Qua 17 Dez 2008
Prosa & Verso 068 – POLÊMICA: WILSON BATISTA X NOEL ROSA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 068
Músicas tocadas neste programa: |
Wilson Batista ficou famoso como sambista-malandro no Rio de Janeiro. E foi um grande compositor, um dos melhores que o Brasil já teve. Em 1933, um cantor em voga chamado Almirante gravou sua primeira composição, uma batucada chamada Barulho no beco. Sempre freqüentando o mesmo ambiente de boemia, fez a apologia do malandro no seu samba Lenço no pescoço, já gravado em 1933 por Sílvio Caldas. Este samba deu início à famosa polêmica com Noel Rosa, que nós estamos trazendo hoje para vocês ouvirem. Mas eu aviso: Se quiserem aproveitar e entender as letras, vão ter hoje que prestar uma atenção redobrada ao Prosa & Verso, porque só assim poderão apreciar este espetáculo que foi a polêmica entre Wilson Batista e Noel Rosa, até hoje lembrada. Vou rodar Lenço no pescoço, que deu origem ao debate, agora na voz de Jorge Veiga.
Cutucado pela letra de Lenço no pescoço, Noel Rosa reagiu, respondendo no mesmo ano com Rapaz folgado, samba em que contesta e repreende a identificação do sambista Wilson Batista com o malandro. O duelo estava começando. Neste programa, os sambas do malandro Wilson Batista vocês ouvirão na voz de Jorge Veiga, um dos grandes intérpretes do chamado samba malandro. Quanto às composições do comportado Noel, vocês vão ouvir neste programa, sempre na voz de Roberto Paiva, como este agora, que se chama Rapaz Folgado.
O debate começa a esquentar então, quando o porta-voz da malandragem, Wilson Batista manda sua réplica no samba Mocinho da Vila, provocando ainda mais seu oponente e enchendo-o de gozações, como vocês podem ouvir, como já sabem, na voz de Jorge Veiga.
No ano seguinte, em 1934, em meio aos sucessos que estavam fazendo os sambas de um e de outro, vem como resposta de Noel Rosa, que morava na Vila Isabel e a quem coube direitinho a carapuça, o samba que vocês vão escutar em seguida, na voz, como já disse, de Roberto Paiva, o samba Palpite infeliz.
Como é a vez de Wilson Batista, vem então em seguida um samba de sua autoria, intercalado à peleja e que tem o nome de Mundo de Zinco e que, como não o encontrei na interpretação de Jorge Veiga, vou transmitir na voz de Jorge Goulart. Este samba parece não ter feito parte da briga, vamos dizer assim, mas foi colocado aqui porque nesta fase do confronto, Noel Rosa lançou seguidamente duas composições. Com vocês, Jorge Goulart e Mundo de Zinco, de Wilson Batista.
Vamos retornar assim então a Noel, que compôs Feitiço da Vila dando prosseguimento à disputa. Vocês vão ver, quer dizer vocês vão ouvir como jeitosamente Noel das umas chicotadas em seu adversário, chicotadas que acabam se estendendo aos outros malandros mas também aos moradores dos morros do Rio de Janeiro, palco deste peleja. Vamos escutar, na voz de Roberto Paiva, o Samba de Noel Rosa, Feitiço da Vila.
Pois bem, era lenha na fogueira. Cada vez mais excitante, os desafios de ambas as partes estavam a todo vapor. Wilson Batista compôs então Conversa fiada, que vai ao ar na voz de Jorge Veiga.
Aí, Noel Rosa apelou e, como se diz, começou a baixar o nível, provocando ainda mais seu desafeto, quando saiu com o samba João Ninguém, que vocês vão ouvir agora.
Wilson Batista não se fez esperar. Também apelou e foi pro campo pessoal. Assim surgiu uma ofensa discriminatória que hoje em dia seria considerada inapropriada e politicamente incorreta. Mas naquela época, o samba passou batido. Chama-se Frankenstein da Vila e é Jorge Veiga quem canta aqui.
O conflito esfriou, acho que Noel Rosa percebeu que ambos tinham apelado e que se assim continuassem ambos perderiam os controles, como costuma ocorrer nas discussões exageradamente calorosas. Era o prenúncio do fim da polêmica. Roberto Paiva, Eu vou pra Vila.
O sambista que representava e elogiava a malandragem, ainda teimoso e provavelmente amante de um desafio, fez Terra de Cego e lanço. É o que Jorge Veiga vai cantar agora.
A essa altura do campeonato, o compositor de Vila Isabel silenciou e dizem que o samba que vocês vão ouvir agora não teria feito propriamente parte da polêmica. Mas Roberto Paiva gravou e vou irradiar. Chama-se Vitória e o autor é Noel Rosa.
Segundo os pesquisadores do assunto, o caso terminou com dois sambas de Wilson Batista, Frankenstein da Vila e Terra de cego, que não tiveram resposta. Mas, teimoso como era, existe uma última composição de Wilson Batista que ainda chegou a ser lançada e que bem parece a quem escuta referir-se ainda à famosa polêmica. Trata-se do samba Meu mundo é hoje, mais uma vez cantado aqui por Jorge Veiga.
Finalmente, os dois polemistas, que não se conheciam pessoalmente, vieram a se encontrar entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. As músicas dessa polêmica foram reunidas, em 1956, num LP de dez polegadas da Odeon, cantadas por Roberto Paiva e Francisco Egídio. E depois disto, têm sido gravadas e regravadas por outros cantores, como Araci de Almeida e os que vocês ouviram neste programa.
Por hoje é só. Fique ouvindo Henrique Cazes e Joel do Nascimento, que executam Brasileirinho, porque um chorinho não faz mal a ninguém.Por hoje é só.
Por motivo de um pequeno defeito no equipamento da rádio, hoje não vou rodar o chorinho, embora um chorinho não faça mal a ninguém.
Data do artigo: Quarta-feira, 17 dAmerica/New_York Dez dAmerica/New_York 2008 às 4:05 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
4 comentários para o artigo “Prosa & Verso 068 – POLÊMICA: WILSON BATISTA X NOEL ROSA”
Deixe um comentário
Efetue o login para escrever um comentário.
Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Março 6th, 2009 at 3:22 pm
coitado do noel….perdeu feio essa disputa…
Outubro 10th, 2009 at 11:29 pm
Adorei conhecerum pouco mas deste grandes do samba raiz.
Janeiro 19th, 2010 at 11:27 pm
os dois sao muito bom mais neste duelo deu de cara wilson batista com dois samba otimos na frente de noel mais noel e muito bom tambem
Março 19th, 2010 at 10:48 pm
Oi querido Jorge!
Eu conheço essa história; Eu era bem pequena e minha mãe me contava.Eu amo a música antiga, pois em casa, meus pais tinham uma grande discoteca e sempre tinha música tocando, uma delícia! E essa capa que tem as caricaturas do Noel e do Wilson Batista,eu adorava! Era minha mãe colocar pra tocar o disco e eu de bruços deitada com a capa nas mãos a olhar, imagiando o duelo deles…rs. Esse disco está com minha mãe até hoje.Fiquei muito feliz de encontrar esse trabalho lindo que vc desenvolve! Onde eu pude rememorar! Isso tudo Jorge, não tem preço! Parabéns!!! Agora vou me tornar tiête do seu site! bjooo e sucesso! Valeu!
Obrigada por essa maravilha!