Escute o Prosa & Verso 085

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Músicas tocadas neste programa:
augusto calheiros – dúvida
raça negra – ciúme de você
orlando dias – ciúme de tudo
elton medeiros – ciúme doentio
andrea costalima - nunca e louco
raul seixas – a maçã
marisa monte e conjunto época de ouro – onde andarás

Ainda sobre o chamado relacionamento amoroso, cumpre dizer que algumas afirmações frequentemente ouvidas e mesmo repetidas por nós, aliás, pela maioria das pessoas, devem ser repensadas direitinho. Muita coisa que aprendemos no decorrer da vida e acreditamos durante longo tempo não passa de enganos. E as crenças, certamente mantidas por muito tempo e por muitas pessoas, tomam o caráter de verdades intocáveis. Talvez a pior mentira seja a verdade intocável. Então escutamos, e repetimos muitas vezes, que o ciúme é um sinal de amor e que não tendo ciúme não é amor. Ora, suponho que ninguém pode definir com precisão o que seja o amor. Mas cada um de nós pode lançar um olhar crítico sobre isto e não só pode, mas deve refletir sobre o que seja o amor. Muito se tem dito a respeito, muitas poesias têm sido feitas, muito estudo tem sido realizado sobre o assunto. Mas nós continuamos ignorantes. Na verdade, não quero aqui falar do amor, mas da paixão, do ciúme, da posse, que são certamente doenças do afeto.

Não conheço um só exemplo de ciúme gerando felicidade e bem-estar. Muito pelo contrário, só tenho visto é que o ciúme só produz mal-estar e sofrimento. Só faz ferir, tanto ao ciumento quanto ao objeto do seu ciúme. Mas o ciúme não depende da nossa vontade. Depende muito mais do conhecimento de si mesmo, porque o ciúme pertence a quem o sente e não ao outro. Muita gente alega que sente ciúmes, como se com isso estivesse fazendo uma confissão de amor. E muita gente acredita também que, se provoca ciúme, estimula o amor. É um engano ingênuo, tolo e nocivo.

Por que, efetivamente, temos ciúme? No fundo, no fundo, o ciúme é o medo de perder. Ora, só podemos perder o que possuímos ou o que acreditamos possuir. Entretanto, para possuirmos outra pessoa, temos que transformá-la em um objeto, em uma coisa, em um animal. Uma pessoa, para reduzir-se a ser propriedade de outro, teria que deixar de ser gente, como se tentou tanto na época da escravidão. Pois é, na época da escravatura, os negros e os escravos eram considerados animais sem alma, apenas parecidos com os humanos, mas não eram humanos. Isto tornava a escravidão legítima aos olhos dos poderosos que assim podiam capturar, vender, comprar, enfim possuir, ser donos e, portanto, escravizar aqueles que a seu ver não eram seres humanos. Por mais chocante que pareça, este é o mesmo mecanismo da paixão e do seu apêndice, o ciúme. E tudo em nome do amor…

Madame Rolland, guilhotinada pela Revolução Francesa, exclamou: Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome! Agora, digo eu, não só em nome da liberdade se cometem crimes, mas também em nome da democracia, em nome da honra, em nome de Deus, em nome do progresso, em nome da família… e em nome do amor… A paixão, a posse do outro, o ciúme produzem aqui e ali o chamado crime passional, palavra que veio do latim, passio, que significa justamente paixão. A afeição arrebatadora, que se costuma chamar paixão, é própria da adolescência e da juventude. Mas não da maturidade. Paixão na maturidade torna-se doença. Assim, o ciúme é mesmo algo doentio.

Um grande problema é que os relacionamentos desfeitos deixam profundas e dolorosas feridas e às vezes a dor acompanha também as cicatrizes. Ninguém nasceu predeterminado a viver na companhia de quem quer que seja. A relação amorosa deve, sim, ser baseada na livre escolha, porque o amor é um ato de vontade. Daí que não dá pra entender que as pessoas afirmem que se amam, sem haver confiança mútua. E quando não há confiança mútua, não se trata propriamente de uma relação amorosa.

E o amor ideal? O amor sem posse, sem ciúme, sem cobrança? O amor incondicional, aquele que não impõe nenhuma condição para existir? Será que há esse amor? Onde está ele? Eu não sei, mas suponho que não se pode amar quando não se conhece o outro, quando não se considera o outro como o ele é e não como a gente quer que o outro seja. E mais: amar não é anular-se frente ao outro. Até mesmo o rigoroso e idealista preceito cristão manda amar ao próximo como a si mesmo e não mais do que a si mesmo. Difícil mesmo este tal de amar!