Escute o Prosa & Verso 077

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Músicas tocadas neste programa:
raul seixas – eterno carnaval
nelson gonçalves – se eu fosse getúlio
banda do canecão – zé pereira
nelson gonçalves - que é que eu vou dizer
emilinha borba – tomara que chova
chico buarque - frevo
valdir azevedo - vassourinhas
chico buarque - minha embaixada

Amanhã começa a acontecer o carnaval em Salvador, com a abertura à noite e a entrega das chaves simbólicas da cidade ao Rei Momo. Quem é esta figura chamada Rei Momo? Você sabe? Pois eu não sabia e fui pesquisar. Encontrei um texto bem explicativo no site Recanto das Letras. O autor é Fernando Kitzinger Dannemann e se chama REI MOMO - O dono do carnaval.

São as palavras de Fernando Dannemann:
A mitologia grega trata Momo, filho do Sono e da Noite, como o deus da zombaria, do sarcasmo, da galhofa, do delírio, da irreverência e do achincalhe. Diante do seu costume de criticar e ridicularizar os outros deuses, a divindade maior do Olimpo perdeu a paciência com ele e o despachou para a Terra, onde o divino deportado passou a ser representado por um jovem tirando a máscara e mostrando o rosto zombeteiro, ao mesmo tempo em que sacudia guizos e apresentava o estandarte da folia que era a razão da sua existência.

A coroação de um rei Momo na Terra vem de longa data, pois houve tempo em que na Roma antiga, durante a realização de determinadas festas, o soldado escolhido como o mais belo de todos era quem recebia a coroa de monarca brincalhão, o que lhe dava o direito de comer, beber e brincar até esgotar totalmente suas forças, sem que ninguém o impedisse de fazer coisa alguma. Depois de finda a farra, e ao contrário do que acontece hoje em dia, ele era solenemente levado ao altar do deus Saturno e ali sacrificado com todas as honras que merecia.

A figura de Momo no carnaval brasileiro surgiu em 1933, no Rio de Janeiro, graças a um cronista esportivo do jornal “A Noite” que apresentou aos carnavalescos um boneco feito em papelão e sugeriu sua indicação como comandante da folia. Esse boneco desfilou no centro da cidade, sendo depois colocado em seu trono para presidir de forma simbólica as comemorações daquele ano. Mas como os proprietários do jornal não se contentaram com o resultado conseguido, foi então iniciada uma campanha para escolher um rei de carne e osso, que acabou sendo o muito gordo Moraes Cardoso, responsável pela seção de turfe da empresa jornalística. Após ser vestido como rei e saudado com um “Vive le Roi” pelos seus colegas de redação, o jornalista desfilou pelas ruas da cidade, onde foi saudado com muita serpentina, confete e lança-perfume. Estava criada, assim, a figura do rei Momo, primeiro e único.

Moraes Cardoso reinou absoluto no carnaval carioca até 1948, quando faleceu. Depois, até 1967, seu substituto passou a ser escolhido por entidades carnavalescas e jornalistas, mas em 1968 sua eleição foi oficializada por lei estadual, e em 1988, por lei municipal. O concurso para a escolha do rei Momo, no Rio de Janeiro, tornou-se oficial em 1950, e desde essa época sua realização corresponde a um verdadeiro espetáculo popular. Assim termina o texto de Dannemann.

Uma outra personagem tradicional nos festejos carnavalescos é Zé Pereira. Zé Pereira não é uma pessoa. É uma espécie de bloco pacifista que se caracteriza pela batucada comandada por um bombo, um enorme tambor que hoje se conhece por surdo. É um pequeno bloco carnavalesco, mas tem uma estória. E o nome é de gente. Quem teria sido Zé Pereira que deu origem ao bloco? As informações que posso transmitir são discrepantes. Dizem que em Portugal o instrumento bombo tem o apelido de zé pereira e, se isto for verdade, a origem do nome está praticamente perdida. Outros dizem que um sapateiro português que morava no Rio de Janeiro se juntou com alguns companheiros e saíram em bloco num sábado de carnaval lá pelos anos de 1850, batucando em tamboretes e outros instrumentos improvisados, sob o comando de um bombo, que ele mesmo tocava. Pretendiam protestar contra a violência que grassava nos carnavais daquela época e resultou que foi muito aplaudido pelo povo que apoiava a idéia. Como se chamava José Nogueira, as pessoas passaram a gritar viva Zé Pereira! Trocando o nome Nogueira por Pereira, no meio daquela zoada toda. O bloco de Zé Nogueira, que passou a ser conhecido como zé pereira, fez escola e foi imitado nos carnavais seguintes, até os dias de hoje. É assim que se conta esta estória e é assim que vendo o peixe pelo mesmo preço com que comprei.

Quanto à origem do carnaval, são tão diversificadas as informações, que prefiro repassar aqui aquela que me parece a mais consistente. O nome carnaval teria sua origem na língua falada pelos romanos e, portanto, na língua latina. Em latim se diz caro, vale! Quando se quer dizer adeus, carne! Parece uma saudação de despedida aos excessos dos prazeres da carne, da comilança, bebedeira e libidinagem, todas distensões ou relaxamento dos limites, como é próprio do carnaval. E por que o adeus, a despedida? Porque o calendário cristão começará na quarta-feira, dita quarta-feira de cinzas, primeiro dia da quaresma. A quaresma é o período de 40 dias que faltam para chegar a semana santa, com as lembranças dos padecimentos e morte de Jesus. Por este motivo é um período de recesso dos grandes prazeres, quando se fazem os jejuns, as abstinências e até as mortificações físicas para remir os pecados do mundo. Lembrem-se que os teólogos cristãos apontavam, como os três inimigos do homem, o mundo, o diabo e a carne… Isto está ou pelo menos estava, quando os li faz alguns anos, nos catecismos católicos.

O carnaval é uma festa, uma explosão de alegria ingênua, pelo menos em sua generalidade. Mas também o carnaval tem sido utilizado pelos artistas mais pensantes e consequentemente mais críticos para, aproveitando o clima tolerante e mesmo desrepressivo, botar as unhas de fora e publicar suas zangas e indignações, principalmente contra o poder público em sua proverbial inoperância.

E quem disse que o carnaval não tem lugar para lirismo? A alegria não precisa ser carregada de agressividade e mau gosto. Foi contra tal agressividade e mau gosto que campeiam no carnaval que nasceu Zé Pereira. O frevo que vocês vão ouvir é um exemplo do que estou sugerindo.

Durante muitos anos foi o frevo a música de carnaval mais marcante aqui na Bahia e é aliás a música mais típica do carnaval, vez que o frevo não se tem prestado para outras ocasiões senão na folia momesca. Embora Caetano Veloso tenha dito em sua composição que o frevo nasceu na Bahia, o frevo de fato é originário de Recife e Olinda, em Pernambuco, que aliás sediam provavelmente o carnaval mais popular, tradicional e gracioso do Brasil, tendo no frevo o seu carro-chefe. Este frevo que vocês vão ouvir é a cara do carnaval. Chama-se Vassourinhas e é executado por Valdir Azevedo.

Até a próxima quarta-feira, no PROSA&VERSO com Jorge Rocha, a uma e meia da tarde.
Fique ouvindo Minha embaixada, na voz de Chico Buarque. Porque um chorinho não faz mal a ninguém.