Maio 2009


Escute o Prosa & Verso 091

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Músicas tocadas neste programa:
beth carvalho - meu guri
miltinho - menina-moça
tira poeira e pedro miranda – o mundo é um moinho
bebel gilberto e pedrinho rodrigues – escurinho
roberto silva - escurinho
chico buarque – pivete

Eles costumam andar em bandos, falam alto e se atropelam quando estão falando. Em casa, no quarto ou na sala, estão sempre esparramados nos sofás, nas poltronas, nas almofadas. Com seus tênis sujos de terra, entram e saem sem a menor cerimônia. Se estão estudando, ligam o rádio ou a TV a todo volume. Estou falando de adolescentes, esta espécime tão desalinhada, esquisita e tão estranha que nos faz pensar que nunca passamos por aquela faixa de idade, que nunca fomos como eles. E porque nossa memória é fraca, somos tão intolerantes com os primeiros filhos que chegam à adolescência. A partir daí, ou amadurecemos nós ou nos tornamos calejados e passamos a conviver melhor com os outros filhos que vêm depois. Nosso ideal de perfeição, aquele ideal que costumamos alimentar, desejando que cada filho nosso seja perfeito, seja um modelo para os outros jovens, esse ideal de perfeição é um dos fatores que mais nos provocam ansiedade, desgosto e medo. É um dos fatores que nos fazem perguntar com tanta freqüência: onde foi que errei? E mais raramente: onde foi que erramos? Digo que é freqüente se perguntar: onde foi que errei, e raro se perguntar: onde foi que erramos, porque, se na vida em geral acontece a tendência de acusarmos outra pessoa da culpa pelos erros que cometemos, é mais comum ainda entre os casais um acusar o outro pelos erros na educação dos filhos. Em geral temos uma visão curta, embotada pela afetividade, quando avaliamos nossos próprios filhos.
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Escute o Prosa & Verso 090

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Músicas tocadas neste programa:
unidos de vila Isabel – trabalhadores do brasil
edson e hudson - cidadão
martinho da vila – o pequeno burguês
xangai – trabalhadores do metrô
filarmônicas lira morrense e minerva – obedece a quem sabe

Para construir o teor deste programa de hoje, estou partindo de três pressupostos bíblicos: O primeiro se encontra no Gênesis, quando sabiamente, há alguns milhares de anos, o autor desse livro deixou clara sua percepção de como viveriam ou deveriam viver os homens sobre a terra. Diz ali que Deus, criador do mundo, sentenciou: Vão ter que se alimentar dos frutos do seu trabalho. Nas palavras literais da tradução vulgata, “comerás o pão com o suor do teu rosto”. Assim a humanidade foi, digamos, condenada à sina da labuta, do trabalho para sobreviver. As crianças, os idosos e os inválidos evidentemente não podem trabalhar para manter-se. Estas categorias de pessoas precisam de outras pessoas que sejam capazes, para que trabalhem por elas, a fim de lhes fornecerem tudo o que for indispensável à manutenção de suas vidas. O segundo pressuposto bíblico está nos evangelhos, numa assertiva de Jesus de Nazaré, quando diz que “o trabalhador é digno do produto do seu trabalho”. Finalmente, o terceiro pressuposto está no livro do Eclesiastes, que diz bem assim: “a felicidade do homem consiste em sobreviver às custas do trabalho e da labuta que ele mesmo realiza, em seus dias de fadiga”.
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Escute o Prosa & Verso 089

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Músicas tocadas neste programa:
raul seixas – mosca na sopa
raul seixas – let me sing, let me sing
raul seixas – gita, ouro de tolo e eu nasci há dez mil anos
raul seixas – carimbador maluco
raul seixas – metamorfose ambulante
altamiro carrilho – pinguinho de gente

Não se assustem! Hoje o Prosa&Verso vai tocar rock brasileiro e prosar um pouco sobre um dos seus expoentes.
Raul Seixas nasceu em Salvador, em 28 de junho de 1945. Filho da mesma região e geração que Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa entre tantos outros que definiram o movimento chamado Tropicália. Raul teve ao contrário destes em sua infância maior contato e assimilação do rock and roll em virtude de ser vizinho e amigo de filhos de famílias americanas que trabalhavam para o consulado americano na Bahia. Fã ardoroso de Elvis Presley, fundou aos 14 anos um fã-clube brasileiro do cantor, chamado Elvis Rock Club. Mais cedo, aos 12 anos de idade, foi fundador e integrante do conjunto The Panthers, que mais tarde se tornou Os Panteras, primeiro grupo de rock de Salvador a usar instrumentos elétricos, passando a tocar em cidades do interior baiano.
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Escute o Prosa & Verso 088

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Músicas tocadas neste programa:
chico buarque – amanhã, ninguém sabe
lupicínio rodrigues – esses moços
ataulfo alves – meus tempos de criança
martinho da vila e nelson gonçalves – lembranças
almir sater – a saudade é uma estrada longa
djarumami – galo bedjo

Antônio Paim estava chegando aos dezoito anos, mas era homem feito. Embora não tivesse crescido muito, era um cara forte e atarracado e, principalmente, malicioso, agressivo e malvado. Todos os adolescentes entre onze e dezessete anos, estudantes daquele colégio interno, tinham medo de Paim, o sujeito três emes, maldoso, malvado e maldito para todos nós. Eu tinha completado doze anos.

No terreno da escola havia uns coqueiros e a turma logo aprendeu a colher os cocos e a esconder no meio do mato, em tocas bem camufladas, cobertas com palhas e galhos, pra merendar quando tivesse uma chance. Isto porque a disciplina era rigorosa e nem sempre era possível sair da área para desfrutar dos cocos e de outras frutas que a gente conseguia colher às escondidas. Então, quando alguém conseguia colher as frutas antes que estivessem maduras, bem como os cocos verdes mas bem aguados, escondia para saborear depois. Esses esconderijos a gente costumava chamar de minas.
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