Escute o Prosa & Verso 087

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Músicas tocadas neste programa:
nelson gonçalves – será que nunca me amaste?
noedson - passageiro
dalva de oliveira – que será?
ciro monteiro – o que se leva dessa vida
doris day – que será será

Uma fábula antiga conta que uma raposa que vinha pela estrada encontrou uma parreira com uvas madurinhas. Passou horas pulando tentando pegá-las, mas sem sucesso algum… Saiu murmurando, dizendo que não as queria mesmo, porque estavam verdes. Quando já estava indo, um pouco mais à frente, escutou um barulho como se alguma coisa tivesse caído no chão… voltou correndo pensando serem as uvas, mas quando chegou lá, para sua decepção, era apenas uma folha que havia caído da parreira. A raposa decepcionada virou as costas e foi-se embora, dizendo: ora, também as uvas estavam verdes…
Assim quantas vezes também nós nos iludimos e arranjamos uma desculpa, apenas para não encararmos de frente a verdade que nos decepciona?

A incerteza gera a dúvida e a dúvida provoca desconforto. Para nós, normalmente o desconforto da dúvida é atroz e nos faz sofrer. Então acabamos por lançar mão de um recurso chamado pelos psicanalistas de racionalização. A racionalização é aquilo que a raposa da fábula fez, quando não pôde alcançar as uvas madurinhas que ela tanto desejou e tentou abocanhar. Ela racionalizou, dizendo para si mesma que, afinal, as uvas estavam verdes. A racionalização é um recurso que nós todos usamos frequentemente. Quando racionalizamos, estamos pregando u’a mentira para nós mesmos. Ocorre que esta mentira facilmente se transforma em crença e, por outro lado, a crença nos deixa tranquilos. Uma tranqüilidade falsa, ilusória, enganadora, porque a certeza é a mãe da decepção. Ao contrário, a dúvida é de fato o que motiva a busca, a procura e possibilita o encontro. É do famoso orador romano Caio Túlio Cécero esta frase que ficou famosa: É duvidando que chegamos à verdade.

Existe uma lenda que suponho seja eslava, em que um velho camponês vive com um filho e juntos cuidam de sua terra. Segundo a lenda, o velho é rico em sabedoria, que conseguiu adquirir com sua experiência de vida. É para que presta a maturidade, para se consolidar a experiência. E a chamada terceira idade, para ruminá-la e transformá-la em lições de sabedoria. Dizem que a experiência é um farol que ilumina para trás. Não sei se está certa esta proposição, mas talvez esteja. Talvez a experiência e a sabedoria dos anciãos realmente possam iluminar os mais jovens que puderem e quiserem beber desta fonte. Pois bem, no caso da lenda eslava, a sabedoria do velho camponês está cristalizada em sua atitude serena diante dos fatos que ainda lhe ocorrem, a ele e aos outros ao seu redor, porque é esta serenidade que o mantém em paz, diante dos presentes da vida, bem como diante dos percalços. A lenda eslava está publicada no site redeaberta.com.br.

Muitas vezes, em nossas vidas, ficamos desesperados porque alguma coisa não deu certo. Não deu certo, entenda bem, como queríamos que desse. Os antigos tinham um ditado que diz: Deus escreve certo por linhas tortas. Suponho que ser fiel a Deus não é pretender que Deus faça acontecer aquilo que a gente deseja. Que sabemos nós? Somos uns tolos e ignorantes. Então, quando não acontece aquilo que desejamos, ficamos decepcionados e às vezes ficamos mesmo desesperados. É a conseqüência da frustração. E quando encafifamos porque estamos frustrados, grudamos como visgo de jaca aos nossos planos que não deram certo e perdemos tanto tempo lamentando, quando deveríamos mudar de atitude e nos resignar com as perdas ou com aquilo que o acaso não nos deixou ter ou realizar. E a idéia fixa nos deixa cegos para novas oportunidades e só nos causa mais sofrimento.

Finalmente, vou me reportar de novo ao Livro do Eclesiastes, muito rico em sabedoria. O único bem do homem, diz ele, é comer e beber e gozar o fruto de sua fadiga. Esta frase bíblica se encontra aqui na música popular, que também é prenhe de sabedoria. Está aqui o samba O que se leva dessa vida, interpretado por Ciro Monteiro.