Escute o Prosa & Verso 071

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Músicas tocadas neste programa:
nelson gonçalves - normalista
paraguassu - perdão emília
vicente celestino - gondoleiro do amor
onésimo gomes - noite cheia de estrelas
joão petra de barros - última inspiração
onésimo gomes - mimi
onésimo gomes - lua branca
onésimo gomes - a pequenina cruz do teu rosário
silvio caldas – chão de estrelas
delicado

Vamos fazer hoje aqui uma seresta. Seresta vespertina, logo depois de meio-dia não é coisa comum. Aliás, seresta foi um nome surgido há menos de 100 anos, no Rio de Janeiro, para rebatizar a mais antiga tradição de cantoria popular das cidades, que é a serenata. Em que consiste uma serenata? Consiste de fato na cantoria de canções de caráter sentimental, quase sempre à noite ou no máximo ao cair da noite, pelas ruas, sempre ao ar livre, ao sereno, daí seu nome serenata. Era sempre um grupinho de pessoas que fazia parada obrigatória diante das casas das namoradas. Às vezes ganhavam sorrisos das sua amadas, outras vezes seriam bacias d’água do pai de uma delas. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, toda donzela tem um pai que é uma fera. Ouçam Normalista, na voz de Nelson Gonçalves.

A serenata nasceu há mais de 500 anos e já apareceria descrita em 1505 em Portugal por Gil Vicente na farsa Quem tem farelos? e no Auto de Inês Pereira. No Brasil, o costume das serenatas seria referido pelo viajante francês Le Gentil de la Barbinais, de passagem por Salvador em 1717, em seu livro Nouveau voyage autour du monde, Nova viagem ao redor do mundo, ao contar que à noite só se ouviam os tristes acordes das violas, tocadas por portugueses a passear debaixo dos balcões de suas amadas, cantando, de instrumento em punho, com voz, segundo o autor, ridiculamente terna. Pincei esta canção do fundo do baú e duvido que vocês conheçam. Ouçam esta valsa, com sua estanha letra, que é Perdão Emília, na voz de Paraguassu.

Se Le Gentil de la Barbinais considera a voz dos trovadores de sua época ridiculamente terna, mais compreensivo foi um outro francês, o estudioso de literatura luso-brasileira Ferdinand Denis. Ele registraria em livro de 1826 que gente simples, trabalhadores, percorriam as ruas à noite repetindo modinhas comoventes, que não se conseguiam ouvir sem emoção. Com o passar do tempo, as modinhas foram tomando forma de música mais elaborada e alguns poetas que ficaram consagrados ou musicaram eles mesmos seus versos ou tiveram seus versos musicados por outros compositores e transformados assim e serenatas. Um exemplo é O gondoleiro do amor, de Castro Alves, que vamos ouvir na voz de Vicente Celestino.

As serenatas foram incorporando alguns estilos musicais, como o choro à base de flauta, violão e cavaquinho, as valsas e posteriormente os sambas-canções.
Influenciadas pelas valsas, as modinhas passaram a realçar seu tom de lamento na voz dos boêmios cantadores de serenatas. Por serem cantadores de serenatas, eram chamados de serenatistas e serenateiros. Assim, quando já no séc. XX a serenata passa a se chamar seresta, os cantores com voz apropriada ao sentimentalismo das serenatas ou serestas transformam-se, finalmente, em seresteiros. É preciso lembrar que naquele tempo já longe não havia luz elétrica nem, em muitos lugares, lampiões a gás, pelo que se cantava tanto a lua que, figura feminina, também virou musa de inspiração para os boêmios e seresteiros, como em Noite cheia de estrelas, que vão ouvir na voz de Onésimo Gomes.

Como vocês podem muito bem entender, as músicas que estou rodando aqui são músicas relativamente novas, considerando que as serenatas já existiam há mais de 500 anos na Europa e que as gravações de que nós dispomos s]ao todas recentes. Por outro lado, as composições mais antigas que ficaram escritas tornaram-se clássicas e isto pode até ser assunto de algum programa no futuro. No momento, estamos considerando mesmo é a seresta dos últimos cem anos no Brasil. João Petra de Barros vai cantar Última inspiração.

Tenho a impressão de que as músicas antigas são músicas cessadas, passadas na peneira e que as que restaram para nós são as melhores. Muitas e muitas composições ficaram no esquecimento, como a grande maioria das cantigas atuais vão logo cair no esquecimento e nossos filhos e netos jamais saberão que existiram. Não é que eu seja propriamente um saudosista, que viva lamentando o passado, mesmo porque nem mesmo alcancei o tempo em que estas músicas que trago foram lançadas e fizeram seu sucesso. Existem sem dúvida serestas bem mais modernas, mas estas que escolhi para este programa têm a finalidade de apresentar ao público ouvinte algo de belo que muita gente não conhece por nunca ter tido o privilégio de escutar. Outra vez, Onésimo Gomes, Mimi.

Este cantor que vocês estão tendo a chance de escutar, chamado Onésimo Gomes, teve uma vida artística muito curta e só conheço um disco inteiramente gravado por ele, embora saiba que gravou aqui e acolá uma faixa em outros álbuns. Das raras referências que tenho dele, uma que me pareceu interessante é parte de uma entrevista que Aldir Blanc deu à Associação Brasileira de Imprensa, ABI, faz uns poucos anos. Ele diz: Quem me formou foi a seresta. Eu ouvia Sílvio Caldas, Onésimo Gomes, Orlando Silva, e ficava profundamente encantado com a riqueza das letras, com a capacidade de se criar imagens fascinantes com elas, como fizeram Lamartine Babo e Ary Barroso. Escutem mais uma interpretação de Onésimo Gomes: Lua branca.

Mais uma vez, Onésimo Gomes, já que poucas chances vocês terão de voltar a ouvi-lo, pela raridade que é seu disco chamado Seresta do Brasil. Desta vez vai cantar A pequenina cruz do teu rosário.

Você que ouviu o programa de hoje, pode estar estranhando que tenha sido um programa dedicado a apresentar a seresta, mas que não transmitiu sequer um bolero. Atualmente, em alguns lugares, inclusive aqui em Morro do Chapéu confunde-se bolero com seresta, mas como vocês ouviram hoje, a seresta é de fato uma outra coisa, que até em certo momento passou a incorporar o bolero em seu repertório. Mas seresta e bolero não são sinônimos. Obra prima da seresta brasileira é uma canção que se chama Chão de estrelas, que vou rodar agora. Vejam se apreciam, na voz de Silvio Caldas.

Fique ouvindo esta composição chamada Delicado, porque afinal de contas um chorinho não faz mal a ninguém.