Escute o Prosa & Verso 082

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Músicas tocadas neste programa:
silvio caldas - maria
silvio caldas – violões em funeral
silvio caldas – casinha pequenina
silvio caldas – minha palhoça
silvio caldas – no rancho fundo
época de ouro - noites cariocas

No dia 3 de fevereiro de 1998, morreu Sílvio Caldas. Você sabe quem foi Silvio Caldas? Pois, Silvio Caldas nasceu e foi criado no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Seu pai, que era afinador e consertador de pianos e também compositor com várias músicas publicadas, tinha uma pequena loja de instrumentos musicais e foi aí que Silvio Caldas deve ter-se iniciado na arte da música, embora tenha sido praticamente criado por uma vizinha, que no Carnaval formava o Bloco da Família Ideal com parentes e amigos. O pequeno Sílvio, chamado de Rouxinol da Família Ideal, cantava cavalgando o pescoço dos remadores de São Cristóvão.

Participava de festas, dançava e sapateava nas mesas dos bares, e cantava nas reuniões de amigos e com seis anos cantou um samba de bloco no Teatro Fênix, levado pelo pai, durante conferência literária.
Começou a trabalhar aos nove anos como aprendiz de mecânico e, aos 16, em 1924, saiu de casa para trabalhar em SP, onde foi leiteiro e exerceu outras atividades, como lavador de carros, cozinheiro de turma, motorista de caminhão e mecânico de manutenção dos caminhões das obras da estrada Rio-São Paulo. Quando voltou ao Rio de Janeiro, foi ouvido numa seresta por um cantor de tangos, que o levou à Rádio Mayrink Veiga. A partir de então, uma vida de sucessos.

O samba Faceira, de Ary Barroso, foi seu primeiro sucesso em disco. No mesmo ano, gravou ainda o samba-canção Maria, também de Ary Barroso em parceria com Luiz Peixoto. Este samba se tornou um clássico, que agora vamos ouvir.

Depois dessa arrancada, este grande seresteiro só teve sucessos em toda a sua vida, nunca amargou fases de baixa qualidade, como tanto acontecer a muitos artistas. Manteve assim sempre um bom nível em sua arte de cantor. Em 1992 recebeu a Medalha de Machado de Assis, concedida por unanimidade pela Academia Brasileira de Letras, por proposta de Jorge Amado. Viveu seus últimos 40 anos em seu sítio de Atibaia SP, onde veio a falecer há onze anos. Vou rodar um samba-canção de Fernando Lobo, gravado por ocasião da morte de Noel Rosa, pelo próprio Silvio Caldas, que se chama Violões em funeral.

Lembrando portanto os onze anos morte de Silvio Caldas, estou trazendo hoje algumas canções interpretadas por ele. Mas antes vamos voltar para Morro do Chapéu e comentar um fato daqui da região. Com a chegada abençoada das chuvas, o tema deste comentário de hoje fica parecendo um tanto quanto fora de hora. Mas, pensando bem, é nos tempos das vacas gordas que se previne a chegada dos tempos das vacas magras. E assim acontece com a educação também. A gente se educa a todo momento e não apenas nas horas difíceis. Este negócio de dar um jeitinho nas coisas, sem programar, sem planejar, chama-se jocosamente administração de susto. E administração de susto é uma prática nociva, lamentavelmente tida como bem brasileira, pela insistência do costume de assim proceder em nosso país, da maior autoridade ao mais humilde servidor. É por isso que trago aqui, agora, este comentário, seguindo a sabedoria popular que diz claramente que é melhor prevenir do que remediar. E a melhor forma de prevenir é a educação. Educação de todos nós, jovens e adultos, homens e mulheres.

Faz uns três meses, em um posto de gasolina perto daqui, havia uma pequena fila de carros esperando a vez de abastecer, quando desceu um homem de seus 28 ou 30 anos, sacou um cigarro da carteira, riscou um fósforo e acendeu o cigarro.

Ora, naqueles dias estavam sendo freqüentes as notícias de incêndios na região da chapada, incêndios estes de que em geral não se consegue descobrir a causa. E ali estava, junto às bombas de gasolina, um adulto de 28 a 30 anos, motorista de um carro com passageiros, irresponsavelmente acendendo um cigarro pertinho do abastecimento da gasolina, enquanto que por cima de sua cabeça, logo ali colado na coluna estava um cartaz bem grande que dizia: É proibido fumar nesta área.

Que fazer? Aparentemente, as pessoas que se encontravam no local ficaram visivelmente constrangidas, mas nada disseram, não interferiram, pois certamente não queriam desagradar o inadequado fumante. Nisto, um cidadão de idade que estava no local resolveu mostrar ao fumante imprudente que havia um cartaz de proibição de fumar, colado na parede bem ali.

Debochadamente, o cara do cigarro respondeu, rindo: fique tranqüilo, não se preocupe não, que não tem perigo. E continuou impassível a fumar seu cigarro. E todos os que ali estavam continuaram submetidos ao risco de uma explosão, enquanto o irresponsável permanecia fumando, com a maior cara de pau.

Agora eu pergunto: Isto é liberdade? Ou, pelo contrário, não será isto um abuso que a rigor deveria ser coibido, já que o próprio infrator das normas de segurança não tem desconfiômetro nem escrúpulo nem educação para regular seu próprio comportamento?

Você, que está ouvindo, que é que você acha?

Direito tem quem direito anda. É um slogan usado nos sindicatos que pode muito bem ser estendido à convivência na sociedade.

Cada um de nós tem o dever de refletir sobre estas coisas e de procurar adequar seu comportamento, para possibilitar uma convivência social saudável e construtiva. É na conduta do indivíduo que começa a se formar sua consciência de cidadão. E que pode começar a se operar u’a mudança na sociedade. Pra melhor. É o que nós queremos e é o que vocês certamente querem. Compreendo perfeitamente que faz parte do pensamento rebelde dos jovens insurgir-se contra a autoridade. Faz parte da vitalidade da juventude a contestação dos costumes, das regras e até, usando uma palavra extravagante, a transgressão das normas. Aos jovens é facultada a tolerância até mesmo quando transgridem a Lei. Por isto é que existe o expediente jurídico chamando de réu primário atribuído àquele que comete um crime pela primeira vez. E, naturalmente, quem é réu primário goza de maior tolerância no seu julgamento e na sentença de sua punição. Só que a tolerância não pode transformar-se em permissividade. Não me canso de repetir que errar é um atributo humano e que o erro pode muitas vezes levar ao acerto no momento seguinte. Acontece porém que se não temos consciência de refletir e avaliar nossos erros, se não temos humildade para reconhece-los, vamos acabar repetindo e repetindo, e vamos nos tornar, como se diz na linguagem comum, useiros e vezeiros. Neste caso, não se justifica a tolerância. Para corrigir um useiro e vezeiro, que não faz qualquer movimento para se corrigir, não há outro recurso senão a repressão e o castigo. É deste modo que funciona o convívio social.

Fique ouvindo Noites cariocas, com o conjunto Época de ouro, porque um chorinho não faz mal a ninguém.