Qua 19 Nov 2008
Prosa & Verso 064 – O SAMBA ADOLESCE EM 1930
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 064
Músicas tocadas neste programa: |
Pesquisando as origens do samba para fazer o prosa&verso das duas últimas semanas, fiquei surpreso com a quantidade de canções que restaram daquela época, início do século passado, que foram conservadas, algumas em gravações originais e outras e regravações, mantendo com fidelidade as letras e músicas. Então resolvi prosseguir hoje com o tema, só que desta vez rodando apenas os sambas que foram lançados e sobressaíram em 1929.
Como já sabem, o samba teve seu começo e sua infância nos ambientes populares dos subúrbios e dos morros do Rio de Janeiro, fazendo um confronto de preferências com as músicas de salão, apreciadas pelas elites e pela classe média urbana. Este samba que vão ouvir na voz de Francisco Alves chama-se Amor de malandro.
Inicialmente, como é natural, as músicas e as letras dos primeiros sambas eram ingênuas, sendo aqui a qualidade ingênua colocada em oposição à qualidade crítica. Além de ingênua, como vocês ouviram nas edições passadas do prosa e verso, às vezes careciam de refinamento e beleza, para nossos padrões atuais. O aperfeiçoamento das músicas e letras do samba foi acontecendo pouco a pouco, como se pode notar nas composições que estou apresentando hoje. Ouçam Dorinha meu amor, na voz de Mário Reis.
Estamos em 1929. Ano da grande depressão econômica que explodiu com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque e ecoou por outros países que mantinham relações comerciais, direta ou indiretamente com os Estados Unidos. Alguma coisa como a crise que estamos passando desde setembro, só que muito pior.
Aqui no Brasil, o presidente da república era Washington Luiz, que estava no seu terceiro ano de governo. Foi sucessor de Artur Bernardes e o presidente Artur Bernardes tinha governado todo o período do seu mandato com o país em estado de sítio e com censura prévia à imprensa.
Por suspender o estado de sítio e a censura à imprensa que vigoraram no governo de Artur Bernardes, Washington Luiz foi recebido com grande otimismo, embora tivesse recusado anistia aos revoltosos de 1922 e de 1924. Volta agora Francisco Alves, com o samba É sim senhor.
Tal expectativa otimista, contudo, dissipou-se em virtude do retorno da censura à imprensa, da pouca sensibilidade para com as questões sociais, da crise econômica de 1929 e da indicação de Julio Prestes como candidato oficial à sucessão presidencial. Foi então deposto poucos meses antes de terminar seu mandato, pelo golpe militar que veio a chamar-se de Revolução de 1930.
Como dizia, estamos em 1929, época conturbada e véspera das grandes mudanças políticas que estavam por suceder no ano seguinte. É neste contexto que surge Cansei, aqui interpretado por Marcos Sacramento.
Não é raro que os descontentamentos populares para com os governantes sejam disfarçados, nas letras de músicas de cada época. Mais recentemente, na época do regime militar que prevaleceu no Brasil até meados dos anos 80, por exemplo, várias canções foram lançadas, falando de maneira figurada de tais descontentamentos. Foi assim com Pra não dizer que não falei de flores e Apesar de você, a primeira de Geraldo Vandré e a segunda de Chico Buarque. Mas isto é história mais recente, da qual podemos voltar a tratar em outra oportunidade.
Por enquanto, escutem com atenção este samba cantado por Mário Reis, que se chama Meu amor vou te deixar.
Mário Reis foi um cantor famoso e apreciado em seu tempo, mas que hoje em dia dele pouco ou nada se ouve falar. Foi contemporâneo de Francisco Alves e até exerceu influência no modo de cantar de Francisco Alves, que passou a dar um toque de suavidade às suas interpretações, depois que os dois cantaram juntos em algumas ocasiões. É com Mário Reis, o samba que vocês vão ouvir agora, cujo nome é Vamos deixar de intimidade.
Alguns sambas, que não só marcaram época, mas também permaneceram sempre sucessos, foram compostos antes de 1930, como é o caso de Gosto que me enrosco, que Carlos Galhardo lançou.
Também naquele mesmo período começou a aparecer uma nova modalidade de samba, mais lento e romântico, chamado samba-canção, modalidade que fez grande sucesso nas décadas seguintes. Vocês vão escutar um que já devem conhecer, mas que talvez não soubessem que já vai fazer 80 anos. Bem feminina, Linda flor tem entre suas intérpretes algumas deusas da canção brasileira, como Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Zezé Gonzaga, Araci Cortes e Dalva de Oliveira. Vocês vão ouvir, agora, na voz de Izaura Garcia, o samba-canção Linda flor, mais conhecido pelo nome de Ai Ioiô.
Fique ouvindo Altamiro Carrilho, que executa Graveto no choro, porque um chorinho não faz mal a ninguém.
Data do artigo: Quarta-feira, 19 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2008 às 4:39 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.