Escute o Prosa & Verso 083

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Músicas tocadas neste programa:
adoniran barbosa - samba do arnesto
nelson gonçalves - aos pés da santa cruz
juca chaves – pena preta de urubu
teresa cristina e grupo semente – jurar com lágrimas
paulinho da viola - por que mentir
valdir azevedo – choro negro

Dia da mentira! É assim que a gente encara o dia 1º de abril. Todo mundo desconfia de que a gente está brincando quando a gente conta alguma coisa ou tenta marcar um compromisso para esta data. De onde vem esta tradição?
Parece que tudo começou na Europa, no século 16. Naquela época, o calendário usado era diferente do nosso. Era o calendário juliano, com o ano novo começando no mês de abril e não em janeiro, como atualmente. O calendário juliano começou a vigorar 50 antes de Cristo e seu nome decorre do nome do imperador romano, que se chamava Júlio César. O calendário juliano substituiu o calendário romano. Pois bem, 1.600 anos depois, no século 16, o papa Gregório 13 determinou, como antes Júlio César tinha feito, que o tempo então fosse marcado de acordo com um novo calendário, que passou a se chamar calendário gregoriano. A partir daí, o ano não começaria mais em abril, mas sim em janeiro. Como naquele tempo não existiam internet, televisão, rádio, nem mesmo jornais, as notícias demoravam de se difundir, às vezes passando meses e anos. Deste modo, as regiões mais distantes continuavam a marcar o início do ano novo no mês de abril, enquanto que oficialmente o ano já tinha começado em janeiro. Imaginem vocês a confusão que aconteceu durante muito tempo. Os gozadores se aproveitavam disto para fazer brincadeiras e pregar peças nos outros, contando notícias falsas e fazendo tratos que não eram cumpridos. Tudo mentira e gozação, sempre que chegava o dia 1º de abril. O costume se espalhou pelo resto do mundo, ficando o dia 1º de abril conhecido como o dia da mentira.

Já ouvi muito meu pai repetir pra nós, os filhos, que a mentira tem pernas curtas e que é mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo. Assim, desde a tenra infância, aprendi a encarar a verdade mesmo que a verdade seja dolorosa e cruel. Mais tarde, li no evangelho de João uma frase atribuída a Jesus de Nazaré, onde ele dizia que a verdade liberta. Que é a verdade? Perguntou ao mesmo Jesus, dois ou três anos depois, o governador Pôncio Pilatos. Perguntou e saiu logo. Não ficou para ouvir a resposta. Apressou-se em sair para lavar as mãos… Ficamos todos nós imaginando qual seria a resposta. E cada um acaba então inventando sua resposta. O fato é que vivemos todos mergulhados num mundo de mentiras, tão mergulhados como mergulhados vivem os peixes nas águas dos mares, dos rios, dos lagos e dos aquários. Parafraseando o pensador Nietzsche, a pior mentira é aquela travestida de verdade irretocável. As crenças absolutas, indiscutíveis, há muitos anos que me vêm provocando desconfiança. Tenho medo até de mim mesmo, quando estou com medo de encarar a verdade, isto é de ser sincero e de me esconder por trás de afirmações que não têm o menor fundamento e que só acabam servindo para deixar a consciência leves. Quando agimos assim, lavamos as mãos, como fez Pilatos.

A mim me parece que a verdade não é algo tão objetivo, mas sim algo bem interno, que vem da alma da pessoa que fala. A verdade tem mais a ver com a sinceridade de quem fala do que com a semelhança do relato com o fato em si. É curioso que, nos tribunais, as testemunhas tenham que jurar sobre a Bíblia, que vão dizer a verdade e nada mais do que a verdade. O juramento sobre a Bíblia não assegura a ninguém que a verdade vai ser dita. Mas o medo de ser acusado de perjúrio, este sim, coage a testemunha a dizer a verdade, entre aspas, porque aquele que é sincero, honesto, não precisaria jurar. Afinal, a verdade é o que lhe parece, como diria Luigi Pirandello, autor dramático e romancista italiano e prêmio Nobel de Literatura em 1934: Assim é, se lhe parece.

Às vezes nós mentimos para os outros porque estamos mentindo para nós mesmos. Muitas e muitas vezes nós tiramos um dia para, digamos assim, fazer caridade. Ora caridade mesmo é reconhecer o valor da outra pessoa, como gente, como irmão porque é parte da humanidade, como cidadão, independentemente das diferenças que tenha conosco. Mas nossa caridade pode se limitar apenas a dar esmolas e com isto deixar nossa consciência tranqüila: fiz minha boa ação, dizemos a nós mesmos e em nossas orações quando vamos dormir. Pensamos que, enganando os outros, enganamos também a nós mesmos. Outras vezes nos enganamos pelo orgulho, pela vaidade de acharmos que somos melhores do que na realidade somos. E tentamos enganar os outros, para que acreditem que somos mais bondosos, mais agradáveis, mais competentes, mais importantes, mais bacanas e até mais bonitos do que de fato somos. E quantas vezes dizemos que amamos alguém, que somos amigos, que seremos sempre fiéis, unidos para sempre? Em última análise, a verdade acaba se revelando pelas nossas ações, pela nossa prática, mesmo que nossas palavras sejam bonitas, brilhantes, mansas e … falsas.

Por que se mente? É um bom assunto para se pensar, procurar entender por que alguém mente. Só refletindo é que podemos entender os que mentem, inclusive nós mesmos, que aqui ou acolá mentimos também. Mentir é um sintoma da alma doente ou ameaçada, como febre e dor é um sintoma do corpo doente ou ameaçado. Mentimos pelos mais diversos motivos, justificáveis ou não. Mas a mentira, como qualquer mau costume, é como qualquer droga que tomamos. No começo, causa um certo constrangimento e desprazer, um sentimento de culpa, uma vergonha. Depois, com a repetição, vamos ficando calejados e passamos a não sentir mais qualquer incômodo em mentir. Pouco a pouco, como acontece com uma droga, passamos a mentir com a maior facilidade. Daí em diante podemos dizer que a mentira já viciou, que o mentiroso sente necessidade de mentir e até prazer por enganar os outros. Mente que não sente, como se costuma dizer. E para o mentiroso passa a ser tão natural mentir como beber água, sentir fome, dormir.