Escute o Prosa & Verso 079

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Músicas tocadas neste programa:
ana firmina – chico malandro
boy gê mendes – cumba iêta
nana matias – pays sol
teófilo chantre – nhá fé
valdir azevedo - carioquinha

Suponho que todo mundo tem e terá sempre alguma coisa para aprender. Suponho também que todo mundo tem e terá sempre alguma coisa a ensinar. O conhecimento pode ser encontrado nas escolas, nos livros ou nas experiências. A maior parte dos conhecimentos que cada um de nós tem, pelo menos dos conhecimentos necessários e indispensáveis para a sobrevivência, A maior parte dos conhecimentos nós adquirimos sem perceber, nos contatos que temos com nossos pais, irmãos mais velhos, amigos, vizinhos ou qualquer pessoa que vemos ou ouvimos. Sempre há alguma coisa para aprender, mesmo que a gente não perceba. Outros conhecimentos, para serem adquiridos, vão nos custar esforço, trabalho, interesse e dedicação. Temos que ler, estudar e prestar a atenção. Nem sempre é agradável estudar, quebrar a cabeça, queimar as pestanas, fundir a cuca, eu bem sei disso. Mas que é sempre gratificante aprender alguma coisa, isto também sei que é. Um dia eu vi e ouvi Clodovil na televisão, perguntando debochadamente: Quem é Lula? É apenas um torneiro mecânico que foi eleito presidente!… Eu, dizia ele, eu sei mais do que ele, eu tenho mais conhecimento do que ele!… Naquele momento, fiquei com pena de Clodovil, pela pobreza de sua alma e pelo que transbordava de vaidade, o que dá no mesmo, porque quanto mais vaidosos somos, menos nos conhecemos e, portanto, mais pobres são nossos espíritos.

Eu disse nesse instante que suponho que todo mundo tem e terá sempre alguma coisa para aprender. Disse também que suponho que todo mundo tem e terá sempre alguma coisa a ensinar. Mas também suponho que qualquer um que pensa que sabe, no fundo, no fundo, é um tolo. Ora, quando um vaso está cheio de água, por exemplo, já não vai haver espaço nenhum para caber mais uma gota. Da mesma maneira, quando alguém acha que já sabe, seja lá o que for, fecha as portas de entrada para novo aprendizado, aprendizado novo ou aprendizado que venha corrigir qualquer possível erro em seu conhecimento. Dizer eu sei, eu já sei, é apenas u’a manifestação corriqueira de nossa vaidade, que está sempre junto de nós nos cercando, nos colocando em armadilhas. E por falar em vaidade, vai aqui uma informação: vaidade é uma palavra muito usada para dizer que alguém se acha bonito, que só anda diante do espelho ou que gosta de se enfeitar. Mas vaidade tem um significado muito mais amplo. Não fica na aparência física, que é o menos importante. Nossa vaidade habita em nossa alma, bem no fundo do nosso coração. E nos embebeda, do mesmo modo que a cachaça embebeda uma pessoa. A vaidade é a presunção que temos de nós mesmos, como se fôssemos melhores, mais capazes, mais qualquer coisa do que realmente somos. Dizer eu sei, eu já sei é um modo de acreditar-se tão sabido que não caiba mais lugar para aprender mais. Seria triste, se não fosse ridículo, como ridículo foi aquilo que falou Clodovil, como eu mencionei há pouco.

Eu lia, já faz uns trinta anos, um periódico canadense publicado pela FAO. FAO é Organização das Nações Unidas para Combate à Fome e o periódico se chama ou se chamava, porque não sei se existe ainda, Idéias e Ação. Em um dos números de Idéias e Ação, li num artigo escrito por um educador indiano, dizendo que na Índia há 16 dialetos diferentes. A Índia é um país grande, o quarto ou quinto maior do mundo, e dialetos são as, digamos assim, sub-línguas faladas distintamente em cada região. Li que em cada um dos 16 dialetos indianos, havia apenas uma palavra para significar indistintamente aprender e ensinar. Trocando em miúdos, aqueles povos certamente tinham a compreensão de que ensinar e aprender fazem parte de um mesmo ato, de u’a mesma ação. Deste modo o professor aprende com o aluno enquanto ensina, e assim o aluno ensina ao professor enquanto aprende. Aquele que se considera apenas aprendiz ou apenas professor pode estar redondamente enganado e perdendo uma grande chance de enriquecer seu conhecimento. A atitude aberta ao aprendizado de coisas novas é, não só uma atitude inteligente, como é também uma atitude sábia. Aliás, um dos maiores, senão o maior dos sábios que o mundo já conheceu, Sócrates, que viveu na Grécia entre 400 a 300 anos A. C., costumava dizer só sei que nada sei… O sábio sabe mesmo é que não sabe.

Faz uns dois meses, alguém me disse que o programa Prosa & Verso fica malhando em ferro frio e que o público não tem nenhum interesse nos temas nem conhecimento dos assuntos aqui tratados. Afinal, disse ele, você insiste em divulgar no programa músicas que não são do gosto popular, músicas que ninguém mais aprecia. E acrescentou: todas aquelas informações sobre a história do Brasil de cem anos atrás entraram por um ouvido e saíram pelo outro, porque ninguém está mesmo interessado nisso. Eu, concretamente, não tenho como avaliar a audiência do Prosa & Verso, mas também não tenho a menor ilusão de que seja muito ouvido. Para vocês que neste momento estão na escuta, só posso assegurar que meu propósito é apenas compartilhar um pouco do que a vida me ensinou, sem me preocupar em convencer os ouvintes a que mudem de opinião sobre suas preferências. Mesmo porque não tenho a menor convicção de que o meu caminho, o caminho que escolhi na vida, deva ser o mesmo para as outras pessoas. O programa, por outro lado, desde sua primeira edição, está e continua aberto às críticas e sugestões.

As músicas que vocês ouviram no decorrer do programa de hoje não são músicas brasileiras. Apesar da grande semelhança, as composições e respectivas gravações vieram das ilhas de Cabo Verde, na África.
O cabo verde é um pequeno africano país situado na costa oeste da África, relativamente próximo do nordeste brasileiro. É constituído por umas 10 ilhas que começaram a ser habitadas há mais ou menos 500 anos. Foi colônia portuguesa até 1975 e, pela sua localização, foi um importante ponto comercial, principalmente no tráfico de escravos para as Américas, comércio de triste memória. Lá se fala a língua portuguesa, bastante modificada num dialeto crioulo, como vocês ouviram nas músicas transmitidas.