Qua 28 Jan 2009
Prosa & Verso 074 - A DOENÇA MENTAL, A VELHICE E A MORTE
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 074
Músicas tocadas neste programa: |
É costume se pensar que as doenças mentais são doenças imaginárias e que o simples poder de convencimento é suficiente para ajustar a mente, o pensamento, o sentimento de uma pessoa que está desregulada. Em primeiro lugar, existem várias categorias de doenças mentais e cada pessoa com, digamos, a mesma doença mental pode apresentar um comportamento ou uma reação bem diferente uma da outra. O estudo das doenças mentais se chama psiconosologia e é um estudo científico, embora o exercício da psiquiatria não seja uma atividade puramente científica, como por certo o exercício da medicina como um todo, porque lida com outras condições humanas e, por conta das singularidades do psiquiatra e do paciente, a prática da medicina é também considerada como um misto de ciência e arte. Talvez a clínica seja mais uma arte do que uma ciência. Mas é uma arte que precisa imperiosamente de se apoiar nos conhecimentos científicos.
A psiquiatria, palavra que veio da língua grega e que significa literalmente tratamento da alma, tem suas regras, seus protocolos, seus preceitos fincados nos estudos e portanto na ciência como, por exemplo, na psicologia, na psicopatologia, na farmacologia, na filosofia e na antropologia. Atualmente a psiquiatria tem ido buscar recursos também na biologia e na bioquímica.
As alterações mentais e alterações de comportamento não têm um limite muito claro que separa a normalidade da anormalidade, o estado de saúde do estado de doença, quer dizer, uma pessoa saudável de uma pessoa doente. Diz-se que de perto ninguém é normal. Também se diz que todo mundo tem alguns minutos de loucura todos os dias. Aliás, estes minutos de loucura é que dão ao viver uma certa pitada de tempero. Alguém absolutamente normal e previsível terá uma vida insossa, sem gosto, não só para si mesmo como para os outros que lhe estão próximos.
Penso que a doença, e sobretudo a doença mental, não é mais do que uma falta, um exagero ou uma distorção de ingredientes da normalidade. Vou explicar: uma pessoa normal tem dor quando agredida, tem medo quando ameaçada, sente calor quando aquecida, sente frio quando resfriada. Uma pessoa normal tem tristeza quando sofre uma perda, sente alegria quando realiza ou vislumbra a realização de um desejo, irrita-se quando molestada e assim por diante. Cada um dos fenômenos citados passa a ser sinal de doença quando se encontra exagerado, ausente ou inadequado.
Dois enganos são bastante comuns, na interpretação do comportamento das pessoas: primeiro, quando se acha que sentir tristeza, dor, ou medo, insônia, ou febre, ou qualquer um dos atributos normais de um corpo vivo, quando se acha que isto é doença. É o primeiro engano. O segundo engano é pensar que cada pequeno mal-estar deve ter um remédio.
Como devemos ser tolerantes para com uma pessoa, quando ela erra e apresenta um dos seus defeitos, também devemos ser tolerantes para com nós mesmos, quando erramos e apresentamos algum dos nossos defeitos. Entendam bem o que quero dizer: errar é até saudável, porque nos possibilita aprender e a adiante errar menos. Os pensadores cristãos dizem que errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico. Eu prefiro pensar que errar é humano, mas ficar repetindo os erros é pura estupidez.
É preciso ser tolerante e compreensivo para com doentes mentais em seus comportamentos estranhos e bizarros. Mas não há lugar para a tolerância para com aqueles que se aproveitam das doenças mentais dos seus familiares e, aproveitando-se do infortúnio ou da desgraça alheia, com isto obter algum ganho, principalmente ganho financeiro. Ouça Errei, sim, com Dalva de Oliveira e, em seguida, Volta por cima, com Noite Ilustrada.
Uma outra categoria de pessoas que é frequentemente vítima da intolerância e, pior ainda, da indiferença, é a chamada terceira idade. Os velhos têm suas forças físicas e, muitas vezes, mentais diminuídas ou prejudicadas pelo tempo. Então ficam impossibilitados de fazer coisas que faziam na juventude. Isto em quase todas as áreas, tanto no trabalho físico, como no próprio trabalho mental. Quando a velhice vai chegando, o corpo decai, a memória começa a faltar, a vivacidade mental começa a ficar embotada. Há quem pense: é tempo de morrer. Talvez seja, mas o fato é que alguns permanecem vivos e por vezes permanecem vivos mais tempo do que desejam seus familiares ou até do que desejam eles mesmos. Mas estão vivos.
A morte é um grande mistério, talvez o maior dos mistérios. A morte dá margem a pensamentos, desejos, medos e suas conseqüentes crenças, como a crença da imortalidade da alma, da ressurreição para outra vida, do céu, do inferno onde se goza ou se sofre eternamente e a crença da reencarnação.
O fato mesmo é que todos e cada um de nós está destinado a morrer. E a morte pode ser encarada de um outro modo, não como aquele espectro horrível, de um esqueleto esfarrapado com uma foice ameaçadora, como estamos acostumados em nossa cultura hipócrita. Mas pode ser encarada como uma bem-aventurança, como um alívio para os sofrimentos e as labutas da vida, já que não é nenhuma novidade que a vida, meu filho é luta renhida, viver é lutar, como disse o poeta Gonçalves Dias.
Eu tenho aqui uns versos, mas não sei quem é o autor. Acho que vale a pena transmitir a poesia, que se chama Velhos. Os versos dizem assim:
Há alguns que compreendem
meus passos vacilantes, minhas mãos que tremem.
Há alguns que sabem que hoje meus ouvidos
precisam se esforçar para apreender as coisas que dizem.
Há alguns que parecem saber
que meus olhos são embaçados e meu espírito vagaroso.
Há alguns que olharam para o outro lado
quando hoje derramei café na mesa.
Há alguns que com um alegre sorriso
param para conversar um pouco.
Há alguns que nunca dizem
“você contou esta história duas vezes hoje”.
Há alguns que sabem como
trazer de volta lembranças de outrora.
Há alguns que percebem o meu desalento,
sem forças encontrar, para a cruz carregar.
Há alguns que com bondade
suavizam minha jornada à última morada.
Você acabou de ouvir o Estudo em mi maior, de Chopin. O programa que você está escutando é Prosa & verso com jorge rocha. Portanto, estou trazendo mais uns versos pra você:
QUADRINHA
versos de Djalma Andrade
A morte é bela enfermeira,
vem sem a gente chamar
e cura sempre as feridas
que ninguém soube curar.
****
VELHOS VINHOS
Versos de dom Hélder Câmara
Agora
Que a velhice começa
Preciso aprender com o vinho
A melhorar, envelhecendo
E sobretudo
A escapar
Do perigo terrível
De envelhecendo
Virar vinagre…
****
CÂNTICO IV
Versos de Cecília Meireles
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia?
Que morres no amor?
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo?
Que te renovas todo dia,
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo?
Que és sempre outro?
Que és sempre o mesmo?
Que morrerás por idades imensas,
Até não teres medo de morrer
E então serás eterno?
Você ouviu O velho, com Chico Buarque. E antes, como música de fundo, Adágio, de Albinoni. Agora escute Opinião, letra e música de Zé Kéti, na voz de Nara Leão.
Agradeço a colaboração de Glauber Gomes, na sonoplastia, de Antonio Guilherme Legal e Maria Luísa Muchacha, por terem recitado os poemas apresentados na edição de hoje.
Fique ouvindo Onde andarás, na voz de Marisa Monte, acompanhada pelo conjunto Época de Ouro, porque afinal um chorinho não faz mal a ninguém.
Data do artigo: Quarta-feira, 28 dAmerica/New_York Jan dAmerica/New_York 2009 às 4:54 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.