Qua 11 Mar 2009
Prosa & Verso 080 – DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
Escute o Prosa & Verso 080
Músicas tocadas neste programa: |
No domingo passado, dia 8 deste mês, comemorou-se o dia internacional da mulher e é por esta razão que o programa de hoje está assim dedicado a este tema, que envolve a igualdade sexual, o companheirismo e também o ranço do machismo que ainda impera na sociedade brasileira.
Amélia tem sido uma espécie de alvo das feministas, uma espécie de chacota, o símbolo do ridículo, da submissão da mulher ao homem. Ridículo porque tida como prazerosa e grata. Isto, no discurso feminista. Entretanto, uma leitura mais cuidadosa da composição de Ataulfo Alves e Mário Lago pode levar a uma compreensão bem diferente da usual.
Escute com atenção Saudades da Amélia, na voz de Roberto Silva.
O companheiro de Amélia cobra o quê dela? Submissão? Trabalho? O companheiro de Amélia a explora? Alega que lhe dava o sustento, e que em troca ela se submetia? Não. Ele lembra dela com saudade menos por sua submissão e mais por sua solidariedade, seu companheirismo. Ele não fala de seus atributos como boneca de cama, como empregada de copa e cozinha, como governanta. Ele fala dela como companheira. A composição foi feita em uma época cuja realidade da família era a de o homem trabalhar fora de casa e dividir o ganho com a mulher. Uma relação de dependência, de fato, mas possível de ser transformada em uma relação solidária e amorosa. Em troca, digamos, da divisão de seu ganho, o que o companheiro de Amélia quer é sua solidariedade. Relação de dependência seria exatamente o contrário. Que em troca do pagamento, Amélia lhe prestasse os seus serviços, como governanta, amante ou o que quer que fosse. Uma outra composição posterior, Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, é tipicamente machista e não se pode de fato colocar na mesma perspectiva que Amélia:
Ouça agora o samba Emília, ainda na voz de Roberto Silva:
Aqui há uma cobrança dos serviços de governanta, com todos os elogios a esta função. Um discurso machista, sim, pois enquanto ele paga seja lá com o que for, ela vive em função dele. Não é uma relação de companheirismo, mas uma relação serviçal. Aliás, isto me parece também uma espécie de denúncia ao que acontece comumente com os casamentos. Embora os tempos estejam mudando de modo mais ou menos acelerado desde a segunda metade do século XX, as mulheres são criadas e preparadas para o casamento, como uma figurante de segunda importância, quase que somente para dar satisfação aos homens. Um adágio muito em voga há 50 anos dizia que por trás de cada grande homem havia sempre uma grande mulher. Como no Japão antigo, em que a mulher devia estar sempre a caminhar dois passos atrás do seu homem. Por outro lado, temos de admitir que ao lado de muitas conquistas femininas nos últimos 50 anos, o atual Código Civil Brasileiro passou a considerar não mais o homem como o cabeça do casal, mas também a mulher, conforme seja o provedor da família. A música que vão escutar com Chico Buarque se chama Mulheres de Atenas.
Agora me ocorre uma outra modinha antiga, Malandrinha, também de discurso machista, porém evocando a figura da mulher, de outro ângulo: Após uma descrição da noite enluarada e do romantismo da serenata, o menestrel apela para o adocicado elogio da figura feminina que não passa então de uma espécie de bonequinha, de biscuit, enfim, de objeto de prazer:
Vamos ouvir esta composição de Freire Júnior chamada Malandrinha, na voz de Martinho da Vila.
Amor? Será que é isto que é amor? Vamos lembrar dos três homens de Terezinha de Jesus da cantiga de roda de nossa infância.
Escutem a ciranda.
Chico Buarque fez uma bela versão dessa cantiga de roda, a que chamou de Teresinha. Nesta versão de Chico Buarque, ele sinaliza três formas bem diferentes de relacionamento, mas conclui com a insinuação de que somente a terceira é de fato o amor esperado por Teresinha, aqui uma jovem afetivamente madura e centrada. A propósito, você já prestou atenção a esta música de Chico Buarque? Vamos ouvir Teresinha, na voz de Zizi Possi.
Data do artigo: Quarta-feira, 11 dAmerica/New_York Mar dAmerica/New_York 2009 às 4:31 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
1 comentário para o artigo “Prosa & Verso 080 – DIA INTERNACIONAL DA MULHER”
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.
Março 14th, 2010 at 9:39 am
Gostei muito de sua escrita, no entanto finalizei a leitura com a sensação de “sim, e o que pensar sobre isso?” quando vc cita a música Mulheres de Atenas e não faz nenhum “link” sobre sua letra e “significados” em relação ao discurso e ideias presente em seu texto. Desejo sugerir que preencha essa lacuna. Certamente adoraremos ler.
Abraços,
Ana