Escute o Prosa & Verso 067

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Músicas tocadas neste programa:
bezerra da silva & zeca pagodinho – malandro é malandro e mané é mané
araci de almeida – conversa de botequim
chico buarque - o juca
cyro monteiro – malandro bamba
exporta samba – o otário
jorge veiga – café soçaite
mário reis – mulato bamba
dircinha batista – inimigo do batente
demônios da garoa – trem das onze

Depois de uma viagem pelas origens do samba, pela sua infância e pela sua adolescência e também pela sua jovem fase adulta, vamos nos deparar, nos anos 30 e 40 com o samba amadurecido, já com sua identidade própria, já incorporado ao cancioneiro popular brasileiro, já apreciado e absorvido pelas classes média e alta. Não foi fácil e, muito pelo contrário, custou muita teimosia, astúcia e esforço, por parte dos sambistas, para isto acontecer. A partir de então, o samba toma diversos caminhos, digamos que se aperfeiçoa e se tornará até produto de exportação, após os anos 50. Mas enquanto isto, os sambistas chegaram a ser discriminados, principalmente na era Vargas, discriminados e mesmo perseguidos. Não é de estranhar que tenha surgido no morro carioca uma modalidade de samba que até hoje faz sucesso, pela sua simpatia, pela sua graça e sobretudo pelo seu espírito de resistência. É o samba malandro, assim chamado, que prima pela sua ambigüidade, indefinição ideológica e ironia. Vamos ouvir um exemplo do samba malandro, intitulado Malandro é malandro, Mané é Mané, nas vozes de Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho.

O conceito de malandro e malandragem, embora passe pela idéia de vadiagem, não se limita a isto. O malandro se vê como alguém que se vira com criatividade e que sobrevive sem ter que dar duro no batente, como os trabalhadores e operários fazem. O malandro acha, e com muita razão, que quem não é malandro é otário e que o otário se desgasta, se priva dos prazeres da vida em troca de um ganho reduzido e que ele, o malandro, leva a vida fazendo fuzarca, compondo, cantando e dançando, embora sacrifique naturalmente sua segurança e seu futuro. Ouça Conversa de botequim, na voz de Araci de Almeida.

Por outro lado, o malandro é um poeta. Será que um poeta é também um malandro? Poeta, porque vê e sente, nas coisas mais comuns e triviais da vida, nas coisas inclusive que nem custam dinheiro, a beleza e o motivo de alegria. Chico Buarque escreveu um samba chamado Juca, mas não pude trazer aqui. De qualquer modo, ele fala de um certo Juca que estava fazendo uma serenata e foi levado preso por policiais. Ao chegar à delegacia, é interrogado pelo delegado. O delegado é bamba na delegacia, mas nunca viu samba, nunca viu Maria… É o que deixa entender o samba O Juca, composto e cantado por Chico Buarque.

O samba malandro é um canto de louvor e elogio a esta figura popular, o malandro, que faz da fraqueza força, que tira leite de pedra, para sobreviver. É bem verdade que o malandro não pensa no amanhã, não está nem aí pro futuro, pra família, pra segurança. O malandro debocha do bem comportado, do casamento. Mas, por outro lado, que tirar proveito daquilo que não custou seu suor. E um malandro sempre busca um otário, para tirar sua lasquinha. Cyro Monteiro vai cantar agora Malandro bamba. Escutem só.

De acordo com seu ponto de vista e seu modo de viver, um viver perigosamente, com um lema que se popularizou e se tornou famoso: nóis sofre, mais nóis goza, os malandros, muitas vezes, consideram que aqueles que não se enquadram em seu modo de viver são otários. Nesse universo malandro, quem não é malandro é otário. O grupo Exporta Samba, pode explicar melhor, cantando O otário.

Neste mundo de incertezas e ambigüidades, o mundo da malandragem, onde as definições não têm clareza, aqui e ali, o samba revela aspirações do malandro pelas doçuras e vantagens da vida burguesa, tal qual é elogiada, com toda a força da gozação própria da malandragem, em Café soçaite, que vamos ouvir agora na voz de Jorge Veiga.

Acima de tudo, o samba malandro é o que elogia o viver da malandragem, enaltece suas supostas qualidades, sua valentia, seu desprendimento, seu veio artístico, seus pendores para a música, principalmente o samba, que é popular, por natureza e origem, filho das periferias, dos subúrbios e dos morros cariocas. Assim é Mulato bamba, que vamos ouvir agora na voz suave de Mário Reis.

Tendo visto, melhor dizendo, tendo ouvido amostras do samba malandro, vamos passar a alguns exemplares do samba comportado, originário dos bairros de classe média da cidade do Rio de Janeiro e de São Paulo. Este tipo de samba é de certo modo uma sujeição ao regime autoritário que vigorava na época, sob o governo de Getúlio Vargas e de sua polícia secreta fascistóide, comandada por Filinto Muller, de triste memória. Vão ouvir Dircinha Batista, Inimigo do batente.

O samba comportado faz então um contraponto ao samba malandro e naturalmente houve compositores que transitavam de um ao outro sem dificuldade. Mas uns tinham sua produção constituída de sambas malandros, enquanto que outros se dedicavam ao samba comportado. Aliás, este posicionamento chegou a gerar uma polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, dois cobras, ambos excelentes compositores e poetas, polêmica que ficou famosa e que na próxima semana vou trazer aqui para vocês conhecerem.

O mais esquisito exemplo do samba comportado, este que vocês vão ouvir agora, chega a provocar um certo riso amarelo na gente, um certo mal-estar, pela submissão e fingimento, numa época de tanta desigualdade social. Tudo está no seu lugar é o que canta Benito di Paula

Não pude deixar de trazer um samba muito conhecido e apreciado, um verdadeiro melodrama, composto em São Paulo pelo notável Adoniran Barbosa, e que se chama Trem das onze. Nós vamos ouvir o Trem das onze, na interpretação inconfundível dos Demônios da Garoa.

Por hoje é só.
Por motivo de um pequeno defeito no equipamento da rádio, hoje não vou rodar o chorinho, embora um chorinho não faça mal a ninguém.