Escute o Prosa & Verso 066

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Músicas tocadas neste programa:
silvio caldas – o arrependimento
mário reis – vai haver barulho no chatô
francisco alves – foi ela.
mpb4 – não tem tradução
noel rosa – coisas nossas
noel rosa – onde está a honestidade?
araci cortes – tem francesa na favela
carlos galhardo - favela
mário reis e francisco alves – fita amarela
época de ouro – naquele tempo

A propósito do nosso tema, ontem foi o Dia Nacional do Samba.
O início da década de 30 foi marcado pela crise econômica (conseqüência da quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929) e pela agitação política, aqui no Brasil. Depois seria marcada pelo autoritarismo do governo de Getúlio Vargas. Após assumir o poder com a deposição de Washington Luís, episódio que marca o término do período de 40 anos chamado Primeira República ou república velha, Vargas não agradou aos tenentes que, aliás, tinham sido o apoio fundamental para que ele chegasse ao governo com o golpe de estado de 1930. O governo Vargas, aos poucos, marginalizou os tenentes, inclusive tendo promovido vários outros oficiais à patente de general, oficiais estes que se haviam posicionado contra a Revolução. Daí o fato de que muitos tenentes que tinham apoiado a Revolução de 1930, como Agildo Barata por exemplo, passaram a fazer oposição a Vargas. Além disso, na maioria dos Estados quem mandava antes da revolução continuava mandando. É nessa década de 1930 que são lançados os sambas que vamos escutar neste programa. Ouçam Silvio Caldas, que canta O arrependimento.

Em 1932 se inicia o chamado movimento constitucionalista, organizado pelo estado de São Paulo, que exige, entre outros pontos, uma constituição para o novo regime. O movimento é derrotado, mas mesmo assim consegue forçar a convocação da Assembléia Constituinte em 1933 e já em 1934 seria promulgada a nova Constituição. Chega ao fim aquela chamada política do café-com-leite. A política do café com leite consistia em manobras que mantinham na presidência da república sempre um paulista ou um mineiro. Fazia-se, então uma espécie de revezamento no poder. Por que café com leite? Porque o Estado de São Paulo era um estado poderoso economicamente como grande produtor de café, enquanto que Minas Gerais tinha seu poder econômico apoiado na pecuária, principalmente na produção de leite e seus derivados. Escutem mais um samba dessa época, Vai haver barulho no chatô, na voz de Mário Reis.

A Constituição promulgada em 1934 foi de certo modo uma tapeação, porque Getúlio Vargas estava mesmo era a fim de instaurar um governo totalitário, como acabou fazendo no ano seguinte, quando usou como pretexto as revoltas que explodiram em três estados e que ficaram conhecidas como intentona comunista de 1935. Os revoltosos chegaram até a tomar o poder em Natal, capital do Rio Grande do Norte, mas bateram em retirada no dia seguinte, porque não havia condições de enfrentar as tropas do governo.
O caminho para a democracia estava fechado, apesar dos pequenos passos que estavam sendo dados, como por exemplo, o voto da mulher, que até dois anos antes não era aceito no Brasil. Vou rodar o samba Foi ela, na voz de Francisco Alves.

Os meios de comunicação de massa, principalmente o Rádio e o Cinema deram um grande salto nessa década, em praticamente todo o mundo. No Brasil, as primeiras emissoras preocuparam-se em ampliar o alcance e melhorar a qualidade de som e, em seguida, cativar o público. A música popular ocupava papel preponderante nas emissoras de rádio, o que aliás tornou-se tradicional até hoje. Embora a época de ouro do rádio brasileiro só viesse a acontecer nas décadas posteriores (40 e 50), nomes inesquecíveis da cultura popular já tinham aparecido nos anos 30: compositores como Lamartine Babo, Ari Barroso; cantores como Orlando Silva, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Araci de Almeida, Dalva de Oliveira, só para citar alguns dos mais famosos, sem esquecer de Ataulfo Alves e Noel Rosa, que até hoje encantam a todos nós com seus sambas. Vamos ouvir com o MPB4, em uma gravação mais atual, um samba daquela época chamado Não tem tradução.

Já no ano de 1932, foi produzido Coisas nossas, o primeiro filme sonorizado do Brasil. O filme trazia o samba cujo nome também é Coisas nossas, de Noel Rosa, que vocês vão ouvir agora, na voz do próprio Noel, que não era lá grande coisa como cantor, mas era um brilhante compositor.

Os anos 30 foram anos difíceis para o povo. A crise econômica, a chamada grande depressão, iniciada nos Estados Unidos, se espalhou pelo mundo todo e atingiu principalmente os países dependentes, como o Brasil. Agora, esta crise atual, também originada nos Estados Unidos há dois meses, já nos tem mostrado sua ameaça. Basta ir à feira ou dar uma volta pelo comércio de Morro do Chapéu, para se ver o que os comerciantes estão chamando de quebradeira. É tempo de não comprar, de consumir só o necessário, de apertar o cinto. E lá vem Noel Rosa novamente, desta vez cantando Onde está a honestidade?

No fim da década, no ano de 1939, a Alemanha liderada por Adolph Hitler e seus seguidores nazistas invadiu a Polônia. Era o desencadear da segunda guerra mundial, que iria durar até 1946. O governo de Vargas ficou em cima do muro a maior parte da duração da guerra, simpatizante que era do nazismo. Já quando a guerra estava chegando ao fim, dois navios brasileiros foram torpedeados, fato atribuído aos alemães, o que forçou o governo a mandar um contingente brasileiro para a Itália, para reforçar os aliados. Mas isto é outra história. Mas nós vamos ficar ainda um pouco mais, para ouvir Araci Cortes cantando o bem humorado Tem francesa na favela.
Agora mais um samba da década de 30, que se chama Favela, fala de saudade, e vocês vão escutar na voz de Carlos Galhardo.

Desta fase da música popular brasileira, tenho a impressão de que o autor, o compositor mais criativo tenha sido Noel Rosa, que, como já disse e vocês já ouviram, tinha uma voz que não chegava a entusiasmar ninguém. Mas a bem da verdade, como compositor, era extraordinário. Aliás, Noel Rosa morava na Vila Isabel e não no morro, como acontecia com a maioria dos sambistas. Num dos próximos programas vou fazer um brinde a vocês com uma notável polêmica entre Wilson Batista, também excelente compositor, e Noel Rosa. O samba que vão ouvir agora, da autoria de Noel, é cantado pela dupla Mário Reis e Francisco Alves e se chama Fita amarela. Ouçam como é dos bons.