Escute o Prosa & Verso 070

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Músicas tocadas neste programa:
frank sinatra – new york new york
haendel - haleluja
raul seixas – tente outra vez
lulu santos – como uma onda no mar
adeus ano velho, feliz ano novo
maria bethânia – luzes da ribalta
yves montand – les feuilles mortes
carmem costa – está chegando a hora
ketelbey – no jardim de um mosteiro
piroschka
valdir azevedo – acerta o passo

Na mudança do ano, é costume a gente pensar o ano que passou, o ano velho e fazer planos e propósitos para o ano que começa, o ano novo. Isto é feito em todos os níveis: os governos encerram seus orçamentos, fazem novos planos. As organizações econômicas fazem seus balanços e esboçam seus projetos. Nas religiões, também se fazem avaliações do ano que passou, fazem-se assembléias gerais, reuniões ditas de confraternização. Frank Sinatra vai cantar New York, New York.

O islã tem um mês por ano consagrado ao perdão, que é o mês de ramadã e os hebreus antigamente tinham um preceito a cada 50 anos de perdoar todas as dívidas. Era o ano jubilar. E anualmente costumam os israelitas comemorar a passagem pelo Mar Vermelho, na sua libertação da escravatura no Egito, chamada êxodo. O cristianismo deu prosseguimento à comemoração, com a páscoa cristã, em que se acredita que Jesus ressuscitou no terceiro dia após ter morrido crucificado. Ouçam Haleluja, de Haendel.

O meio da família, onde foram realizadas as festividades do natal, é praticamente esvaziado na passagem do ano novo. As pessoas vão para as ruas, principalmente onde existem praias, aguardar o que chamam de reveillon, ou seja o despertar do novo ano que chega.
De qualquer modo, é um momento de passagem, de passagem simbólica pela morte para uma nova vida. Esta idéia de passar pela morte para ressuscitar em seguida tem acompanhado os homens desde muito tempo. É a idéia que nos passa Raul Seixas, quando canta Tente outra vez.

A idéia da morte e ressurreição surgiu da observação da natureza, de um dia que morre, para que venha a noite e, a seguir, um novo dia que nasce. Do mesmo modo acontece com as estações do ano. Na Europa, onde o calendário atualmente em uso foi criado, o novo ano começa na passagem do inverno, tem sua juventude na primavera, sua maturidade no verão, para depois caducar no outono e finalmente morrer no inverno, renascendo na primavera. Assim vai cumprindo um ciclo sem fim. A comemoração ocidental do ano novo tem origem num decreto do governador romano Júlio César, que fixou o 1º de janeiro como o Dia do Ano-Novo, no ano 46 a.C. Os romanos dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. O mês de Janeiro, deriva do nome de Jano, que tinha duas faces: uma voltada para frente e a outra para trás. E tudo passa, como diz Lulu Santos, em Como uma onda no mar.

Por analogia, os homens, em sua vaidade, considerando-se imortais, passaram a acreditar na própria ressurreição e assim criaram um céu, um inferno e uma reencarnação, tudo isto para não encarar a morte. Em algum momento da história, isto fazia parte do mundo da imaginação, da linguagem figurada. Era certamente u’a metáfora. Daí passou ao mito, à crença, de tal sorte que a maioria das pessoas hoje considera tudo isto como realidade concreta.
E assim vamos passando, ano após ano, a fazer novas promessas de mudar de vida e a desejar aos outros o que gostaríamos que afinal desejassem a nós mesmos, isto é, um próspero ano novo, com muita saúde e dinheiro no bolso, como se costuma falar.

É um momento apropriado, sem dúvida, para se olhar criticamente para o ano que passou, para os erros que foram cometidos e para os acertos também. Porque é fazendo esse exame de consciência que podemos encontrar maneiras de dar os novos passos e, depois de todo este exercício crítico, poder andar para a frente, sem olhar com saudosismo para trás. Dar um adeus para o tempo passado e que nunca mais voltará. Escutem agora Maria Bethânia cantando Luzes da ribalta.

Como o movimento constante e dialético da própria natureza, onde a morte vai ajudando a refazer a vida, onde as folhas de outono que caem amarelas vão apodrecer no solo durante o inverno, para adubar e enriquecer as novas plantas que nascem na primavera, assim também nossos movimentos, nossa caminhada pela vida, nossas emoções, nossos ganhos, nossas perdas e nosso conseqüente amadurecimento, passa simbolicamente de um patamar a outro, neste momento de reveillon. Apreciem esta bela canção Folhas mortas, na voz de Yves Montand.

Na passagem do ano, costuma-se aguardar a meia-noite, fazendo contagem regressiva, para iniciar os festejos ruidosos e ufanistas, quando a festa vira carnaval. Tem sido tradicional entoar uma canção que se chama Está chegando a hora, que vou rodar na interpretação de Carmem Costa.

Assim, a festa do reveillon costuma ser cheia de euforia, com muita bebida, confetes e serpentinas e muita música de carnaval e muita algazarra. De minha parte, prefiro ficar na quietude de meu recanto, com minha companheira e meus amigos mais chegados. Para mim é um momento de tranqüilidade e um momento de repensar os meus dias, tentar acertar os meus passos, mas isto sem dúvida no que se refere à minha vida interior, ao meu comportamento, ao meu mundo pessoal. É um momento de retiro, de silêncio e de reflexão. Vamos compartilhar um pouco deste momento, enquanto escutamos No jardim de um mosteiro, com Ketelbey.

Por isto, nesta passagem de ano, os votos que faço para você são que você tenha um novo ano cheio de esperanças, rico em conhecimentos, fértil em sabedoria e sobretudo muito tranqüilo e transbordante de paz interior. Em grande parte, a realização destes votos depende mesmo é de cada um de nós, do que plantamos e, consequentemente, poderemos colher depois. Naturalmente, desejo também que seja um ano de alegria. Afinal, a felicidade possível se compõe de momentos de recolhimento e reflexão, mas também de momentos alegres de agradecimento, de encontro e de satisfação. A música alegre que vou rodar se chama Piroschka.

Por hoje é só.
Fique ouvindo Valdir Azevedo tocando Acerta o passo, porque afinal um chorinho não faz mal a ninguém.