Qua 12 Nov 2008
Prosa & Verso 063 - A INFÂNCIA DO SAMBA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 063
Músicas tocadas neste programa: |
Faz perto de 90 anos que o samba nasceu no Brasil e na semana passada eu trouxe para este programa seis exemplos de como era o samba, quando ainda estava engatinhando. Desde que nasceu, no morro carioca, o samba vem evoluindo e passando por estágios diferentes e marcantes, cada momento com suas características próprias.
No começo, pode-se dizer que o samba era, em sua generalidade, ingênuo. Letras simplórias que às vezes só eram construídas para rimar. Aqui e ali, uma letra mais consistente. Durante a segunda metade da década de 20, o desenvolvimento do samba seguia uma linha bastante popular e falava com ironia, gozação e bom humor do contraste entre a vida burguesa das cidades principalmente do Rio de Janeiro, que era a capital federal e a vida nas favelas, no morro carioca. É a época que prenuncia o surgimento do samba malandro, que viria a acontecer poucos anos depois. Naquela época, há quase cem anos, já se fazia letra com duplo sentido. O samba que vão ouvir é de 1921 e se chama Esta nêga qué me dá, na voz de Almirante.
Naquele momento da história do Brasil, logo depois da primeira guerra mundial, da qual o Brasil não chegou a participar, a música dos salões, dos ambientes das classes médias e das elites urbanas era sobretudo a valsa e canções de influência ou mesmo de origem européia. As camadas sociais pobres, constituídas de trabalhadores que moravam nas periferias das cidades, como agora ainda acontece, criaram seus próprios ambientes de lazer, de alegria e de festejos, bem regados com a criatividade popular onde se apresentava este gênero musical tão brasileiro e contagiante chamado samba. O que vão ouvir é de 1922, chamado Sete coroas, na interpretação da Lira carioca.
O tema do nosso programa hoje é o samba, gênero musical que foi muito depreciado, censurado e até proibido, sendo seus autores, seus cantores e seus apreciadores perseguidos pelas autoridades, pela polícia. Aliás, é dessa fase
repressora que vamos tratar na semana que vem, aqui no Prosa&Verso.
Voltando ao caráter criativo, artístico do samba, temos que considerar que a estética, que a beleza da criação popular, da assim chamada arte popular, é olhada com preconceito e arrogância pelas classes dominantes. Não se trata apenas da estética, da beleza, da arte popular. Aliás, os relatos da história que aprendemos nas escolas foram ditados e ainda são ditados, na maior parte do mundo, por aqueles que estão no poder, pois o velho costume é que os vencedores, sejam de guerras, sejam de eleições, aproveitem seu lugar para pisotear os vencidos. Em minha pesquisa, os sambas que encontrei foram os cariocas. Mas eis que de repente encontrei um samba paulista, que agora vou rodar. O samba é de 1923, o nome é Tatu subiu no pau e a voz é de Bahiano.
Como vocês podem ouvir, a ingenuidade do samba da década de 20, é uma ingenuidade digamos assim política. Porque tem malícia, palavras e frases com segundas intenções, como aliás se escutam hoje ainda nos chamados pagodes, arrochas ou pornô-forrós. Só que naquele tempo era mais infantil, menos agressivo. Às vezes o samba trazia um toque de romantismo e numas raras ocasiões, traziam já também um embrião de protesto feminino, que só viria a eclodir com toda a sua força 40 anos mais tarde. Bahiano e Maria Marluzo cantam O casaco da mulata, samba de 1924.
Logo, logo, porém, vem a resposta masculina desaforada, como a que vocês vão ouvir neste samba denominado Sai cartola, que, para meu ouvido inepto, parece até mais um maxixe. Foi lançado em 1925.
As farpas continuam a rolar e nesta próxima música expressam muito bem a gozação ao chamado otário, personificado no personagem Claudionor, que se enrolou num casamento e teve que deixar a malandragem para bancar o estivador. Pedro Celestino canta Morro da Mangueira, samba de 1926.
O senhor Artur Bernardes, que foi presidente da república numa época tumultuada por revoltas e levantes, governou o país sob estado de sítio de 1922 a 1926. Foi só deixar o Palácio do Catete para receber o troco. O “passarinho do mal”, responsável por todos os males do mundo, não era outro senão o “Rolinha”, apelido maldoso dado pelo povo a Artur Bernardes. Era a sátira mordaz dos sambistas aos políticos, que estava também engatinhando. Prestem atenção na letra do Passarinho do má, na voz de Francisco Alves, cujo apelido era Chico Viola. O samba é de 1927.
O presidente eleito em 1926, Washington Luís, embora tivesse feito carreira política em São Paulo, nasceu no Estado do Rio, na cidade de Macaé. Daí o título da música que vocês vão escutar. Depois de quatro anos de estado de sítio sob o governo de Artur Bernardes, o novo presidente eleito foi recebido pelo povo com alívio e otimismo. Mesmo assim, havia preocupação com a desvalorização do cruzeiro. O samba que vão ouvir, chamada Paulista de Macaé, uma gozação, porque Macaé não fica em São Paulo, mas no Rio de Janeiro, precisa de uns esclarecimentos para que se possa compreender o sentido gozador da sua letra.
Primeiro, o Palácio do Catete, sede do governo federal, lá no Rio de Janeiro, também era chamado de Palácio das Águias; Segundo, o Caju é um dos mais importantes cemitérios do Rio; e terceiro, Jahú é o nome do avião que realizou a primeira travessia aérea do Oceano Atlântico, entre a África e o Brasil, no ano de 1927. Confiram Paulista de Macaé, na voz de Frederico Rocha. Samba lançado também em 1927.
O prefeito do Rio de Janeiro, Prado Júnior, tinha contratado um urbanista acho que estrangeiro estrangeiro, que elaborou, em 1927, um extenso plano de remodelação da cidade do Rio de Janeiro. O plano incluía a demolição do morro da Favela, situado próximo da zona portuária. Muito discutido pela imprensa, o projeto inspiraria o samba “A Favela Vai Abaixo”, no qual Sinhô protestava contra a ameaça de desabrigo dos moradores. Este é um belo samba e é o que vamos ouvir agora na voz de Mário Reis. Foi lançado em 1928.
Enfim, o final da década de 20 coincide também com o início da fase do samba chamada de samba malandro, que nós vamos tratar nos próximos programas. Fiquem com Francisco Alves, cantando Malandragem, gravado também em 1928.
Data do artigo: Quarta-feira, 12 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2008 às 4:07 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.