Qua 22 Out 2008
Prosa & Verso 061 – O ÚTIL E O AGRADÁVEL
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 061
Músicas tocadas neste programa: |
Essas máquinas vivas, como aliás todas as máquinas, vivas ou não, só têm validade quando podem funcionar. Para que presta uma faca que não corta? Um livro que não se lê? Um rádio que não tem som ou uma televisão que não acende? De que serve um abacateiro que não dê abacates ou uma roseira que não dê rosas? Do mesmo modo, de que vale um rim que não filtra o sangue e que não produz a urina onde joga fora as impurezas e os restos que não servem mais ao corpo? Tudo só serve para cumprir seu destino, para justificar sua finalidade. A árvore frutífera que não dá frutos deve ser arrancada e queimada. Esta frase não é tão familiar, tão conhecida nossa? U’a máquina velha, antiga, enferrujada, não tem mais valia quanto à sua utilidade. Pode ter um valor de estimação, deixa de ser um objeto bom para o uso e passa a ser um objeto bom para o espírito de quem o estima e aprecia como algo bonito, belo, simbólico.
Existem máquinas que são úteis e outras que se prestam ao prazer, ao divertimento e ainda ao deleite afetivo. Os corpos animais ou mesmo vegetais, essas que são máquinas vivas têm sua forma mais perfeita, ao menos reconhecida assim até o momento, no corpo humano. Mas os simples objetos, os objetos mais simples, têm também seu destino e cumprem sua tarefa, sua missão, por assim dizer. Nada no universo existe, que seja sem uma razão, pelo simples fato de que o que não tem serventia se destruirá naturalmente, mais dia menos dia. A máquina que não trabalha tende a enferrujar, a estragar-se, a definhar. O órgão que não funciona, atrofia, degenera, murcha. Aquela figueira que não dava figos teve seu corpo secado pelo jovem Jesus de Nazaré, num momento de zanga, segundo a narração do evangelho. Não dava frutos, não prestava para nada.
Então, como eu dizia, as máquinas cumprem uma finalidade e quando deixam de cumpri-la estarão perdendo seu sentido, sua serventia. Porém existem também os objetos que não são propriamente máquinas, como um objeto decorativo. Só que algo que não tem uma utilidade prática e por isto, em termos de utilidade, não serviriam pra nada. É que temos uma tendência a só valorizar aquilo que nos favorece. É que Narciso acha feio o que não é espelho, como disse Caetano Veloso na letra de Sampa.
A poesia de Caetano Veloso diz assim:
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto,
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto.
É que narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho.
Nada do que não era antes, quando não somos mutantes…
Mas há um senão. É que, quando vemos alguma coisa que não conhecemos, costumamos perguntar: pra que serve? E se não temos uma resposta, tendemos a descartá-la. Narciso é uma personagem da mitologia que, olhando o espelho d’água, viu sua própria imagem refletida e, de tão bonito que era, pela sua própria imagem se apaixonou. A pessoa que não consegue gostar do que lhe é diferente e que só aprecia o que reflete sua própria imagem é chamado, na linguagem da psicologia, de narcisista. Só gosto do que se parece comigo. So gosto do que pensa como eu. Assim é o narcisista.
Agostinho de Hipona, filósofo que viveu no final do século IV e início do século V, mais conhecido como santo Agostinho, escreveu certa vez que todos os objetos podem ser classificados em objetos de utilidade e objetos de fruição. É como se fossem objetos da categoria do bom e objetos da categoria do belo, como se fossem, ainda, uns ferramentas e outros brinquedos. Isto significa que as coisas podem ser utilizadas para satisfazer uma necessidade ou, de outro modo, podem ser apreciadas, simplesmente para o deleite. Assim pois, as ferramentas são objetos úteis, enquanto que as obras de arte são objetos de deleite, de prazer.
Um programa de rádio, por exemplo, tanto pode ser um objeto de utilidade, como pode ser um objeto de satisfação e prazer. Tem sua utilidade na notícia, nos comentários e na informação e tem sua satisfação principalmente nas músicas.
Feliz é aquele que encontra prazer e satisfação em seus objetos de utilidade, em suas ferramentas e em suas ações de utilidade, em seu trabalho. A grande maioria de nós todos, no sistema em que vivemos, é de certo modo vítima de uma dissociação trágica, angustiante, entre trabalho e satisfação. Por esta razão o mundo moderno precisa tanto de lazer. Simplesmente porque o trabalho em si não é prazeroso. Aliás, normalmente o trabalho só dá satisfação a quem não o faz, só dá satisfação àquele que fica com o resultado do trabalho dos outros, isto é o lucro.
Como eu falei nesse instante, feliz é aquele que consegue unir o útil ao agradável. Unir o útil ao agradável é um ideal de felicidade que está condensado nesta expressão popular.
No campo dos sentimentos e dos afetos, é possível a gente experimentar a mesma distorção. Por exemplo, numa relação amorosa imatura, quando a paixão acontece, o traço de união entre os parceiros é apenas o desejo erótico, um deslumbramento ilusório, possessivo e baseado não no outro, mas na imagem que dele é construída. Tal imagem tem muito mais a ver com aquele que diz que ama do que com o outro a quem supõe amar.
Certos objetos, certas máquinas e mesmo certas atividades podem estar, para uns, na bagagem da utilidade e para outros na bagagem da fruição. Um desses exemplos é o teatro profissional, que para uns é trabalho, isto é, é atividade útil, mas para outros é apenas fruição, satisfação, lazer. O mesmo se pode dizer do futebol profissional. Também a música. Para o artista amador, a música é fruição, prazer. Para o músico profissional, sua atividade é laborativa, pois se constitui num trabalho. Mas quem escuta e degusta sua composição, tem na música um objeto de prazer, de fruição, de deleite. Uma composição musical, como um filme de cinema ou uma peça de teatro, pode ser bem trabalhada do ponto de vista técnico. Será um respeitável produto de utilidade. Mas, se não emocionar a quem está apreciando, se não evocar sentimentos, se não tocar a alma do apreciador, como podemos dizer que transcendeu à utilidade e tornou-se fruição? Vale dizer que é um bom trabalho, mas não necessariamente uma obra de arte. Algo pode ser bom, mas não necessariamente belo. Algo pode ser o produto de um trabalho bem feito, mas não necessariamente uma obra de arte. O belo não pertence ao mundo físico. Nem é propriedade do sujeito que aprecia nem do objeto que é apreciado. É algo sutil que os une, quando o objeto apreciado faz vibrar emocionalmente o sujeito que o aprecia.
Data do artigo: Quarta-feira, 22 dAmerica/New_York Out dAmerica/New_York 2008 às 4:59 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
2 comentários para o artigo “Prosa & Verso 061 – O ÚTIL E O AGRADÁVEL”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Fevereiro 22nd, 2009 at 2:09 pm
Ola amigo! Nao sou de ficar fazendo comentario, mas eu queria parabeniza-lo pelo otimo site que voce tem! Continue com esse otimo trabalho!
Fevereiro 22nd, 2009 at 7:04 pm
Parabens pelo seu site, colega! Nao gosto muito de fazer comentarios, mas o seu site esta muito bom mesmo! Continue com esse bom trabalho!