Escute o Prosa & Verso 062

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Músicas tocadas neste programa:
almirante – pelo telefone
lira carioca – quem são eles
j. cascata e velha guarda – já te digo
mpb4 – pelo telefone
lira carioca – alivia estes olhos
mário reis – fala meu louro
izaltina e baiano – cangerê
pixinguinha – urubu malandro

O samba é uma invenção brasileira. Mas como acontece tanto na vida, dizia bem Abelardo Chacrinha que na televisão é assim também, nada se cria, tudo se copia. Às vezes, afirmar isto é injusto, porque alguém pode criar e, por coincidência, já haver uma idéia ou um produto bem anterior, com características muito parecidas com o que afinal foi inventado agora. Outras vezes, a semelhança da obra recente com a criação anterior é proposital, como uma homenagem ao artista anterior. Quando é cópia, chama-se plágio, mas quando é inspiração, chama-se homenagem. Então, quando digo que o samba é uma invenção brasileira, estou fazendo uma afirmativa que é baseada na informação corrente. Diz-se até que o primeiro samba gravado chama-se Pelo telefone e data de 1916 ou 17, sendo o autor um cidadão chamado Donga. É o que vamos ouvir, na voz de Almirante.

Numa estória que a tradição popular registra, o samba surgiu quando, no dia 20 de outubro de 1916, Aurelino Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem “antes pelo telefone” aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar. Imediatamente o humor carioca captou a comicidade do episódio, que ao lado de outros foi cantado em versos improvisados nas festas de Tia Ciata e registrado rapidamente por Donga em seu nome, na Biblioteca Nacional. Tia Ciata era uma personagem muito especial que morava no centro do Rio de Janeiro e em cuja casa se reuniam artistas da música para prosar, compor, cantar e dançar. Muitos dos artistas das primeiras décadas do início do século passado, que depois ficaram famosos, freqüentavam a casa da Tia Ciata.

A fonte destas informações é A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, em História do Samba, da Ed. Globo.

Segundo o site MPB Cifrantiga, a primeira composição classificada como samba a alcançar o sucesso, “Pelo Telefone”, marca o início do reinado da canção carnavalesca. É a partir de sua popularização que o carnaval ganha música própria e o samba começa a se fixar como gênero musical. Desde o lançamento, quando apareceram vários pretendentes à sua autoria, e mesmo depois, quando já havia sido reconhecida sua importância histórica, o “Pelo Telefone” seria sempre objeto de controvérsia, tornando-se uma de nossas composições mais polêmicas em todos os tempos.

Quase tudo que a este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como samba. Todas essas questões, algumas irrelevantes, acabaram por se integrar à sua história, conferindo-lhe mesmo um certo charme.

Outra composição que aqui e ali disputa a primazia no surgimento do samba no Brasil é Urubu malandro, de autoria desconhecida, que foi composto mais ou menos na mesma época que Pelo telefone, isto é em 1916. Como a gravação que eu tenho é um arranjo em ritmo de chorinho, vou rodar no final do programa, como sempre faço. Aguardem que vão gostar.

Vocês têm agora a oportunidade de escutar novamente o samba Pelo telefone, desta vez com o conjunto MPB4, num arranjo bem mais recente, mais próximo ao samba que nós conhecemos.

O samba é e sempre foi um estilo musical popular, principalmente em suas origens nos morros do Rio de Janeiro. No começo foi discriminado pela burguesia e seus artistas eram perseguidos pela polícia, sobretudo quando o samba tomou uma forma malandra, o chamado samba malandro, de certo modo uma arte de protesto, de denúncia bem humorada e gozadora da sociedade da época, principalmente da classe média e da elite social. Alguns autores e alguns cantores se destacaram nesta linha musical, mas o conhecimento que temos vem principalmente de material publicado pela imprensa escrita, uma vez que muitas composições se tornaram raras, peças de museus, ou então se perderam, embora naturalmente as letras ainda sejam accessíveis. Para um programa de rádio, é importante que sejam trazidas as composições, letras e músicas, para o conhecimento do público. Esta que vocês vão escutar data de 1920.

Já naquele tempo, a política era encarada como se fosse um jogo, onde vencesse o mais esperto, o que gritasse mais alto, às vezes até o que conseguisse enganar mais os eleitores. Aliás isto é um fato em nossa cultura política: foi candidato, perde a noção de sinceridade. Infelizmente tem sido assim. E o povo reage aos resultados das eleições, como se estivesse comemorando ou lamentando, tudo carregado de muito ódio e muito deboche, igualzinho como acontece com uma corrida de cavalos, com uma partida de futebol, com uma briga de galos na rinha. A política, as eleições não são entendidas como um momento de extrema responsabilidade, em que estão sendo escolhidos aqueles que vão ser encarregados da coisa pública, dos nossos destinos durante quatro anos. E naquela época, antes de 1920, Ruy Barbosa, que era baiano, foi candidato a presidente da república, mas não era um político popular e perdeu as eleições na competição com Epitácio Pessoa. Teve menos da metade do total dos votos apurados. Uma derrota feia. Como gozação, surgiu em 1919 este samba que vocês vão ouvir na voz de Mário Reis e que se chama Fala meu louro!

O letrista se refere aos políticos baianos como o côco da Bahia. E a Ruy Barbosa, como papagaio louro do bico dourado, pois Ruy Barbosa era bom orador e, após a derrota eleitoral ficou silencioso por um tempo, como é costume ocorrer com os candidatos que não são eleitos.

O samba é um gênero musical por excelência gozador e engraçado. E fala dos infortúnios com bom humor e mordacidade. Neste que vou rodar agora, Baiano e Izaltina vão interpretar Cangerê, um samba também de 1919.

Nesta edição de Prosa&verso, foram levados ao ar alguns sambas compostos ainda no início do século passado, quando o samba era apenas uma criança. Mas isto também é cultura e na próxima semana, vou trazer aqui, pra vocês conhecerem, outros sambas, ainda ingênuos, que fizeram sucesso de 1920 a 1930. Por hoje é só.