Escute o Prosa & Verso 084

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Músicas tocadas neste programa:
jamelão – nervos de aço
gastão formenti – arrependimento
núbia lafaiette - lama
jamelão – vingança
chico buarque – uma canção desnaturada
época de ouro – um a zero

Tendemos a pensar que a paixão é um amor forte e ardente, que a paixão é desejável, que estarmos apaixonados é uma felicidade. Ficamos iludidos quando alguém se apaixona por nós ou quando imaginamos que isto venha a acontecer. Por outro lado, nós em geral achamos que o contrário, o oposto, o inverso do amor é o ódio. Ledo engano. Mais uma das ilusões da vida, porque a maior parte do que acreditamos em nossas vidas não passa mesmo de engano, de ilusão. E quanto mais temos certeza, mais iludidos estamos. No caso específico das chamadas relações amorosas, o engano é flagrante. Isto se pode comprovar no fato corriqueiro de que pessoas, antes apaixonadas, virem a mesa e se tornem inimigas ferozes, quando supostamente uma teria traído a outra. A que se sente traída, desabafa com amargura, dizendo-se decepcionada. A dor da perda resulta em lamentação, em baixa auto-estima e daí em impulsos violentos e destrutivos. Paixão e ódio são duas faces de uma mesma moeda.

Mas os sentimentos não ocorrem sempre tão subitamente. Eles evoluem, fermentam, cozinham e vão mudando paulatinamente. E sua transformação pode ser lenta. Muitas vezes o início da separação ainda traz expressões melosas que parecem de carinho, que vão mudando pouco a pouco e acabem dando lugar ao ódio e ao horror.

Aquele desejo de morte ou de dor que ouvimos na canção Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues não é a única forma de exprimir o ódio. O ódio pode ser sorrateiro no ataque, na ofensa. O ódio pode manifestar-se de forma desmoralizante, como acontece no sarcasmo, na gozação cruel e impiedosa, na aparência de uma brincadeira inocente, como por exemplo quando um dos pares do casal desqualifica o outro em público, aponta seus defeitos que sabidamente causam vergonha. E isto é tão comum e, quando acontece, nós que estamos de lado também ficamos constrangidos com as alfinetadas que os namorados ou casais dão entre si. É o próprio desamor brotando. Depois da separação, então, nem se fala. A agressividade, onde antes havia paixão, é fogo.

Afinal, cada qual é agressivo como pode. Um toma um jeito de gozador e em suas gozações espeta o outro até machucá-lo e humilhá-lo. Por trás da gozação e de um cínico e mentiroso bom humor, não faz outra coisa senão depreciar, diminuir a pessoa a quem, vejam só, um dia fazia carícias. E agora tudo o que pretende é fazê-la sofrer, desmoralizando-a. Assim se dá com uns casais que se separam, mesmo antes da separação. Quanto mais intensa é a paixão, mais profundo é o rancor e o sofrimento. Outro jeito de demonstrar o ódio, é a franca agressão, por palavras ou por atos. É o ódio nu e cru. A palavra mais apropriada para este jeito de sentir e agir é Vingança.

Embora o assunto que eu trouxe hoje seja ainda um desdobramento das reflexões motivadas pelo dia da mulher, que foi há três semanas, quero mencionar um ódio mortal que decorre de um suposto amor tido como tão sublime, que é o amor dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. Mesmo este amor, que é um amor de dedicação, um amor instintivo, de renúncia e perdão, mesmo este amor pode degenerar em ódio, tanto dos filhos para com os pais quanto dos pais para com os filhos. Diferentemente, no entanto, do amor-ódio entre os amantes, ao qual estamos mais ou menos acostumados, qualquer evidência deste amor-ódio entre pais e filhos, principalmente quando envolve a tão decantada e reverenciada mãe, provoca em todos nós um certo horror e amargura. Prestem uma atenção especial à letra desta canção que vão ouvir e que se chama Uma canção desnaturada.