Escute o Prosa & Verso 078

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Músicas tocadas neste programa:
joão gilberto – a felicidade
tira poeira e pedro miranda – a vida é um moinho
fagner - revelação
geraldo vandré – sonho de um carnaval
virgínia rodrigues – adeus batucada
gilberto gil – se eu quiser falar com deus
trem das onze

Faz alguns anos, presenciei em Salvador uma cena tragicômica ao lado do Banco do Brasil, no Comércio. Um cidadão de seus 60 anos estava conduzindo seu carro, procurando um lugar para estacionar, quando viu surgir uma vaga no estacionamento público bem ao lado do Banco. Foi cuidadosamente fazer a manobra, quando um outro veículo chegou rapidamente e preencheu a vaga, deixando o velho a ver navios. Este senhor tentou reclamar, mas ouviu do jovem motorista sorridente e debochado que era assim mesmo: que o mundo é dos espertos. O homem idoso não respondeu, entrou em seu carro e, engatando a marcha ré, chocou-se com vontade no carro do espertinho, deixando-o bem amassado. Diante da cara perplexa do rapaz, disse calmamente; o mundo é dos espertos… e dos ricos… É isto aí! Parece que aí está uma triste verdade: o mundo é dos espertos e dos ricos…

Com os feriados do carnaval, Morro do Chapéu recebeu visitantes, seus filhos ou não. Uns vieram em busca do sossego, do silêncio, da paz. Outros, inquietos, juntaram-se aos buliçosos da terra e foram fazer seu carnaval particular, felizmente fora da sede. Muitos foram para o Tareco, onde é costume se fazerem todo ano as folias do carnaval. Os que ficaram por aqui aproveitaram a paz dos que já estavam por cá, no sossego e no silêncio. Morro do Chapéu gozou daquilo que fez sua fama por lá por fora: durante estes dias, a tranqüilidade passou uns dias conosco. É bem verdade que a parcela que gosta da folia e que evidentemente a promove, foi fazer isto em outras paragens, o mundo não me pareceu tanto ser mesmo apenas dos espertos… e dos ricos. Nós, os simples mortais, tivemos nosso prazer. De qualquer modo, as regras de convivência social são necessárias, sem o cumprimento das quais a vida em comunidade torna-se insuportável. Só a ética e a consciência cidadã é que podem mesmo fazer frente à falta de limites tão em voga em nossa triste sociedade pós moderna. Enfim, o carnaval já aconteceu e hoje é quarta-feira de cinzas, lamentavelmente para muitos um dia de ressaca, melancolia e lamentações. Afinal, dizem que quem semeia vento colhe tempestade.

É bem verdade que momentos de desrepressão, desde que se mantenham os limites mínimos de convivência, são momentos que ajudam a descontrair, ajudam a limpar restos de frustrações, bolores da alma, resquícios de ressentimentos tolos e que fizeram ninhos dentro de nós, quando fomos reprimidos, recalcados e frustrados. E tendo sido reprimidos, recalcados e frustrados, tivemos a boca tapada, a voz calada e as lágrimas sustadas. A liberação dos costumes, o relaxamento das normas e a tolerância mútua podem proporcionar uma espécie de purgação da alma. Nesses momentos carnavalescos, temos a chance de deixar extravasar nossos impulsos aprisionados e de viver a fantasia da liberdade e da onipotência. Mas é preciso cuidado, porque do uso da chance ao abuso é apenas um passo. Afinal de contas, liberdade não é uma condição de que todos indiscriminadamente possam gozar. Mesmo a liberdade tem que estar acompanhada de responsabilidade.

Aí entra o papel da quarta-feira de cinzas e da quaresma, momentos religiosos, uma vez que uma sociedade despolitizada, sem consciência ética, sem espírito de cidadania, precisa de regras infelizmente autoritárias, que emanam em geral dos ditames religiosos. A quaresma é assim uma fase, digamos, de convalescença, de retorno ao curso normal da vida. E como todo convalescente, convém observar as práticas de repouso, tranqüilidade, silêncio, jejum e abstinência. É uma espécie de renascer sem ter morrido, como ocorre em todas as doenças e crises pelas quais passamos tantas vezes. É bem verdade que não morremos nas crises, mas experimentamos de certo modo pedacinhos de morte, que por sorte ou azar [quem sabe?], acabam resultando também numa espécie ressurreição. Isto é um dos mistérios da existência…

Uma lenda antiga fala de um pássaro fabuloso chamado fênix que vivia nos desertos das Arábias. Diz a lenda que a fênix, percebendo que se aproximava da morte, fazia um ninho com gravetos e folhas de ervas aromáticas secas e que nele se deitava a esperar. O sol do deserto ateava então fogo ao ninho e o pássaro era ali queimado até transformar-se todo em cinzas. Dessas cinzas renascia então uma nova fênix. Não sei se vocês pensam nisto, mas de minha parte suponho que todo o universo se comporta assim também e que as mortes, todas as mortes, acabam resultando em novas vidas. No mundo nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma. É um princípio que foi formulado por Lavoisier, um importante químico francês. Foi formulado, mas não inventado, porque esta é, digamos, uma lei da própria natureza, apenas reconhecida e enunciada por Lavoisier.

Em todos os cantos do mundo, vive-se falando em deus. Em geral, fala-se em um deus que é uma espécie de gênio da lâmpada, daquela de Aladim, uma espécie de servo de cada um de nós, que deve ser fiel a nós, que deve nos ajudar e salvar nossa pele dos esparros em que nos metemos e dos erros repetidos e conscientes que cometemos. Há até um plástico daqueles que se põem em parabrisas de carro que tem uma inscrição em letras garrafais dizendo: deus é fiel. Ora, quem teria que ser fiel não seria deus, mas seria o homem, se este homem não tivesse concebido um deus apenas para seu próprio benefício. Gilberto Gil nos dá de presente uma poesia-prece musicada que vocês vão ouvir agora. Mas é pra ouvir e pensar…

Fique ouvindo Trem das onze, porque um chorinho não faz mal a ninguém.