Qua 18 Mar 2009
Prosa & Verso 081 – A MULHER E O MACHISMO
Categoria: Prosa&Verso | Por Jorge Rocha|
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Músicas tocadas neste programa: |
Na semana passada, por causa do dia internacional da mulher, tratei aqui no programa do relacionamento mulher e homem, às vezes de companheirismo, outras de competição. Uma ouvinte me perguntou se eu queria dizer que a causa de as mulheres serem submissas e oprimidas estava nas atitudes dos homens. Não é o que penso, mas é o que posso ter dado a entender. Suponho que é u’a mentalidade antiga, porque todas as sociedades que conhecemos são patriarcais, isto é baseadas na autoridade do homem. É um fato que o sexo masculino detém maior força física do que o sexo feminino, embora também seja um fato que o sexo feminino é muito mais resistente do que o masculino. Só que na disputa primitiva, da força bruta e imediata, o homem sem dúvida sempre levou vantagem. O poder da mulher é exercido de outra maneira e não vou me alongar aqui falando sobre isto, que todos conhecem perfeitamente, inclusive por suas próprias vivências.
Temos que levar em conta por outro lado que a função de educar em casa é em quase todos os lares uma função feminina, uma função da mãe. Não que isto seja uma coisa natural, espontânea, mas o que ocorre é que os homens acabam empurrando este papel para a companheira. Aliás é um fato bem conhecido que os homens em casa não são muito dados ao diálogo. É uma raridade por exemplo que os maridos conversem com suas mulheres sobre suas fantasias sexuais, suas dúvidas, suas curiosidades e muito menos sobre suas dificuldades. Muitas vezes o desencontro sexual entre os casais também é jogado para cima da mulher que, mais uma vez passivamente, acaba aceitando como se fosse assim mesmo. Ora, como a educação dos filhos é uma tarefa frequentemente relegada à mãe e raramente assumida pelo pai, os valores são passados de geração a geração, em conformidade com a conduta que a própria mulher adota em sua vida conjugal. Trocando em miúdos, menino pode brincar, pode se aventurar, pode experimentar. Menina, não. Menina tem que ficar por perto e toda a sua instrução em casa visa a um casamento futuro. Não faz tanto tempo assim, no tempo do carrancismo, como se diz, era praticamente proibido à mulher freqüentar escola e estudar. Nossos avós viveram isto e os pais de muitos de nós também. É inacreditável que hoje em dia ainda exista quem encare a mulher como um ser inferior ao homem.
Faz uns 50 anos que as mulheres passaram a dar seus passos em busca da liberação feminina, em busca de sua emancipação. Há menos de 80 anos que a mulher nem sequer tinha direito de votar. Votar era coisa de homem… O fato é que a mulher, liberando-se de suas amarras e opressões, nem sempre tem a clareza do seu papel de cidadã. Daí, que os costumes começam a ser indiscriminadamente minados e ainda vai haver muita estrada para que a mulher venha a desempenhar seu papel de companheira equiparada ao papel dos homens. É pena que nos 50 anos de lutas das mulheres e dos muitos e muitos homens que dela participam pelos direitos iguais e pela relação companheira, homens empedernidos pelo machismo distorçam a aspiração de liberdade das mulheres e as próprias mulheres, ainda carentes da consciência política de sua condição, embarquem no mesmo esquema de banalização da sexualidade. No Rio Grande do Sul, o Ministério Público moveu uma ação contra a produtora de discos que lançou aquele arremedo de música chamado Um tapinha não dói, alegando que a letra justifica e incita a violência masculina a partir do comportamento sexual da mulher. Sustentaram ainda que a liberdade de expressão não é direito absoluto e tem limitações reconhecidas pela Constituição em face do princípio da dignidade. O juiz entendeu que houve dano moral difuso à mulher e estabeleceu a multa de R$500.000,00, que deverá ser revertida ao Fundo Federal de Defesa dos Direitos. Agora pense você, sem moralismo, mas com ética: se as mulheres viessem a assumir uma postura de resistência, e não a atual de colaboracionismo, provavelmente estaríamos prestes a ver o declínio e o esgotamento dessa sub-cultura da pornografia e do mal gosto. Parece utópico, não é? Mas sonhar não custa…
Os movimentos ativos para conseguir a igualdade de direito entre os sexos vêm mais ou menos de mãos dadas com os movimentos de igualdade de direitos entre os humanos de classes sociais diferentes, de cor de pele diferente, de preferências sexuais diferentes, de crenças religiosas diferentes, enfim até mesmo de idades diferentes, como é exemplo a vigência do Estatuto do Menor e do Adolescente. As leis existem para facilitar e até para possibilitar a convivência entre as pessoas. Assim, já existem avanços: como o próprio Estatuto do Menor e do Adolescente, o novo Código Civil que nivela os direitos do casal praticamente sem distinção de sexo, o debate amplo que se vislumbra num horizonte próximo sobre o direito de a mulher interromper uma gravidez indesejável, o que significa a legalização do aborto e assim por diante. Na marcha para uma sociedade nova, todas as formas de opressão têm que ser abolidas, como foi abolida um dia a escravidão dos negros. E é bom frisar que a opressão ou a submissão não se dá necessariamente de forma torpe e violenta, mas também se dá de forma dissimulada e paternalista. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Quem tem olhos para ver, veja.
Data do artigo: Quarta-feira, 18 dAmerica/New_York Mar dAmerica/New_York 2009 às 4:20 pm | Categoria : Prosa&Verso | Deixe um comentário
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Jorge Rocha, sexagenário, confia, como Demócrito, que tudo no universo é fruto da necessidade e do acaso. Cultua a filosofia do cotidiano, às vezes verseja e ocasionalmente é psiquiatra, para sobreviver.