternidade fazendo banho de luz. Assim, o bebê conseguiu ficar curado da tiriça, ficar bem alimentado e isto serviu como um alicerce para sua vida.
O caso aconteceu no ano de 1979, em uma comunidade rural próxima a Feira de Santana e eu fui testemunha.
Eu suponho que nada no mundo é absolutamente bom ou absolutamente mau. Na estória que vocês escutaram há pouco, um grande susto perturbou a paz daquela humilde família e dos seus vizinhos. Foi um susto, foi um sinal de perigo, um grito de alerta, mas que, felizmente, graças às providências tomadas pela pequena comunidade, puderam todos superar a ameaça. A criança se restabeleceu, teve seu desenvolvimento normal, estudou e hoje é um adulto perto de 40 anos, que certamente se casou, teve filhos e vive às custas de seu trabalho e do trabalho da companheira. Assim se dá o ciclo da vida, como é retratado na canção que vamos ouvir agora na voz de Sivuca e que se chama A história se repete.
E assim, a história se repete. Qualquer coisa que acontece a um de nós, pode acontecer a qualquer outro. Escutei uma vez que um homem é de fato a imagem e semelhança de toda a humanidade. Isto significa que o que uma pessoa é capaz de fazer, qualquer outra também vir a ser também, seja de bom, seja de mal. Afinal somos todos nós, pontos de contradição. A repetição da história, por outro lado, não se dá da mesma forma. Aliás, não há nem nunca houve dois acontecimentos inteiramente iguais, em toda a história. Quando se diz que a história se repete, não se deve esquecer de que se repete em certos aspectos e até em termos gerais, mas que essa repetição não é absolutamente igual.
Na Bíblia, este conjunto especial de livros que nos lembra a trajetória do povo hebreu, existe um deles chamado Livro do Eclesiastes, um livro de grande sabedoria, mas que infelizmente é um dos seus livros menos lidos e conhecidos. No Eclesiastes, o autor deixou escrito com todas as letras que nada existe de novo debaixo do sol. Tudo o que aconteceu acontecerá de novo e tudo o que vai acontecer já aconteceu. Não existe hoje sem ontem nem amanhã sem hoje. O que foi será, o que se fez se tornará a fazer:
absolutamente nada de novo sob o sol! De algumas coisas se diz: ‘’Olha, eis uma novidade!” Mas já aconteceram, nos séculos que estão atrás de nós. E nós tendemos a repetir mais ou menos os mesmos passos que deram nossos pais.
Até a próxima quarta-feira, no PROSA&VERSO com Jorge Rocha, a uma e meia da tarde.
Fique ouvindo Flor Amorosa, porque um chorinho não faz mal a ninguém.
Data do artigo: Quarta-feira, 1 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2008 às 4:31 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.