Escute o Prosa & Verso 068

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Músicas tocadas neste programa:
jorge veiga – lenço no pescoço
roberto paiva – rapaz folgado
jorge veiga – mocinho da vila
roberto paiva – palpite infeliz
jorge goulart – mundo de zinco
roberto paiva – feitiço da vila
jorge veiga – conversa fiada
roberto paiva – joão ninguém
jorge veiga – frankenstein da vila
roberto paiva – eu vou pra vila
jorge veiga – terra de cego
roberto paiva – vitória
jorge veiga – meu mundo é hoje
henrique cazes e joel nascimento - brasileirinho

noel x batistaWilson Batista ficou famoso como sambista-malandro no Rio de Janeiro. E foi um grande compositor, um dos melhores que o Brasil já teve. Em 1933, um cantor em voga chamado Almirante gravou sua primeira composição, uma batucada chamada Barulho no beco. Sempre freqüentando o mesmo ambiente de boemia, fez a apologia do malandro no seu samba Lenço no pescoço, já gravado em 1933 por Sílvio Caldas. Este samba deu início à famosa polêmica com Noel Rosa, que nós estamos trazendo hoje para vocês ouvirem. Mas eu aviso: Se quiserem aproveitar e entender as letras, vão ter hoje que prestar uma atenção redobrada ao Prosa & Verso, porque só assim poderão apreciar este espetáculo que foi a polêmica entre Wilson Batista e Noel Rosa, até hoje lembrada. Vou rodar Lenço no pescoço, que deu origem ao debate, agora na voz de Jorge Veiga.

noel x batistaCutucado pela letra de Lenço no pescoço, Noel Rosa reagiu, respondendo no mesmo ano com Rapaz folgado, samba em que contesta e repreende a identificação do sambista Wilson Batista com o malandro. O duelo estava começando. Neste programa, os sambas do malandro Wilson Batista vocês ouvirão na voz de Jorge Veiga, um dos grandes intérpretes do chamado samba malandro. Quanto às composições do comportado Noel, vocês vão ouvir neste programa, sempre na voz de Roberto Paiva, como este agora, que se chama Rapaz Folgado.

O debate começa a esquentar então, quando o porta-voz da malandragem, Wilson Batista manda sua réplica no samba Mocinho da Vila, provocando ainda mais seu oponente e enchendo-o de gozações, como vocês podem ouvir, como já sabem, na voz de Jorge Veiga.

No ano seguinte, em 1934, em meio aos sucessos que estavam fazendo os sambas de um e de outro, vem como resposta de Noel Rosa, que morava na Vila Isabel e a quem coube direitinho a carapuça, o samba que vocês vão escutar em seguida, na voz, como já disse, de Roberto Paiva, o samba Palpite infeliz.

Como é a vez de Wilson Batista, vem então em seguida um samba de sua autoria, intercalado à peleja e que tem o nome de Mundo de Zinco e que, como não o encontrei na interpretação de Jorge Veiga, vou transmitir na voz de Jorge Goulart. Este samba parece não ter feito parte da briga, vamos dizer assim, mas foi colocado aqui porque nesta fase do confronto, Noel Rosa lançou seguidamente duas composições. Com vocês, Jorge Goulart e Mundo de Zinco, de Wilson Batista.

Vamos retornar assim então a Noel, que compôs Feitiço da Vila dando prosseguimento à disputa. Vocês vão ver, quer dizer vocês vão ouvir como jeitosamente Noel das umas chicotadas em seu adversário, chicotadas que acabam se estendendo aos outros malandros mas também aos moradores dos morros do Rio de Janeiro, palco deste peleja. Vamos escutar, na voz de Roberto Paiva, o Samba de Noel Rosa, Feitiço da Vila.

Pois bem, era lenha na fogueira. Cada vez mais excitante, os desafios de ambas as partes estavam a todo vapor. Wilson Batista compôs então Conversa fiada, que vai ao ar na voz de Jorge Veiga.

Aí, Noel Rosa apelou e, como se diz, começou a baixar o nível, provocando ainda mais seu desafeto, quando saiu com o samba João Ninguém, que vocês vão ouvir agora.

Wilson Batista não se fez esperar. Também apelou e foi pro campo pessoal. Assim surgiu uma ofensa discriminatória que hoje em dia seria considerada inapropriada e politicamente incorreta. Mas naquela época, o samba passou batido. Chama-se Frankenstein da Vila e é Jorge Veiga quem canta aqui.

O conflito esfriou, acho que Noel Rosa percebeu que ambos tinham apelado e que se assim continuassem ambos perderiam os controles, como costuma ocorrer nas discussões exageradamente calorosas. Era o prenúncio do fim da polêmica. Roberto Paiva, Eu vou pra Vila.

O sambista que representava e elogiava a malandragem, ainda teimoso e provavelmente amante de um desafio, fez Terra de Cego e lanço. É o que Jorge Veiga vai cantar agora.

A essa altura do campeonato, o compositor de Vila Isabel silenciou e dizem que o samba que vocês vão ouvir agora não teria feito propriamente parte da polêmica. Mas Roberto Paiva gravou e vou irradiar. Chama-se Vitória e o autor é Noel Rosa.

Segundo os pesquisadores do assunto, o caso terminou com dois sambas de Wilson Batista, Frankenstein da Vila e Terra de cego, que não tiveram resposta. Mas, teimoso como era, existe uma última composição de Wilson Batista que ainda chegou a ser lançada e que bem parece a quem escuta referir-se ainda à famosa polêmica. Trata-se do samba Meu mundo é hoje, mais uma vez cantado aqui por Jorge Veiga.

noel x batistaFinalmente, os dois polemistas, que não se conheciam pessoalmente, vieram a se encontrar entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. As músicas dessa polêmica foram reunidas, em 1956, num LP de dez polegadas da Odeon, cantadas por Roberto Paiva e Francisco Egídio. E depois disto, têm sido gravadas e regravadas por outros cantores, como Araci de Almeida e os que vocês ouviram neste programa.

Por hoje é só. Fique ouvindo Henrique Cazes e Joel do Nascimento, que executam Brasileirinho, porque um chorinho não faz mal a ninguém.Por hoje é só.
Por motivo de um pequeno defeito no equipamento da rádio, hoje não vou rodar o chorinho, embora um chorinho não faça mal a ninguém.