Qua 26 Nov 2008
Prosa & Verso 065 – O SAMBA EM SUA IDADE ADULTA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 065
Músicas tocadas neste programa: |
Toda informação que recebemos no decorrer da vida vai sendo armazenada em uma parte de nossa alma, que Freud, o pai da Psicanálise, chamou de inconsciente. Nenhum dado se perde e em alguns momentos especiais uma lembrança brota desta memória arquivada e guardada e nos surpreende. Às vezes é um cheiro, outras vezes é u’a música que faz eclodir a lembrança que tínhamos e nem nos dávamos conta. Isto acontece com as informações que recebemos e também acontece com as vivências que experimentamos, principalmente com as vivências que foram refletidas e estudadas, que foram sentidas com significativa emoção. A cultura vai-se formando e sendo transmitida desta mesma maneira.
Este programa Prosa & Verso não pretende ensinar coisa nenhuma a ninguém. O que se pretende aqui é instigar, estimular, cutucar as pessoas que nos ouvem, para que pensem, reflitam sobre alguns assuntos que às vezes passam batidos. Pensar, refletir enriquece nossa alma e nos torna mais criativos.
Daí que qualquer assunto, mesmo o mais banal, pode ser motivo de enriquecimento interior, se for encarado criativamente.
É aí que vem o samba, por exemplo. Às vezes passamos uma grande etapa da vida sem nos dar conta de certas coisas, ou porque parecem coisas tolas ou apenas por preconceito.
O samba é uma invenção popular e traz em seu ritmo, em sua melodia e em seus acordes, uma beleza especial, além de trazer em suas letras as mais diversas manifestações, críticas ou não, do sentimento de uma gente em certo momento da história.
Nas edições anteriores do Prosa & Verso, eu tratei do samba quando surgiu e de suas primeiras evoluções, ditos assim como o nascimento e a infância do samba. Hoje vou trazer exemplares deste gênero musical construindo sua identidade, inovando e ampliando seu alcance como arte. São os sambas, digamos assim, pós-adolescentes, já se tornando adultos e mais belos. Vamos escutar hoje os lançamentos de 1930 e 1931. Os Anjos do inferno cantam Sarambá, de 1930.
Como vocês ouviram e devem ter estranhado, a letra está toda em francês, um francês macarrônico, o que aliás torna o Sarambá um samba engraçado e agradável. Escutem agora Almirante e o Bando de tangarás com Batente.
O escritor Rubem Alves escreveu que cada um de nós carrega durante a vida duas bagagens: uma de utilidades e a outra de brinquedos. As utilidades naturalmente se referem àquilo que é chamado de trabalho, mas, como também precisamos dos brinquedos, do lazer, da arte, uma porção de gente decide não trabalhar, pra só viver no que se convencionou chamar de orgia e de malandragem. Isto também aparece bem claro nas letras dos sambas, que aliás nasceram tanto da malandragem quanto do trabalho. Ouçam só Francisco Alves cantando Nem é bom falar.
No samba malandro, um novo expediente teve início nessa época de sua adolescência, que é o breque. Breque é uma palavra inglesa que significa freio, corte, parada repentina. Nesta próxima música, um samba malandro intitulado O que será de mim, Mário Reis e Francisco Alves, também conhecido como Chico Viola, fazem esta inovação, os breques, que depois ficaram tão marcantes e populares que deram início a uma linha de composições que se tornaram conhecidos como sambas de breque.
A dúvida entre seguir a vida malandra, na orgia, por um lado e, por outro, encontrar uma companheira, formar uma família e ter que trabalhar para mantê-la, está na origem de muitos dilemas que acompanham o homem da cidade, principalmente das periferias, porque aqueles que nascem em berço de ouro, embora não vivam na malandragem, vivem na dolce vita, no dolce farniente, expressões italianas que significam nada mais que malandragem, só que u’a malandragem charmosa e grã-fina, bem aceita e invejada por todos aqueles que almejam uma vida burguesa. Do mesmo modo, como sabemos, que outras atividades nada edificantes mudam de nome, a depender da classe social de quem as exerce. Por exemplo, ladrão é quem rouba pouco. Quem rouba muito é ambicioso e sabido.
Este que vocês vão ouvir fala do dilema entre ser malandro e ser bem comportado. Mário Reis e Francisco Alves, Se você jurar.
Noel Rosa, quem nunca ouviu falar de Noel Rosa? Elogiado como o maior compositor de sambas do Brasil. Que era um poeta, era. Que era um bom compositor, era. Mas o maior do Brasil? Quando Chico Buarque surgiu há uns quarenta anos, dizia-se que era um fenômeno, somente comparado a Noel Rosa. Estou lembrando disto pra vocês terem uma idéia do que era a fama de Noel Rosa. Noel Rosa, sambista carioca, não veio da favela, mas da Vila Isabel e seus sambas exprimiam o outro lado do samba, o lado bem comportado. Aliás, brevemente quero trazer aqui uma bela página da história do samba brasileiro que é um confronto entre ele e Wilson Batista. Mas isto será em outro momento. Noel era compositor, mas ocasionalmente cantava. Aqui está uma gravação de sua autoria, que ele mesmo canta com o Bando de tangarás, composição chamada Mulata fuzarqueira.
É uma raridade encontrar uma gravação da voz de Noel Rosa e por isto estou trazendo aqui duas de suas músicas, cantadas por ele próprio. A música Com que roupa foi o primeiro sucesso de Noel Rosa. Um sucesso enorme que inspirou anúncios comerciais, paródias, charges, crônicas, entrevistas e até ajudou a fixar a expressão com que roupa, como dito popular. Um verdadeiro achado, essa expressão se repete ao final de cada estrofe da composição, sendo uma das razões principais de seu êxito. Tudo indica, porém, que Noel não percebeu de início o potencial de Com que roupa, pois, além de mantê-la inédita por um ano, vendeu seus direitos autorais pela quantia de 180 mil-réis, irrisória já na época.
Segundo seus biógrafos, João Máximo e Carlos Didier, Noel confessou certa vez a um tio que Com que roupa retratava de forma figurada o Brasil, um Brasil de tanga, pobre e maltrapilho. Daí, talvez, a semelhança de seus compassos iniciais com os do Hino Nacional Brasileiro (problema corrigido pelo músico Homero Dornelas ao passar a melodia para a pauta). Isto tudo, segundo o site Cifrantiga, na internet. Ouçamos Com que roupa, na voz do próprio Noel Rosa.
Vou rodar um outro samba de breque, dos seus primórdios, porque também estou querendo fazer um programa especial somente com sambas de breque. Aliás, se você, que está ouvindo, estiver interessado em algum tipo de música para que eu traga e transmita aqui, entre em contato com o Prosa & Verso, na Rádio Diamantina FM, que eu tentarei responder à sua expectativa. Por enquanto, vamos ouvir Abandonado, nas vozes de Jonjoca e Castro Barbosa, numa gravação, como todas as outras hoje mostradas, de 1931.
Data do artigo: Quarta-feira, 26 dAmerica/New_York Nov dAmerica/New_York 2008 às 4:06 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.