Que dizer a respeito do dilema primordial a que se refere Albert Camus, em A Lenda de Sísifo? Escolher entre viver e morrer? Não se pode, porque viver não é uma escolha. Morrer pode ser, mas viver não! O máximo que se pode escolher é deixar-se viver, deixar-se morrer ou suicidar-se [dar-se a morte a si mesmo, sui sibi mortem dare].

Renunciar à vida, sim. E isto corresponde ao deixar-se morrer ou a suicidar-se. Mas, renunciar à morte, o que corresponderia a escolher o viver, isto é impossível.

A vida é um dom gratuito. Aceitá-lo é uma escolha.

A morte é um dom compulsório. Não há como escolher entre aceitá-lo ou não aceitá-lo.

Já a vida, não. Podemos aceitá-la ou não aceitá-la. A vida é uma oferta, um presente dos deuses, em sua crueldade e humor insondável.

Mas a morte é um ato de misericórdia, uma contrapartida amorosa a um presente, que pode ser ilusório, como um presente de grego.

Sempre ao acaso, que são as linhas tortas com que os deuses escrevem certo: as linhas tortas são a vida; o certo é a morte.

Admito que isto é uma reflexão essencialmente mística, não estritamente racional. Só um louco poderia amar, apreciar e até desejar a morte. Mas, onde está o limite e a contradição propriamente dita entre a loucura e a sabedoria?

Lendo o livro de Coélet, deixo entrar em contato com meu solipso o solipso de outrem. Certamente que não serei eu o único louco, nem o único a não discernir entre a sabedoria e a loucura…

Em outras palavras, só os loucos e os místicos desejam morrer, embora por razões diferentes… Talvez nas tais razões diferentes residam as distinções entre o louco e o sábio, se é que de fato as há, como suponho.