Qua 7 Jan 2009
Prosa & Verso 071 – A SERESTA
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 071
Músicas tocadas neste programa: |
Vamos fazer hoje aqui uma seresta. Seresta vespertina, logo depois de meio-dia não é coisa comum. Aliás, seresta foi um nome surgido há menos de 100 anos, no Rio de Janeiro, para rebatizar a mais antiga tradição de cantoria popular das cidades, que é a serenata. Em que consiste uma serenata? Consiste de fato na cantoria de canções de caráter sentimental, quase sempre à noite ou no máximo ao cair da noite, pelas ruas, sempre ao ar livre, ao sereno, daí seu nome serenata. Era sempre um grupinho de pessoas que fazia parada obrigatória diante das casas das namoradas. Às vezes ganhavam sorrisos das sua amadas, outras vezes seriam bacias d’água do pai de uma delas. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, toda donzela tem um pai que é uma fera. Ouçam Normalista, na voz de Nelson Gonçalves.
A serenata nasceu há mais de 500 anos e já apareceria descrita em 1505 em Portugal por Gil Vicente na farsa Quem tem farelos? e no Auto de Inês Pereira. No Brasil, o costume das serenatas seria referido pelo viajante francês Le Gentil de la Barbinais, de passagem por Salvador em 1717, em seu livro Nouveau voyage autour du monde, Nova viagem ao redor do mundo, ao contar que à noite só se ouviam os tristes acordes das violas, tocadas por portugueses a passear debaixo dos balcões de suas amadas, cantando, de instrumento em punho, com voz, segundo o autor, ridiculamente terna. Pincei esta canção do fundo do baú e duvido que vocês conheçam. Ouçam esta valsa, com sua estanha letra, que é Perdão Emília, na voz de Paraguassu.
Se Le Gentil de la Barbinais considera a voz dos trovadores de sua época ridiculamente terna, mais compreensivo foi um outro francês, o estudioso de literatura luso-brasileira Ferdinand Denis. Ele registraria em livro de 1826 que gente simples, trabalhadores, percorriam as ruas à noite repetindo modinhas comoventes, que não se conseguiam ouvir sem emoção. Com o passar do tempo, as modinhas foram tomando forma de música mais elaborada e alguns poetas que ficaram consagrados ou musicaram eles mesmos seus versos ou tiveram seus versos musicados por outros compositores e transformados assim e serenatas. Um exemplo é O gondoleiro do amor, de Castro Alves, que vamos ouvir na voz de Vicente Celestino.
As serenatas foram incorporando alguns estilos musicais, como o choro à base de flauta, violão e cavaquinho, as valsas e posteriormente os sambas-canções.
Influenciadas pelas valsas, as modinhas passaram a realçar seu tom de lamento na voz dos boêmios cantadores de serenatas. Por serem cantadores de serenatas, eram chamados de serenatistas e serenateiros. Assim, quando já no séc. XX a serenata passa a se chamar seresta, os cantores com voz apropriada ao sentimentalismo das serenatas ou serestas transformam-se, finalmente, em seresteiros. É preciso lembrar que naquele tempo já longe não havia luz elétrica nem, em muitos lugares, lampiões a gás, pelo que se cantava tanto a lua que, figura feminina, também virou musa de inspiração para os boêmios e seresteiros, como em Noite cheia de estrelas, que vão ouvir na voz de Onésimo Gomes.
Como vocês podem muito bem entender, as músicas que estou rodando aqui são músicas relativamente novas, considerando que as serenatas já existiam há mais de 500 anos na Europa e que as gravações de que nós dispomos s]ao todas recentes. Por outro lado, as composições mais antigas que ficaram escritas tornaram-se clássicas e isto pode até ser assunto de algum programa no futuro. No momento, estamos considerando mesmo é a seresta dos últimos cem anos no Brasil. João Petra de Barros vai cantar Última inspiração.
Tenho a impressão de que as músicas antigas são músicas cessadas, passadas na peneira e que as que restaram para nós são as melhores. Muitas e muitas composições ficaram no esquecimento, como a grande maioria das cantigas atuais vão logo cair no esquecimento e nossos filhos e netos jamais saberão que existiram. Não é que eu seja propriamente um saudosista, que viva lamentando o passado, mesmo porque nem mesmo alcancei o tempo em que estas músicas que trago foram lançadas e fizeram seu sucesso. Existem sem dúvida serestas bem mais modernas, mas estas que escolhi para este programa têm a finalidade de apresentar ao público ouvinte algo de belo que muita gente não conhece por nunca ter tido o privilégio de escutar. Outra vez, Onésimo Gomes, Mimi.
Este cantor que vocês estão tendo a chance de escutar, chamado Onésimo Gomes, teve uma vida artística muito curta e só conheço um disco inteiramente gravado por ele, embora saiba que gravou aqui e acolá uma faixa em outros álbuns. Das raras referências que tenho dele, uma que me pareceu interessante é parte de uma entrevista que Aldir Blanc deu à Associação Brasileira de Imprensa, ABI, faz uns poucos anos. Ele diz: Quem me formou foi a seresta. Eu ouvia Sílvio Caldas, Onésimo Gomes, Orlando Silva, e ficava profundamente encantado com a riqueza das letras, com a capacidade de se criar imagens fascinantes com elas, como fizeram Lamartine Babo e Ary Barroso. Escutem mais uma interpretação de Onésimo Gomes: Lua branca.
Mais uma vez, Onésimo Gomes, já que poucas chances vocês terão de voltar a ouvi-lo, pela raridade que é seu disco chamado Seresta do Brasil. Desta vez vai cantar A pequenina cruz do teu rosário.
Você que ouviu o programa de hoje, pode estar estranhando que tenha sido um programa dedicado a apresentar a seresta, mas que não transmitiu sequer um bolero. Atualmente, em alguns lugares, inclusive aqui em Morro do Chapéu confunde-se bolero com seresta, mas como vocês ouviram hoje, a seresta é de fato uma outra coisa, que até em certo momento passou a incorporar o bolero em seu repertório. Mas seresta e bolero não são sinônimos. Obra prima da seresta brasileira é uma canção que se chama Chão de estrelas, que vou rodar agora. Vejam se apreciam, na voz de Silvio Caldas.
Fique ouvindo esta composição chamada Delicado, porque afinal de contas um chorinho não faz mal a ninguém.
Data do artigo: Quarta-feira, 7 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2009 às 4:06 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
6 comentários para o artigo “Prosa & Verso 071 – A SERESTA”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Janeiro 8th, 2009 at 1:25 pm
Estava proucurando pela internet sobre seresta, esse ritmo que tanto nos contagia,quando,para minha alegria e surpresa, encontrei essa magnífica matéria.
Parei para estuda-la e escuta-la quando de repente meus olhos se encheram d’água.O motivo dessa emoção foi escutar uma música que a muito tempo não escuto e que me causa grande agitação interna: lua branca de onésimo gomes.
Essa música me traz lembranças ótimas, e devo a você, Jorge Rocha, essa alegria que me contagiou. Não sou de escrever comentários, mas não pude deixar de comentar esse meu facínio.
Essa matéria seria perfeita, se não fosse por um pequeno problema:a lenta dicção do locutor.
Como crítica, peço que fale um pouco mais rápido, pois a velocidade com que o senhor pronuncia as palavras faz com que eu fique meio irritadisso. Se eu não tivesse lido primeiro com certeza eu não teria paciência para escutar.
Mesmo assim, obrigado por me proporcionar momentos de tanta alegria.
Abraços.
Janeiro 14th, 2009 at 4:32 pm
Gostei muito dessa reportagem, alegro-me de ver que o mundo evoluiu a tal ponto da internet, sem ela jamais teria visto esse tipo de beleza e conhecido a eloquência de um ser maravilhoso chamado Jorge Rocha.Por isso eu apoio essa grande declaração:
“A internet é uma beleza, e sem ela não viveriamos”-Mahatma Gandhi,2008
Janeiro 31st, 2009 at 9:07 pm
Pense num programa “maromeno”. Macho véi você faz um programa paid’egua. Pena que a discografia deixada pelo Onesimo Gomes seja tão limitada. O Silvio Caldas se referia a ele como o Seresteiro do Brasil, comentario de quem conhece… Essa tal de internet dá uma ajuda muito grande. Como os demais, tomei conhecimento do seu programa através dela. Valeu,. parabens, vou continuar prestigiando seus programas. Obrigado e um abraço
Junho 29th, 2009 at 12:11 pm
aprendi a gostar de seresta com meu marido que deve estãr tocando violão no andar de dima e agora me sinto mais sintonizada com essas pessoas que cultuam e conservam este tipo de musica.obriga
Setembro 2nd, 2009 at 9:52 pm
Caro Sr. Rocha,venho através deste solicitar,por gentileza,e se possível,alguma informação sobre como adquirir disco ou cd de Onésimo Gomes.Nossa necessidade advém do fato de estarmos preparando os 80 anos de minha mãe,tendo a mesma citado o seresteiro para compor as músicas de tal festividade!Vimos seu artigo,na internet,inclusive ouvimos o repertório,muito enriquecedor por sinal,sobretudo inserido numa narrativa histórica!Grato,
Setembro 2nd, 2009 at 9:55 pm
MENSAGEM RESPOSTA A ARMANDO PESSOA:
Sr. Armando,
Não sei informar onde pode conseguir o disco de Onésimo Gomes para comprar. Mas posso digitalizar o meu que é de vinil e enviar para o senhor em midia de CD, desde que me mande o endereço completo.
Espero que continue acessando o redeaberto.com.br, onde pode deixar seu comentário, para que outros compartilhem de sua opinião.
jorge rocha